O PRIMEIRO ITALIANO


(15/6/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

“… vi e conheci os variados movimentos da fortuna,

e como movia estes bens caducos e transitórios,

e como um tempo tem o homem no topo da roda,

e outro o repele de si, e o priva de bens, que se podem dizer emprestados;

de modo que sabido o contínuo trabalho que o homem põe em conquistá-los, como se submeter a tantas incomodidades e perigos,

decidi deixar de fazer o mercador,

e pôr o meu fim em coisas mais louváveis e firmes,

que foi que me dispus a ir ver parte do mundo, e as suas maravilhas”.

Muitos imaginam que a presença italiana no Brasil começa na segunda metade do século XIX com o grande movimento migratório que trouxe mais um milhão e meio de italianos para o Brasil. Na realidade a presença italiana no Brasil tem mais de quinhentos anos e coincide com a nossa história. As palavras citadas em epígrafe são do primeiro italiano a visitar o Brasil, Américo Vespúcio, em sua famosa carta a Piero Soderini, conhecida como La Lettera, publicada em Florença em 1505. O homem que deu seu nome ao novo continente descoberto por um outro italiano Cristóvão Colombo, ainda é pouco conhecido no Brasil, no que pese a intensidade de seus contatos com o nosso país.

De fato, em 1499, em sua segunda viagem ao Novo Mundo, Américo Vespúcio visitou a costa de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte para, em seguida, acompanhar todo o litoral norte do Brasil e da América do Sul até a Venezuela. Na terceira viagem (1501-1502), capitaneada por Gonçalo Coelho, ele participa da exploração de toda a costa atlântica da América do Sul, do Rio Grande do Norte até a Patagônia, na altura das ilhas Malvinas. Em sua quarta viagem, descobre e descreve o arquipélago de Fernando de Noronha (10/VIII/1503) e navega da costa do Brasil entre Salvador e S. Vicente em S. Paulo. Seus escritos, cartas e relatos de viagem, são de um rigor científico impressionante e conheceram um sucesso sem precedentes em toda a Europa.

O que trouxe esse fiorentino ao Brasil? Certamente uma coleção e acasos, temperados por sua capacidade de decisão e espírito científico. Florença esteve intimamente associada ao financiamento das grandes descobertas da península ibérica. Logo após a tomada de Constantinopla pelos turcos, Veneza obtém um acordo de comércio com os muçulmanos, o que lhe garante o monopólio das especiarias e de outros produtos do Oriente na Europa. Florença e Gênova, ao buscar outra alternativa para romper esse monopólio, acabaram financiando – com grandes lucros e sucesso – boa parte da aventura dos descobrimentos, desde a viagem de Vasco da Gama. Assim, por qualquer ângulo que se olhe esse período da história não há como negar a importância do que hoje chamamos Itália em todos acontecimentos.

Em 1492, Américo Vespúcio instalou-se em Sevilha e trabalhou numa filial bancária da casa Medici. Como um banqueiro pode transformar-se em dos maiores navegadores da história? É que ao financiar viagens, esse banqueiro de nobre estirpe entrou em contato com marinheiros e navegadores. Sua formação acadêmica, seu humanismo e fatos pessoais que não conhecemos trabalharam a pessoa e a personalidade de Américo Vespúcio, até o dia em que decidiu “deixar de fazer o mercador” e pos o “seu fim em coisas mais louváveis e firmes”. Não como um simples aventureiro, mas com a marca do letrado e do humanista.

Ciência e Consciência

Américo Vespúcio era cosmógrafo. Frequentou universidade, estudou geodésia, astronomia, cartografia e outras ciências. Os relatos de suas viagens, dirigidos para amigos, já foram objeto das mais diversas contestações e defesas quanto a sua autenticidade, mas impressionam pelo rigor e humor das observações. Por exemplo, ele mostra aos marinheiros o movimento aparente do sol na esfera celeste. Na Europa, o sol desloca-se de leste para oeste na parte sul da abóboda. Mas, quanto mais eles navegavam para o sul, mais o traçado do sol ia ficando a pino. Na região equatorial, em pleno meio dia, havia um dia em que nem os mastros do navios, nem as pessoas, nada possuia sombra, sob raios solares absolutamente ortogonais. Era um espanto para a marujada. Na Europa, em qualquer época do ano, o sol sempre produz sombras. Depois, o traçado do sol ia ficando para o norte. Ele caminhava de leste para oeste, mas cada vez mais ao norte. Com isso, Américo Vespúcio explicava um pouco aos marinheiros a base de seus cálculos de navegação (todo dia ele proclamava a quantas léguas estavam de Cádix ou de Florença!), a curvatura da Terra, a duração dos dias, as estações e o determinismo astronômico de nossa vida terrena. “que tudo isso me acontece muitas vezes mostrá-lo a toda a companhia, e tomá-la por testemunho em razão da gente grosseira”. Américo Vespúcio é um pedagogo, sabe que se ele relatar esses fenômenos na Europa poucos darão crédito, mas essa “gente grosseira” os explicar nos bares e tavernas, todos acreditarão.

Como cosmógrafo um de seus maiores sonhos era o de descrever a posição da estrela Firmamento, nos céus do hemisfério sul. A estrela Firmamento seria a homóloga da estrela Polar, que no hemisfério norte é o grande referencial de orientação. Dante Aleghieri, elevado aos céus na Divina Comédia, contempla de um lado a estrela Polar e do outro a Firmamento. Américo busca com seu astrolábio. Anota em suas cartas celestes. Mas todas estrelas movem-se, declinam. Em sua viagem até a Patagônia, ele fica acordado durante toda a noite, observando entre nuvens a posição das estrelas. Enfrenta o frio e as tempestades. As estrelas sempre declinam, demasiadamente. No fim, regressa a Europa sem identificar sua estrela. Anota que essa glória, tão almejada, ficará para outro cosmógrafo. Diante do fracasso, ele poderia ter “inventado” uma estrela ou dado um “jeito” nas observações. Seria festejado, por várias gerações. Mas o cosmógrafo Américo Vespúcio é um homem justo, e honesto. Vir justus. Ele reconhece seu fracasso. A humanidade levará mais de 100 anos para descobrir o que Américo ainda não sabia: a estrela Firmamento não existe. Ele tinha razão.

O Paraíso Terrestre

O rigor das observações de Américo Vespúcio não impedia a beleza e a poesia. Suas descrições do Brasil vão terminar por alimentar sonhos de justiça e humanismo em toda Europa. Em particular, os de São Tomas Morus, em seu livro “Utopia”, escrito em latim entre 1515 e 1516. Na fidelidade aos seus princípios e com a decisão de nunca tergiversar sobre o que acredita, o utopista e mártir Tomas Morus ganhou o paraíso. Também em sua “Visão do Paraíso”, Sérgio Buarque de Holanda escreverá: “O tema paradisíaco em estado puro, e não através de longínquas refrações, aparece desde cedo, e a propósito do Brasil, em um texto de Américo Vespúcio, narrador muito mais sóbrio e objetivo do que Colombo. Efetivamente, na carta chamada Bartolozzi, redigida em 1502, a abundância e o viço das plantas e flores em nossas matas, o suave aroma que delas emana, e ainda o sabor das frutas e das raízes, chegam a sugerir ao lorentino a impressão da vizinhança do Paráiso Terreal”.

América, América, América

O rigor de observações e relatos de Américo Vespúcio contrasta com os devaneios do imaginário de seu patrício Cristóvão Colombo. Ele é o primeiro a descrever copm convicção que as terras do oeste são um novo mundo, “Mundus Novus”, e não a India ou seus arredores, sobre a qual Colombo tanto insistirá. Em 1504 é publicada sua carta “Mundus Novus. Albericus Vespucius Laurentio Petri de Medicis salutem pluriman dicit”, por J. O. Vindelice. Logo no início da carta, Vespúcio afirma “…da minha volta daqueles novos países, os quais com a armada e as despesas e mando deste sereníssimo rei de Portugal procuramos e descobrimos; os quais Novo Mundo chamar é lícito, porque entre os antepassados nossos de nenhum deles se teve conhecimento, e a todos aqueles que isso ouvirem será novíssima coisa…”. Mais adiante, diz de forma cristalina: “… esta minha última navegação atestou, visto que naquelas regiões meridionais o continente descobri, habitado de mais frequentes povos e animais do que a nossa Europa, ou Ásia, ou África…”.

A palavra Europa lembra na mitologia a filha de Agenor, raptada por Júpiter sob a forma de um touro e levada para Creta. Ainda hoje, Europa é o nome de um dos satélites de Júpiter. A África tem um nome que antecede seu registro escrito e de desconhecida etimologia. A Ásia, evoca o homônimo do exílio e a Oceania, pedaços de terra flutuando no mar oceano. Quem pode associar seu nome ao de um país? Colombo, homenageado na vizinha colombia. Veneza deu seu nome em diminutivo à Venezuela. Américo teve seu nome associado ao de um continente, um dos cinco. A palavra América alastrou-se por toda a Europa, como um sonho renascentista realizado. Muitos tentaram opor-se a essa denominação. Hoje, o nome do primeiro italiano no Brasil designa também a maior potência do planeta.

Esse primeiro visitante italiano, através desse nome, feito terra, de pássaros e de sonhos utópicos, vai embalar a viagem dos imigrantes para o Brasil. Na roda da fortuna, eles começaram de baixo e muitos chegaram ao topo. Alguns acabaram privados de todos os seus bens. Mas a maioria salvou-se de rodopio ilusório da roda da fortuna e colocaram seus propósitos em coisas mais louváveis e firmes, como há cinco séculos fizera um de seus patrícios. Seu nome, nosso orgulho, embala as páginas e os sonhos de todos que ao longo de cinco séculos escreveram este livro, como numa canção:

America, America, America.

Cosa sará questa America?”

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