O VINHO DA FESTA


(19/6/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

Guardia Piemontese. Calábria. Em plena noite, o caçula da família é enviado pela mãe viúva para buscar os irmãos. Eles tardavam numa festa, em outro vilarejo. Ele os encontra em plena luta, com um grupo de agressores. Junta-se aos irmãos e conseguem escapar, deixando um morto e um ferido no local. Diante dos tribunais, a mãe coloca toda a culpa sobre o caçula. Na dureza da vida rural do século XIX, a viúva precisava dos fortes braços dos maiores para sobreviver. Lógica cruel, lógica camponesa. O menor é condenado. Vicenzo vai para uma sórdida prisão com 16 anos, mergulhado em infinita amargura. Na cadeia de Montesarchio estuda contabilidade, direito, grego, latim, francês… Com sua bela caligrafia ajuda a redigir processos verbais. Os juizes o levam a tiracolo, de cima para baixo, para redigir os mais diversos atos jurídicos. Com 24 anos obtém anistia. Quer fugir de tudo e todos. Quer desaparecer do mundo. Esquecer os seus, sua terra e tanta injustiça. Como esquecer as uvas da ira? Embarca para o Brasil.

Araraquara. Uberaba. Campinas. S. João da Boa Vista. Culto e letrado, Vicente encontra trabalho facilmente como administrador da mão de obra italiana, pobre e analfabeta. Aprende o português, cuida da contabilidade, dá aulas aos colonos e até para os filhos dos quatrocentões proprietários das fazendas. Organiza os trabalhadores, reivindica seus direitos. É demitido e admitido com freqüência. Muda de cidade em cidade. Teve dez filhos em cinco cidades diferentes. Escreve diálogos, apólogos e muitos sonetos. Publica seus textos em jornais do Brasil e da Itália. Seus textos evocam Beatrice Cenci (1577-1599), cuja vida inspirou Shelley, Stendhal e Arthaud, os horrores da epidemia de cólera em Nápoles em 1884, Dante Alighieri, Giuseppe Garibaldi, Vittorio Emanuelle II e a Itália.

Caracol. Andradas. Entre 1901 e 1905 preside a Societá Principe di Napoli e Conte di Torino na vila de Caracol. Termina trabalhando para um homem poderoso, produtor de vinhos e ligado ao corpo diplomático. O fazendeiro, da estirpe dos desbravadores, possui terras, parreirais e filhos. A caçula é a única mulher. Controlada pelo pai e vigiada pelos seis irmãos, acredita-se que nunca casará. Mas é com um comerciante de vinhos que o casamento acontece um dia. Cumprindo uma promessa pública, o pai organiza uma semana de festa. Vicente é encarregado de organizar a comida e a acolhida de centenas de convidados, vindos de S. Paulo e da capital federal, o Rio de Janeiro. Centenas de coches e carruagens negras alinham-se em uma área previamente preparada. Todos os cavalos recebem o devido trato. Quanto mais, os convidados. O fazendeiro solicita a Vicente uma ajuda para “fazer sala” e, se possível, que ele diga algumas palavras. Algumas palavras? Não, eu farei um discurso, afirma com convicção.

Solo pátrio. Dia do casamento. Todos reunidos, num festival de chapéus e roupas de estilo. Vicente começa seu longo e surpreendente discurso. Sem anotações. Gravado na caligrafia de sua mente. No terreiro da fazenda, à distância, os colonos italianos – descalços, malvestidos e analfabetos – observam, ouvem. Diante de tão nobre platéia de convidados, ele dirige-se aos noivos e evoca a importância do matrimônio, em um português impecável. Inicia citando o direito romano, o patriarcado, o matriarcado e os aspectos jurídicos do casamento. Depois, aborda sua dimensão social e cultural, evocando a história e tantos casamentos decisivos para a vida dos povos e das dinastias. Os Ribeiros, os Junqueiras, os Penteados, os Ferrãos, os Silva, os Dias Leme, os Tavares… escutam atônitos e maravilhados. Vicente penetra nas realidades psicológicas da vida conjugal, do estar juntos, conjugados, cônjuges. Viaja pela literatura, Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Beatrice Cenci… Conclui evocando o casamento em sua dimensão espiritual. Comenta as bodas de Caná, o milagre do vinho e o sentido desse sacramento que os noivos celebram diante de Cristo: “o homem deixará pai e mãe, se unirá a sua mulher e serão numa só carne.

De la stalla alla stella. Quando termina recebe uma ovação. Dos pobres operários seus patrícios, mantidos a distância, aos mais nobres convidados. Todos se levantam em gritos e aplausos. As lágrimas são abundantes nos rostos dos familiares. Muitos ficam mudos, incapazes de pronunciar palavra. Corre o burburinho: Quem é esse homem? Um magistrado? Um professor universitário? É advogado? É diplomata? É desembargador? Ele é o quê?… Quando os aplausos serenam e todos retomam seus lugares, Vicente Aloe se levanta para responder. Faz um giro sobre si mesmo. Obtém um silêncio total. Diante de toda a sua história, ele gira lentamente e medita. As uvas da ira amadureceram e transformaram-se em bom vinho. Ele é o quê?… Vicenzo responde a todas as perguntas com uma frase simples e definitiva: – Io sono italiano!

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