O QUE É O HOMEM?


(03/11/2008)

Evaristo Eduardo de Miranda

O mistério da encarnação do Verbo, do Deus que se fez homem e habitou entre nós, coloca radicalmente essa pergunta: o que é o homem? No quê, em quê, Deus se encarnou?

A vida espiritual nos revela: o homem que eu sou, não pode ser esgotado e não se resume ao que eu faço ou ao que eu digo. Nisso reside um mistério. Talvez, o mistério da nossa encarnação, da nossa humanidade. Nós somos mais do que aparentamos ou cremos ser. Mais, no sentido qualitativo. Quem percebe que sua realidade não se esgota no que ele diz, deseja, sonha ou faz, aproxima-se do seu mistério. O homem não é cognoscível de fato, isso é evidente, mas ele também não é cognoscível de direito. Nosso ser é mistério, de direito e de fato.

As ciências humanas têm a tendência de querer fazer do homem um fenômeno relevante para suas disciplinas, para seus estudos. Em face desse positivismo, de um humano passível de estudos e esclarecimentos, repetível e previsível, a vida espiritual leva à descoberta do homem como mistério. Face às afirmações ilusórias das ciências, às crenças da Nova Era e das seitas, para a espiritualidade cristã o homem é uma realidade que pode ser apreendida, mas que não pode ser definida. Somos mistério.

Talvez, ao aprofundar-se o conhecimento sobre a realidade misteriosa do humano, poder-se-á chegar às outras questões que as ciências humanas tentam responder. Então, compreenderemos melhor o mistério da encarnação, essa revelação que é Jesus e sua relação com Deus. Então, a abordagem, a aproximação do mistério de Deus e do mistério de Jesus se fará através da abordagem de nosso próprio mistério. Nós também, de certa forma, nascemos numa manjedoura. E foi o que, de certa forma, afirmou o S.S. Papa:

“O homem é a via da Igreja. E a família é a expressão primordial dessa via. O mistério da encarnação do Verbo está em estreita relação com a família humana. Não apenas com uma, a de Nazaré, mas de certa forma com cada família…” afirmou o Papa João Paulo II no Congresso Pastoral Teológico do Rio de Janeiro em 1997. Ou como diria minha avó: a cada bebê que nasce, é como se Deus voltasse à Terra.

Os grandes místicos da Igreja ensinam: ao descobrirmos o mistério do homem, nós seremos capazes de nos aproximar suficientemente do mistério de Jesus e, através dele, do mistério de Deus. Pela via espiritual, deixaremos de lado as concepções espontâneas e panteístas de Deus.

A concepção panteísta nos vem de uma herança milenar em que Deus é, sobretudo, a explicação do mundo e um pouco o seu fabricante e organizador, aquele que provoca os acontecimentos como uma segunda causa. Deixaremos de lado o panteísmo intuitivo e também aquele tão elaborado dos teólogos recém-convertidos à salvação da natureza, do planeta e de Gaia, em face às ameaças ambientais. Nós descobriremos o verdadeiro Deus, através da realidade misteriosa de Jesus e de sua relação com aquele que ele chama de Pai.

A fórmula da Igreja: Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nos orienta no sentido de uma aproximação do mistério do homem e de Deus. Assim, como conclui Marcel Legault, Deus aparece como a ponta extrema e final, o ápice do caminho que nós poderemos fazer durante toda a nossa vida, ao descobrir progressivamente essa realidade misteriosa que nos é acessível.

Se Deus é radicalmente impensável, Ele nos é acessível na medida em que nós podemos nos aproximar de nossa própria realidade. Essa é a questão fundamental. Essa questão não pode ser resolvida e sua resposta não pode ser possuída, pois depende de cada um de nós. Ela condiciona a vida espiritual. E ela também necessita, para ser carregada sem ser resolvida, que nós tenhamos uma grandeza humana suficiente para entrar na inteligência da grandeza humana de Jesus de Nazaré.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. O que é o homem? Jornal Universidade, Curitiba – PR, p. 04 – 05, 2008.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. O que é o homem? A Tribuna, Campinas – SP, p. 13, 2008.

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