O PRIMEIRO FRUTO DO NATAL


(25/11/2010)

Evaristo Eduardo de Miranda

O nascimento de Jesus acabou com o sossego na estrebaria de Belém. Os visitantes chegavam a todo o momento com presentes, olhares de espanto e de contemplação. Eram pastores, agricultores, magos, pescadores, soldados, cobradores de impostos, comerciantesGente simples da vizinhança. Todos curiosos para ver aquele menino tão especial. Ao anoitecer, Maria estava exausta. Mesmo assim, atendia e recebia da melhor forma possível, todos que se aproximavam da manjedoura.

Em meio a tanta gente, Maria percebeu a figura de uma velha do lado de fora da estrebaria. Ela era toda curvada, muito feia, completamente enrugada, parecia ter mais de mil anos. Ela movia-se de um lado para o outro. E não entrava. Depois da meia noite, a velha continuava fora, como uma bruxa. Quando o último visitante finalmente deixou o local, a velha entrou na estrebaria sob o olhar desconfiado e até temeroso de José, do boi e do burro.

Hesitando, ela aproximou-se da Virgem e do Menino. Trazia nas mãos uma fruta bonita, perfumada e certamente muito saborosa. Maria nunca vira esse fruto. Ela entregou seu presente como se fosse o globo terrestre e balbuciou: – Esse fruto, a humanidade quis comer verde. Agora, está maduro. Atrás das pregas das pálpebras, seus olhos encheram-se de lágrimas.

Maria acolheu o fruto em suas mãos, sem dizer uma só palavra. Logo a velha retirou-se, caminhando com dificuldade. Os primeiros clarões no horizonte anunciavam a chegada de um novo dia. Antes que ela saísse do estábulo, Maria lhe perguntou: Senhora, qual é o seu nome? A velha deteve-se no limiar da porta. Retornou-se lentamente. E com ares de um imenso alívio e um sorriso sutil nos lábios, disse: – Eva.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. O primeiro fruto. Jornal Universidade, Campinas – SP, p. 03 – 03, 2010.

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