O ROMEIRO E O ROMÁRIO

(7/7/1994)

Evaristo Eduardo de Miranda

Algum brasileiro terá dúvidas a quem devemos a classificação do Brasil para as quartas de final da Copa do Mundo de Futebol? Ao Romário, nos pés de quem ficamos pendurados esperando a salvação que felizmente ainda não falhou. Mas e o Romário? A quem ele deve suas jogadas e gols? Não dúvida possível: a Deus. Após cada bola na trave, cada chute ameaçador, o craque da camisa 11 sempre faz, compenetrado, o sinal da cruz. Enquanto a Nação confia em Romário, ele mesmo confia em Deus. Que sorte a nossa!

Muitos se lembrarão da Copa de 1970 onde o nosso atacante Jairzinho, por exemplo, também comemorava seus gols de joelhos e fazendo o sinal da cruz. Mas em Romário esse agradecimento vale o tempo todo. Mesmo quando ele não marca gol. E na hora do gol, quando ele poderia levantar um dedo e com o número um comercial estampar uma imagem no vídeo – que talvez lhe rendesse bons milhares de dólares – , ele prefere levantar os olhos para Deus.

Enquanto os locutores e comentaristas incrédulos vão gastando seu pobre vocabulário evocando milagres, salvação, estado de graça e jogada divina. O Romário vai mantendo esse vínculo estreito com o sagrado. Ele sabe, desde o bairro da Penha no subúrbio do Rio de Janeiro onde viveu, que tudo que fez também ‚ obra de Deus. Nestes dias, ele doou os três mil dólares que ganhou como melhor jogador de cada partida para a Campanha do Betinho contra a Fome. Ele sabe que seus dons pessoais são empréstimos dos céus que ele soube valorizar. Talvez ele não peça a Deus de fazer gols, mas agradece a Deus os gols que faz. Ele sempre viveu nesse ambiente de conversa com Deus em sua família e com muita intensidade no caso do sequestro de seu pai, como ele mesmo declarou.

Para sorte nossa o Romário tem essa integração do seu interior com o seu exterior. Essa importante harmonia deve lhe evitar cair em armadilhas que um raivoso ou irado inconsciente arma quando nunca‚ visitado por seu senhor. Armadilhas que podem levar alguém insuspeitável como o Leonardo a dar uma cotovelada inútil e inexplicável que fraturou o rosto do adversário e o tirou do jogo e da Copa.

Agora, ao enfrentarmos os calvinistas da Holanda, é bom lembrar que Deus pode ser também um consolo na derrota. Como parte dos torcedores estarátalvez pedindo ajuda dos céus, já que falta firmeza no time terrestre, vale recordar que o nome do nosso craque ‚ praticamente homônimo de rosário e romeiro.

Romeiro ‚ aquele que, vivendo o desapego, sai em busca de um aparente santuário. No fundo o romeiro deixa pai, deixa mãe, deixa o país, deixa os seus deuses e vai à busca de si mesmo. Como diz a música Romaria “O meu pai foi pião, minha mãe solidão, meus irmãos perderam-se na vida em busca de aventuras…”. Ao longo do caminho, nas provas e aventuras que se apresentam, o romeiro não se perde, pois tem uma meta e vai dialogando consigo mesmo e por isso com Deus. Chega ao santuário refeito e fortalecido para o desafio da vida comum de cada dia.

Se essa Copa e esse nosso “romeiro” Rosário nos ajudarem, deixaremos de lado o apego a uma imagem ainda triunfalista que temos de nosso futebol. Se com humildade – na derrota ou na vitória – aprendermos a ver melhor quem realmente somos, já teremos uma grande sagração. Como na música Romaria, que o sagrado ilumine a mina escura e funde o trem da nossa vida.

 

 

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