O PREÇO DA FÉ


(10/7/2007)

Evaristo Eduardo de Miranda

No dia 29 de agosto, a Igreja relembra com uma segunda comemoração litúrgica, o martírio de São João Batista. Ele foi degolado. Protótipo de monge e missionário, ele é dos poucos santos festejados duas vezes no ano litúrgico, em junho e em agosto.

São João Batista é venerado na Igreja Católica com uma festa litúrgica particular, desde datas antiquíssimas. Santo Agostinho, lá pelo ano 400, já dizia que o nascimento do santo era comemorado a 24 de Junho na Igreja africana. A data do seu nascimento, próxima do solstício de inverno, está no centro das festividades juninas ou joaninas. A base para definir a data do nascimento de São João foi dada pelo arcanjo Gabriel “E eis que Isabel, tua parenta (…) já está em seu sexto mês” (Lc 1,36).

O nascimento desse precursor de Jesus foi fixado pela Igreja latina três meses após a anunciação de Maria e seis meses antes do Natal. Filho de Zacarias e de Isabel, ambos de estirpe sacerdotal, João foi concedido aos dois cônjuges, já em idade avançada. A celebração da natividade de São João Batista é a única festa litúrgica que a Igreja dedica ao nascimento de um santo. Diz a tradição que é por ter sido purificado ainda no ventre materno pela palavras da Virgem Maria, em visita à sua mãe Santa Isabel.

Ele foi um verdadeiro líder religioso judeu, do início do século I, citado por inúmeros historiadores. Batizou Jesus, bem como muitos outros e introduziu o batismo de gentios nos rituais de conversão judaicos, prática adotada pelo Cristianismo. O historiador Flávio Josefo relacionou a derrota do exército de Herodes frente a Aretas IV, rei da Nabatéia, à prisão e morte de João Batista. De acordo com Flávio Josefo, o povo se reunia em grande número para ouvir João Batista. Herodes temeu que João pudesse liderar uma rebelião, mandando-o prender na prisão de Maqueronte e, em seguida, decapitou-o.

No evangelho de Lucas, João é preso antes do batismo de Jesus (Lc 3,19-20), do qual parece desvinculado e em contradição com os outros evangelhos (Lc 3,21). Não é a primeira, nem a única contradição dos evangelistas.

Para os cristãos, a missão de João foi semelhante à do profeta Elias, enviado para preparar “um povo perfeito” para a chegada do Messias. Não se pode dizer, nesse sentido, que João Batista teve muito sucesso. Ele foi um pregador extremamente ético, e num episódio que fez sonhar artistas, escritores e cineastas, morreu degolado, sem medo de denunciar os erros dos poderosos, num episódio cheio de luxúria, sexo, cobiça e violência. Ele não vendia barato a sua fé, nem a sua doutrina, como pedem muitos que a Igreja Católica o faça nos dias de hoje para atender os costumes atuais ou as “tendências modernas”.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. O Preço da Fé. A Tribuna, Campinas – SP, v. 98, p. 13, 2007.

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