O ORÁCULO CELESTE


(20/1/2008)

Evaristo Eduardo de Miranda

As Sagradas Escrituras não transbordam de exemplos de tolerância religiosa ou ecumenismo. Os magos são muito criticados na Bíblia. Naturalmente. Eles eram considerados perigosos feiticeiros (Gn 41,8; Ex 9,8; Dt 18,11; Dn 1,20; At 8, 9 e 13,6). Como podem os magos se tornarem adoradores no nascimento de Jesus? Já seria um milagre de Jesus, logo de entrada? De certa forma, sim. Esse relato do evangelho de Mateus mostra como a ciência não afasta obrigatoriamente o homem de Deus e, pelo contrário, pode ser um caminho para a descoberta do Transcendente.

De volta ao Tempo Comum, é possível tomar distância e dedicar um outro olhar a esse tema evangélico. O termo grego do evangelho de Mateus para referir-se aos magos (Mt 2) não designava apenas feiticeiros mas também os homens sábios, de ciência. Para a maioria dos estudiosos, os magos do Oriente seriam persas. Eles eram sacerdotes do zoroastrismo, estudiosos dos astros, uma classe privilegiada e influente sobre o Estado. Eles conheciam escrituras sagradas (Mt 2,5-6), a astronomia e, graças a sua matemática celeste, seguiram com precisão o movimento da estrela nos Céus (Mt 2,7).

Os magos do evangelho de Mateus eram os cientistas daquele tempo. Astrônomos e astrólogos, eles não precisaram de anúncios proféticos, nem de leituras bíblicas, nem de vozes de anjos para tomar conhecimento do nascimento do Menino Deus, do Messias. Eles calcularam no oráculo celeste. Como cientistas, foram os primeiros a deduzir, matemática e astronomicamente, o nascimento desse novo rei, perscrutando a voz oracular dos Céus. Estava escrito nas estrelas. O evento astronômico por eles observado deve ter sido considerável para alimentar tal determinação. E eles tinham ciência e consciência para sabê-lo. De certa forma, não foi pela fé, nem pela religião, e sim pela razão e pela ciência que eles chegaram até Jesus.

Sobre os Reis Magos, o evangelho de Mateus não diz se eram três, nem reis e muito menos seus nomes. O texto relata como eles vieram do Oriente a Belém, guiados por uma estrela, para adorar Jesus, evoca suas aventuras com Herodes e como encontraram Maria com o Menino Jesus, o adoraram e lhe entregaram como presentes ouro (natureza real, presente dado a reis), incenso ou olíbano (natureza divina, empregado no culto e altares) e mirra (para embalsamar os mortos, evocando o sofrimento e a morte futura, sinal de imortalidade) (Mt 2,11). Segundo a tradição, Gaspar (branco) trouxe o ouro, Melquior (moreno) o incenso e Baltazar (negro) a mirra. O número de três magos terá sido influenciado ou deduzido pelos três presentes oferecidos.

Os nomes de Melquior, Baltazar e Gaspar surgiram no século VIII. Beda, o Venerável, considera-os representantes da Europa, Ásia e África, os três continentes conhecidos naquele tempo. Na origem, os evangelhos apócrifos do século IV, como o pseudo-Mateus e, sobretudo, o evangelho armênio da Infância, transformaram os magos em doze reis e lhes atribuíram os nomes. Talvez para mostrar a realização das previsões do Antigo Testamento (Sl 72,10; Is 60,6). No século XVI, a necessidade urgente de evangelizar os índios influenciou rapidamente a cultura portuguesa, e encontrou eco imediato na arte. Vasco Fernandes no célebre quadro “Adoração dos Magos” (1501-1506), substituiu o tradicional Rei Mago negro, Baltazar, por um ameríndio, com indumentária europeizada e cocar, revelando a esperança na rápida cristianização dos índios do Brasil. E assim, os continentes americano, africano e eurasiático passaram a adorar Jesus na figura dos três Reis Magos.

Mesmo sendo persas, ganharam nomes judaicos. Em hebraico, este autor hipotetiza que: Melchior significaria “rei da luz” (melech-or), Baltazar, “senhor do tesouro” (baal-otsar) e Gaspar, “o tesoureiro” (gisbar). O episódio do Reis Magos mostra os muitos itinerários para chegar-se a Deus. Na busca de plenitude, no encontro de nossa humanidade e divindade, esses itinerários levam sempre à pessoa única de Jesus Cristo, o Verbo Incarnado, o Filho Monógeno. Caminho, Verdade e Vida.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. O Oráculo celeste. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 9, p. 08, 2008.

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