O OLHAR É SALVAÇÃO


(17/8/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

O ser humano retém na memória algo como 11% do que ouve, 3% do que cheira, 2% do que toca e 1% do que degusta, mas pode memorizar cerca de 83% do que vê. Para a mística judaica e cristã, se o humano possui um par de olhos é para chegar à visão de Deus. Os olhos são um instrumento da unificação de Deus e da pessoa humana, do Princípio e da manifestação. Ao fechar os olhos na meditação, abre-se o caminho da visão interior, o terceiro olho. Ela unifica o olhar dualístico, voltado para o exterior e permite a pessoa olhar e ver com o coração.

Simone Weil dizia: “Uma das verdades fundamentais do cristianismo, verdade por demais desconhecida, é esta: o que salva é o olhar”. É comum e popular a expressão amorosa: – Você é a luz de meus olhos. De fato, o nosso olhar é a prova que o outro necessita para ter a demonstração de que ele continua vivo. Esse olhar salvífico dirige-se ao Outro, a aqueles que ninguém vê em sua cegueira afetiva ou amorosa. Nosso olhar pode salvar ou matar, iluminar ou cegar.

O tema da cegueira é bastante central na missão de Jesus. Não há dúvida que, entre as curas de Jesus, as mais relevantes devolveram a visão aos cegos. Na tradição judaica, abrir os olhos era a cura messiânica por excelência, o sinal para a identificação do verdadeiro messias, segundo a tradição profética. Ao apresentar-se na sinagoga de Nazaré, Jesus declara-se o ungido – precisamente – para abrir os olhos aos cegos.

Os evangelhos relatam, entre todos os cegos curados por Jesus, sete deles. O número sete evoca a totalidade: Cristo vem abrir os olhos de todos para que vejam o Invisível. Jesus curou os dois cegos de Jerico (Mt 20,29-34; Lc 18,35-43), o filho de Timai (Mc 10, 46-52), o cego de Betsaida (Mc 8,22-26), os dois cegos anônimos (Mt 9,27-31) e o cego de nascimento (Jo 9,1-41). Se o sinal dessa cura favorece o beneficiário, de certa forma a quem mais favorece é ao próprio Jesus. Ela prova que ele é o Messias anunciado pelas escrituras. Paradoxalmente, Jesus, a luz do mundo, traz trevas para os que lhe dão as costas. Reencontra-se aqui, ao nível da visão, a dualidade bíblica da espada de dois gumes. Ela cega quem tem boa vista e faz ver os cegos. “Eu vim a este mundo para um julgamento, a fim de que aqueles que não viam vejam, e aqueles que viam se tornem cegos” (Jo 9,39).

Santa Teresinha do Menino Jesus dizia em sua definição de oração: “Para mim a oração é um impulso do coração, um simples olhar dirigido para o céu… Tanto no meio da tribulação como da alegria”. O mesmo diz a tradição cristã: “Olhos que olham, coração que sente. E coração que sente, coração que ora”. O olho do coração é o homem olhando Deus e Deus olhando o homem.

Fechar os olhos ao mundo, a este mundo. A vida espiritual não serve para nos distrair deste mundo, mas para nos subtrair. Contemplar a Deus significa deixar de fazer para ser feito. Deixar-se transformar pela Palavra que nos habita e que não ouvimos em nossa cacofonia interior, ocupados todo o tempo em fazer “bem” e em fazer o bem. Os místicos ensinam: “Quem ocupa todo o seu tempo fazendo o bem, não acha tempo para ser bom.”

A visão interior evoca a contemplação e o silêncio, fechar os olhos para poder enxergar outra Realidade. A nossa visão interior de Deus é um provar da vida que vibra em nós e cujo destino vai além da materialidade do corpo e do mundo. Resgata numa dimensão de iluminação infinita, cuja fonte luminosa brilha nas arcadas do nosso crânio. Se temos olhos, é para ver o Invisível.

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