O PLANTADOR DE FLORESTAS


(13/8/2005)

Evaristo Eduardo de Miranda

Ele sempre dizia: ia viver cem anos. E viveu. O fazendeiro Wolfgang Schmidt, proprietário da fazenda Santa Mônica, no distrito de Joaquim Egídio em Campinas – SP, emigrou da Alemanha para o Brasil em 1924. Sua paixão eram florestas, árvores e madeiras. Em nosso primeiro encontro, há 15 anos atrás, mencionei uma pesquisa que organizei para acompanhar por 100 anos cerca de 500 propriedades rurais nas florestas de Rondônia. Ele foi a primeira pessoa a me dizer: pesquisas sérias com sistemas florestais deviam mesmo durar 100 anos. O sr. Schmidt faleceu em agosto deste ano e foi enterrado como uma semente por seus familiares, amigos e admiradores.

No Brasil, ele começou trabalhando no comércio e exportação de madeiras. Conheceu frentes de desmatamento e grandes serrarias em São Paulo, Paraná e Mato Grosso. Viu como o recurso florestal podia esgotar-se rapidamente. Muito cedo preocupou-se em buscar alternativas nas florestas plantadas face à inexorável expansão das áreas urbanas e agrícolas. Na Segunda Guerra Mundial, deixou de trabalhar com exportação de madeiras e comprou a fazenda Santa Mônica. Na época, lá se produzia café, algodão, cereais e leite. Ele introduziu uma nova atividade: a produção de mudas e o plantio de árvores nativas.

Foi uma aventura. Passou o resto de sua vida pesquisando, plantando e ensinando a plantar florestas, visando a produção de madeira. Ao longo dos anos montou uma formidável biblioteca, correspondendo com especialistas e pesquisadores de todo o mundo. Seu trabalho de longo prazo foi organizado em 14 talhões experimentais, com matas mistas ou homogêneas, de árvores nativas e exóticas aclimatadas: um arboreto com mais de 160 espécies (http://www.arboretos.cnpm.embrapa.br/f a z_sm/index.html) . Sem falar de sua xiloteca, uma coleção com mais de 200 amostras de diferentes tipos de lenhos.

Com suas pesquisas, ele procurou definir as espécies mais adequadas para diversos fins madeireiros e as melhores formas de cultivo e manejo. Sofreu bastante com a burocracia de órgãos ambientais e seus “especialistas” na hora de limpar um sub-bosque de talhões ou de cortar árvores para avaliações. Foram mais de 60 anos de observações, medições e resultados inéditos para futuras plantações. Com o mesmo entusiasmo, ele apontava uma árvore que poderia tornar-se um violino ou uma viga de telhado. Na Rio 92, a ONU reconheceu o valor desse plantador de florestas, através do prêmio Global 500.

Passei muitas horas entre árvores e livros com o Sr. Schmidt, discutindo seus experimentos sobre dormência de sementes, sementeiras, transplante de mudas, plantio, crescimento, podas e espaçamentos para se obter o melhor desenvolvimento de cada espécie florestal. Até o final de sua vida, ele seguia trocando mudas e sementes, importando livros e sempre nos questionando na Embrapa, obrigando-nos a ler artigos, capítulos e a opinar sobre assuntos envolvendo a política florestal e a produção de madeira no Brasil. Ele foi uma árvore frondosa, junto da qual familiares, amigos e pesquisadores, receberam muitas lições de vida. As sementes plantadas pelo Sr. Schmidt, na terra de tantos corações, nunca cessarão de dar frutos.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. O plantador de florestas. Terra da Gente, v. 1, p. 42-42, 2005.

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