O PRIMEIRO MANDAMENTO


(11/3/2004)

Evaristo Eduardo de Miranda

A pergunta pode parecer banal para um cristão ou um judeu: qual o primeiro mandamento da lei de Deus? O primeiro reflexo seria responder: Amar a Deus sobre todas as coisas. Pois não é bem assim o que está no texto bíblico. No livro do Deuteronômio, a mais antiga versão da proclamação dos mandamentos na Bíblia começa assim: “Ouve Israel! O Senhor nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de todo o teu ser e de todas as tuas forças. Os mandamentos que hoje te dou serão gravados no teu coração” (Dt 5,6,). O primeiro mandamento é ouvir. Ouve Israel, Shemá Israel em hebraico, a oração cotidiana dos judeus. A primeira palavra, a primeira ordem, o primeiro mandamento é escutar, é ouvir. Não é ver, nem sentir, nem falar. Para os católicos, nem ao mundo importa ouvir. E sim escutar a palavra e a vontade do Senhor e deixar-se dirigir por Ele.

Para os católicos, ouvir é fundamental. Na Anunciação, foi pelo ouvido, pela audição, que a virgem Maria concebeu Jesus. Na Bíblia, lê-se com frequência esta expressão de fidelidade: Fala Senhor, o teu servo ouve! A visão engana e a Bíblia e a vida estão repletas de exemplos. A língua é vista como o leme do barco, do corpo, da pessoa e, facilmente, pode leva-la ao naufrágio. Talvez isso explique, em parte, o excepcional desenvolvimento da música, e em particular da música sacra, no Ocidente. Certa vez, ao chegar à igreja de Notre Dame em Paris encontrei-a repleta. Com dificuldade consegui ficar de pé, atrás de uma de suas colunas. Não podia ver o altar, situado em posição oposta. Resignado limitei-me a ouvir. E logo a música do órgão, ao qual se somou um coral de vozes, nos elevou ao sétimo céu. Durante mais de uma hora, apenas ouvi. O judaísmo e o cristianismo produziram grandes músicos e extraordinários compositores. E uma música sacra inigualável, desde o canto gregoriano.

Contudo, o que os católicos mais ouvem nas últimas décadas não é a música clássica ou sacra. Ouvem com compaixão críticas infindáveis à Igreja, por parte de laicos, ateus e mesmo cristãos. Criticar e “bater” na Igreja tornou-se um verdadeiro “esporte nacional”. A mídia, salvo honrosas e raríssimas exceções, em versões simplistas e dogmáticas, critica tudo e todos na Igreja: doutrina, organização, moral, espiritualidade, ética religiosa, ações pastorais, movimentos, celibato, iniciativas de evangelização, cúria romana, hierarquia eclesial, episcopado, papado etc. Se uma parcela dessa crítica fosse aplicada a outras minorias religiosas ou sociais, causaria grande revolta. É algo impensável, politicamente incorreto. No caso da Igreja católica não é. Pelo contrário, parece até politicamente correto, critica-la de forma sistemática e desmedida. Falar mal da Igreja “pega bem”, como disse um editorialista.

Um exemplo emblemático foi a eleição do Papa. Não católicos formularam um programa de governo para o futuro Papa: modernizar a Igreja, mudar sua moral, seus princípios etc. Já fora assim, na eleição do Papa anterior. Naquela ocasião, ao assumir a cátedra de S. Pedro, o Papa disse: “Queridos amigos. Neste momento não necessito apresentar um programa de governo. (…) Meu verdadeiro programa de governo é não fazer minha vontade, não seguir minhas próprias ideias, mas me colocar, junto a toda a Igreja, à escuta da palavra e da vontade do Senhor e me deixar dirigir por Ele”. E não pelo mundo.

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