O VÔO PERFUMADO DA TAMARA


(4/12/1997)

Evaristo Eduardo de Miranda

Nestes dias de advento ganhamos mais um anjo da guarda. A Tamara, doce menina especial, dedo de luz na noite de seus familiares e amigos, decidiu encontrar-se com a Tamiris. Aos seis anos de idade, ela voou – do Instituto da Criança do HC – para o encontro de sua irmãzinha que, como ela, na terna idade, caminhou para a eternidade. O dia e o mês eram o mesmo. Sinal de coincidência e perfeição. Oxalá, na hora de nossa hora, seja encontrada em nós alguma semelhança com as almas desses dois anjos que vieram nos visitar.

Como com suas bonecas, em suas brincadeiras de médica, a Tamara deixou suas recomendações para os que choram a presença de sua ausência: sejam fortes, não tenham medo, não vai doer. Mas dói, os médicos sabem disso e a doutora Tamara, na plenitude da infância, também sabia. Nós, também. Por isso, como quem assegura o óbvio e declara a evidência, a Tamara disse ao embarcar rumo a unidade de terapia intensiva: – Tchau vovó, a Tamara ama vovó! Essas palavras valem para todos nós e são nossas também. Tchau significa até a vista, até logo. Ela nunca se entregou ao desânimo, à melancolia e ao medo, apesar de todos os sofrimentos infligidos pela doença e pelo mundo dos frágeis humanos. A nós de seguir o seu exemplo, chama viva de amor.

O pai, a avó, as tias… Muitos familiares pretendiam criar e educar a Tamara na fé e ajudá-la, ao longo da vida, a caminhar para Deus. Muitos deles esperavam morrer antes da Tamara e precedê-la nos céus. Mas a vida mudou suas vidas. É a Tamara quem precede seus pais e amigos no Reino da Eternidade. Ela nos precede a todos. É ela quem nos indica o caminho para Deus. É ela quem abre uma porta no céu para sua família. É ela quem vai ajudá-los a caminhar para Deus. Ao nos tornarmos como ela, como criança, também poderemos entrar na plenitude desse reino dos céus.

O Pai celeste acolheu esta vida. Ela escapou de nossas mãos, mas nunca das suas. As mãos desse Deus – que é Pai, Filho e Espírito Santo -, infinitamente melhores do que as nossas, sustentam e guardam esta filha para a toda a eternidade. Como a Tamara, Santa Teresinha do Menino Jesus, cheia das intimidades com Jesus, ao sentir faltar o ar da Terra em seus últimos momentos, começou a pedir o ar do Céu. Jesus a atendeu, como atendeu a Tamara. Na plenitude desse Sopro, desse Ar, desse Espírito, a Tamara inspira e exala no seio da Luz. Por abrigar agora a Tamara, com todos os santos e as santas de Deus, o nosso céu está ainda mais radiante e desejável.

Ciente de seu destino celeste e de sua responsabilidade angélica, a Tamara acordava cedo, postava-se silenciosamente na cama dos familiares e zelava pelo seu sono. Agora, zelará pelos seus sonhos. Perto do Pai, intercederá por todos nós. Seu testemunho, de quem acordava e dormia brincando, nos ajudará a afiar a espada de nossos desejos na mó do amor e do absoluto. Com suas competências, ela vai ter muito trabalho no céu, zelando pela vida das crianças deficientes, e especialmente por aqueles que, como ela, têm um cromossomo a mais.

Na perspectiva cristã, todas as crianças são mais do que o mero resultado de uma aventura sexual. São mais do que um acidente biológico. A inserção de suas pessoas na árvore da vida, na videira verdadeira, as diferencia, as insere numa outra genealogia e as ajuda a vencer a morte. As crianças não vêm ao mundo para pagar dívidas impagáveis. Não vêm ao mundo para realizar sonhos ou projetos dos pais ou, pior ainda, como fiadoras de seus desejos ou vítimas de seus devaneios. E muito menos para enfrentar fatalidades. Elas nascem com direito a uma vida plena e eterna.

Por mais filhos que Deus possa dar a nossas famílias, a Tamara era única! Por mais crianças que Deus agracie nossa comunidade, esta criança era única! Sua lembrança não se apagará! Fruto do amor, sua curta existência foi um testemunho pelo amor despertado entre nós! Tamara significa, em árabe, dedo de luz, lembra a forma e a transparência luminosa dos frutos da tamareira. Pai, no teu amor, nós entregamos esta pequenina luz em tuas mãos. Ela brilha agora, como uma estrelinha, no céu da eternidade.

Abençoada seja a alteridade da nossa especial Tamara, semente divina plantada na terra dos viventes. Ela cresceu e floresceu em nossas praças. Sinal do toque divino, da mão de Deus em nossos destinos, como benção e graça. O dedo de luz e o dedo de Deus são a mesma coisa! O nome latino da palmeira da tâmara é Phoenix. Ele evoca esse pássaro maravilhoso e mitológico, símbolo alquímico da ressurreição, do ressurgimento após as piores provações, a fênix. Capaz de renascer de sua própria essência, de suas cinzas, símbolo da purificação, a fênix Tamara, como nos dizeres de René Char, nos deixou – da noite de sua felicidade – a aparência perfumada das elipses dos pássaros intocáveis.

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