O TESOURO DOS CABRAIS


(5/9/2011)

Evaristo Eduardo de Miranda

Quem nunca ouviu a expressão: Conhece-te a ti mesmo! Segundo a tradição, esse aforismo estaria inscrito nos pórticos do Oráculo de Delfos, na Antiga Grécia. Ele foi tomado como a pedra angular da filosofia de Sócrates, como ponto de partida do “eu” socrático. Sócrates fez da filosofia um exame incessante de si próprio e dos outros, de si próprio em relação aos outros e dos outros em relação a si próprio.

Santos, mestres e líderes espirituais devem ajudar seus discípulos a descobrirem-se a si mesmos. A encontrarem a riqueza de respostas que encerra sua vida interior, sua vida espiritual. Isso é como um antídoto contra o culto da personalidade, tão comum em movimentos sociais, políticos, religiosos e em regimes e governos ditatoriais.

Sobre esse desafio do homem em busca de sua humanidade, conta a seguinte lenda, repleta de meta-história, o príncipe D. Luiz de Orleans e Bragança: No século XII, onde hoje se encontra a cidadezinha medieval de Belmonte, no alto da Serra da Beira anterior, não distante da Serra da Estrela, no centro do Portugal vivia um aldeão que não encontrava meio para se libertar da miséria em que vivia. Por mais que se empenhasse, não arranjava emprego nem outro meio honesto de tornar sua existência menos árdua. Entretanto, como era muito devoto de Nossa Senhora da Esperança e confiava que Ela lhe concederia uma solução para o problema que o afligia, não esmorecia em suas orações: rezava e rezava, dias, meses a fio, sem desanimar, sem que seu pedido fosse atendido.

Certa noite, uma voz comunicou-lhe durante o sono: “Vá a Belém, vá a Belém”. E a mesma voz, em noites sucessivas, se fez ouvir com o mesmo conselho. Em desespero de causa, o pobre homem resolveu ir à Terra Santa. Conseguiu que um navio de cruzados nórdicos e ingleses, que fez escala em Portugal, o admitisse a bordo. E seguiu até o porto de Haifa, de onde se dirigiu a Belém. Ali procurou longamente encontrar o auxilio que esperava da Santíssima Virgem.

Por fim, desanimado pelo insucesso de suas buscas, foi se confessar com um ermitão. Este lhe passou uma descompostura: “És um tonto, um bruto, um selvagem! Onde já se viu acreditar em sonhos! Há uma semana sonho toda noite que em Portugal, na cidade de Belmonte, há um tesouro enterrado ao pé da oliveira centenária que fica ao lado da igreja de Nossa Senhora da Esperança. Eu nem penso em me deslocar para lá, pois não sei onde fica Portugal, nem se existe essa cidade de Belmonte, e não tenho a intenção de averiguar!”

Após ouvir tudo em silêncio, o português saiu célere e embarcou no primeiro navio que passaria por Portugal. Lá chegando, dirigiu-se como um raio até Belmonte, cavou junto da oliveira e encontrou uma cabra e um cabrito… de ouro maciço! (…)

Segundo essa lenda, dele descenderia a nobre estirpe dos Cabrais, muito devotos de Nossa Senhora da Esperança e em cujas armas figuram uma cabra e um cabrito; armas que eram as do descobridor do Brasil: na nau capitânia de esquadra que chegou a Porto Seguro Pedro Álvares Cabral trazia, em lugar de honra, uma imagem de sua celeste Protetora. Assim termina o hassídico relato de D. Luiz.

Todos cristãos devem ir até Jerusalém para descobrir que existe um tesouro em Belmonte. Vamos à igreja, participamos de pastorais, militamos em movimentos, buscamos instrução em seminários, cursos e leituras para irmos a nós mesmos. Como na psicanálise, devemos passar pela palavra do outro, para que possamos ouvir o ressoar de nossas próprias palavras.

Jesus convida seus discípulos a buscar e cavoucar em terrenos desconhecidos. O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido (Mt 13,44). É na força do diálogo e do encontro com o outro, na família, na comunidade, no trabalho, na internet e no mundo que, pela via espiritual, descobriremos os tesouros enterrados sob o chão de nossas cozinhas.

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