O SOL ILUMINA A BASÍLICA DE S. LUÍS


(27/5/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

Um dos mais belos espetáculos da natureza é o por do sol. Na Tunísia, vizinha à antiga cidade de Cartago, está a colina de Sidi Bou Said, com seus jardins coloridos, casas brancas de janelas azuis e belas ruas arborizadas. O conjunto inteiro repousa num pequeno promontório, cercado pelo mar.

No início de primavera, as andorinhas voltigent em meio a um festival de tons celestes, entre o verde escuro do mar ocidental, o laranja avermelhado do céu do ocaso e o azul metálico das águas do Oriente. Ora parecem peixes voando nos céus, ora parecem pássaros nadando no mar.

Coroada de um verde pálido, mediterrânico, a imponente basílica ou antiga catedral de São Luís ainda domina a colina de Byrsa emCartago, vizinha à de Sidi Bou Said. É como um prolongamento natural da elevação, dirigido aos céus. O sol ilumina e destaca sua sóbria solidão. No crepúsculo, a luz solar parece entalhar seu perfil resplandecente e dourado, sobre um fundo de veludo azul marinho. Graças à cotidiana fidelidade solar, esse edifício desabrocha em todos finais de tarde, como uma espécie de flor de lis mirando o ocidente. A basílica foi construída onde, acredita-se, faleceu o rei santo da França, Luís IX, no início de sua cruzada, deitado como um monge num leito de cinzas. Hoje, a antiga basílica encontra-se adossada a um museu a céu aberto, na entrada de um vasto sítio arqueológico: cartaginês, romano, protocristão, bárbaro e bizantino. Desde 1993 o edifício é chamado de Acropolium de Cartago, um nome pagão, de ares romanos, já que é utilizado para desfiles de moda, encontros, exposições e concertos.

A disposição, a grandiosidade e o formato ora quadrado, ora circular, de suas torres frontais, laterais e central lembram um pouco a basílica do Sacre Coeur de Paris, pois são coroadas por domos arredondados. Mas suas cores são de um ocre ligeiramente avermelhado, e não brancas como na basílica da colina de Montmartre. São rochas trazidas de Malta por descendentes dos cruzados que financiaram parte dessa obra. Seu desenho tem a forma de cruz latina com 65 metros por 30 metros. No seu interior 174 colunas de mármore e 284 vitrais! Os vitrais da nave central representam São Luís e Santo Agostinho, os patronos dessa catedral. As paredes externas desse bastião parecem contaminadas pelo deserto, pela areia e pelo sangue esmaecido dos mártires e combatentes da Cristandade. As torres perderam suas cruzes. Ver uma basílica, cujas cruzes foram destruídas, pelos homens e pelo tempo, choca os olhos e o sentimento estético e religioso cristão. O pior é constatar o vilipêndio a que tem sido submetida.

Enquanto no Brasil, ainda lembramos o dia da primeira missa, em 22 de abril de 1500, como o do nascimento de uma nação católica, sob o signo da cruz, aqui a memória é diferente. Quando terá sido celebrada a última missa nesta basílica? Há muitas décadas atrás. Os católicos, uma minoria na Tunísia, ainda preservam sua acolhedora catedral no centro da cidade de Túnis. Uma espécie de ilha ou fortaleza sitiada. Já a basílica dedicada a São Luís foi desafetada, dizem os guias turísticos. Tomado aos franceses quando da independência do país, por seu simbolismo mal entendido, o templo foi dessacralizado, na perspectiva cristã. O profano ocupou o lugar do sagrado. A igreja foi profanada.

Hoje todo interior está despojado de suas imagens e alegorias. Os vitrais em parte destruídos. A força do feio, do mau gosto, tenta apagar os vestígios do belo, do harmonioso. Penetrar no seu interior pode ser uma dolorosa experiência. O local serve aleatoriamente para desfiles de moda, filmagens, concertos, eventos leigos e mundanos, numa das sociedades islâmicas mais ocidentalizadas de todo mundo árabe, aquela que deu início à primeira “primavera” política. A introdução voluntária de cópias grotescas de antigas esculturas romanas no local contamina o conjunto com a falsa idéia de um paganismo cristão: Roma = Vaticano, romanos = cristãos, imagens = idolatria… Ali fora o local de um antigo templo dedica a Esculápio pelos romanos. Há muito que refletir sobre tudo isso. Poucos são capazes de fazê-lo.

Num pátio lateral, como restos de um apocalipse, foram deixadas em meio a um pequeno jardim, algumas imagens da antiga basílica. À sombra de uma árvore, encostada no exterior de uma capela lateral, está uma singela imagem de Nossa Senhora, tamanho natural, praticamente intacta, em mármore branco. Não consigo saber seu título. Assemelha-se à representação de Nossa Senhora das Graças. Talvez seja Nossa Senhora de Cartago. Não sei. Seu olhar de Mãe é compassivo. Um leve sorriso aflora nos seus lábios. Seus braços e suas mãos estendidas estão sempre prestes a perdoar e a derramar graças e bênçãos. Fico imóvel, por um tempo indefinido, diante dessa Mãe sorridente. Gostaria de levá-la comigo, mas é evidentemente impossível.

Saindo do local deparo-me com o verde esmaecido das terras bíblicas, das paragens palestinas, das estradas dos apóstolos, das sendas mediterrânicas. Um verde feito de plantas locais e exóticas. Praticamente, elas nunca perdem suas folhas: oliveiras, ciprestes, pinheiros, tamaris, eucaliptos, louros… Na base da colina da basílica de S. Luís, o branco do casario de Cartago, como no tempo das guerras púnicas, ainda resiste brilhante à chegada marítima da noite, enfrentando face a face essa sombria infiltração oriental.

O vento de oeste ondula os ciprestes e faz sorrir as folhas ruidosas dos tufos das palmeiras anãs, o Chamaeropis humilis. Essa palmeirinha não é tropical. É o único exemplar dessa família vegetal, em estado selvagem, em terras européias. Sua distribuição chega ao sul da França. A tamareira, filha dos oásis e habitante do deserto, não sobrevive tão ao norte.

Enquanto a cacofonia dos múltiplos alto falantes nas torres quadradas das numerosas mesquitas repete o canto dos muezim, chamando das almádenas os fiéis à oração, lanço um último olhar à sorridente Nossa Senhora. E repito, antes de deixar o local, o que já havia feito aos seus pés, uma silenciosa prece em latim: Salve Regina, mater misericordiae, vita dulcedo, et spes nostra, salve… Um perfume de jasmim toma conta de todos os sentidos. Aqui por perto sofreram o martírio Santa Perpétua e Felicidade, S. Cipriano. S. Hipólito, S. Marcelino, São Félix, Santa Júlia, Santa Generosa e os 300 santos mártires (Massa Candida). Aqui por perto viveram Santa Mônica, Santa Paula, Santa Restituta e Santa Máxima. Aqui por perto pregaram e ensinaram São Fulgêncio, S. Vitor, Santo Alípio e Santo Agostinho.

Enquanto meus pés descem os degraus da colina, meus dedos percorrem o rosário. Lembro as ladainhas pascais e batismais. Lembro a evocação dos santos que aqui viveram e foram martirizados, como em tantos lugares nesta terra de exílio. O martírio não acabou. Nem aqui, nem na profanação mais dolorosa que ainda hoje sofrem tantas igrejas do Ocidente pelas mãos, atitudes e comportamentos de maus católicos. Principalmente pelo abandono, pela defecção que as entrega à laicização, transformadas em bares, teatros e outros destinos profanos. Mas aqui, e em toda parte, a gesta dos antepassados resiste e perpetua-se como um perfume, entre terra e mar, como um alento místico entre o céu e o deserto, vibrando nos corações dos soldados de Cristo. Deus o quer.

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