O MORRER E O LUTO TERAPÊUTICO


(26/2/1994)

Evaristo Eduardo de Miranda

Nunca na história uma sociedade evacuou, escondeu e se escondeu da morte como na atualidade ocidental. Morrer assumiu um caráter totalmente acidental. Morreu porque corria muito, porque era obeso, porque sofria do coração ou porque o câncer não tem cura. Como se a pessoa fosse magra, calma ou se o câncer tivesse cura ela não morreria. Morre-se sempre de algo e não por estar vivo. A morte, a única certeza absoluta na vida de todos, é apresentada como acidental e não natural.

Numa sociedade em que o acúmulo de bens, em que o ter domina sobre o ser, a morte soa como uma contradição inaceitável. A consciência da morte pessoal relativiza profundamente num indivíduo o consumismo e a carreira desabalada em busca de bens materiais. O morto não compra. Não há propaganda no mundo capaz de fazer um morto comprar. Além do mais, numa solidariedade sindical de fazer inveja a CUT, nenhum morto compra. Esse péssimo consumidor deve ser evacuado o mais rápido e antissepticamente possível. Do hospital para o crematório em poucas horas. Existe uma espécie de vergonha de ter-se um cadáver em família. Melhor não passar em casa. Melhor os vizinhos saberem depois. Os mortos ainda não aderiram a modernidade.

O morrer é tão natural quanto cultural. Imaginamos nossa morte através da morte dos outros dentro de nossa cultura e sociedade. A compreensão da morte, por definição, impede qualquer possibilidade de experiência reflexiva, ao contrário de toda a vida humana. Na ausência de prática religiosa, ao evacuar a morte, o cadáver, o velório, o enterro e o luto, abre-se um difícil caminho para os vivos que devem superar a perda de um ente querido.

Há algum tempo participei de um velório de uma pessoa morta em consequência de AIDS. O despojamento total de símbolos – nem mesmo um crucifixo, a ausência de amigos e familiares em número expressivo, o mutismo da espera do enterro e uma serie de outras ausências de alegorias tornaram aquela passagem uma triste passagem. Freud em um de seus últimos escritos “Luto e Melancolia” (Trauer und Melancholie) explica porque o luto não é um estado patológico. O ser amado desapareceu e não pode mais ser objeto de amor. O homem de modo geral não abandona facilmente uma posição libidinal, mesmo quando um substituto lhe faz um sinal, as vezes já na sala do velório. No trabalho de luto é primordial a visão do morto, a realização de que o ser amado realmente morreu.

Essas imagens do morto – no caixão – irão se contrapor a todas as imagens da pessoa ainda em vida. Quantas pessoas não entraram em estado melancólico e por toda vida choram a perda de um ente querido porque não viram o morto. Hoje a sociedade impede crianças e até jovens de verem seus avós e familiares mortos. Para eles sobrará o duro encargo de realizar uma morte sem imagem. O velório cumpre entre outras esta função. A secularização quer jogar no lixo práticas de sabedoria elaboradas ao longo de milênios como se fossem crendices inúteis ou anacronismos religiosos.

No lento caminho do luto, o objeto desaparecido deverá migrar do afeto para a lembrança. O amor será dirigido a outro (s) objeto (s). Por isso, a presença física e a visão do morto são essenciais. Quantas pessoas não se reaproximam durante um velório, quantas amizades ganham um novo impulso, quantos contatos perdidos não são restabelecidos. Nos velórios tradicionais e até meados deste século, onde se serviam verdadeiros banquetes para os acompanhantes, cenas de excepcional alegria acabavam envolvendo os participantes, como fruto dessa redistribuição do amor.

A morte é um mistério impenetrável. Mesmo para os que morrem na esperança da Ressurreição. Por isso as celebrações de corpo presente e os ritos dos defuntos ajudam a todos. Tudo que se possa dizer sobre o que advém ao espírito humano imediatamente após a morte é conjectura. A morte é um processo. Nos anos sessenta passamos da morte cardíaca para a morte cerebral. Mas as unhas, a barba, os cabelos dos mortos continuam crescendo. Às vezes de forma impressionante ao longo de um velório. Devemos orar pelos mortos e por suas almas. O rito da Igreja católica reúne uma sabedoria de milhares de anos que ajuda no encaminhamento do espírito do morto e dos vivos. Coloca a família em contato com as realidades positivas do evento. Uma delas é a abertura para a Graça que nesses momentos envolve as pessoas, revalorizando a Vida e a Vida em Deus.

Outra função do velório é a de se realizar a realidade e o peso biológico do morto ou de um cadáver. Estar ao lado do morto, passar uma noite em claro tomando muito café, rever centenas de imagens tão distantes da atitude atual do morto, entrar pela madrugada, ficar exausto, enfrentar inclusive odores estranhos etc. Tudo isso pesa. O acompanhamento do enterro a pé sob o sol carregando o caixão também pesa. Uma espera a mais numa capela ardente do cemitério, mais um acompanhamento até a campa, à espera do fechamento do túmulo pelos pedreiros. Tudo pesa. Há momentos em que a pessoa começa a desejar se livrar do incômodo e do peso, real, que representa um cadáver. Chega-se conscientemente ao “está na hora de enterrá-lo”. Aquele corpo físico deve ser deixado. Isso feito sem pressa, com a devida temporização é de grande auxílio no trabalho de luto. Só Deus sabe o quanto o Dr. Tancredo nos ajudou ao morrer devagarzinho. Só Deus sabe o quanto aquele pedreiro humilde de S. João del Rey, ao lacrar lentamente, muito lentamente e com especial esmero, o túmulo do presidente – diante de todas as câmeras de TV, nos manteve em espera e em desejo de acabar logo com aquilo.

Depois do enterro há o luto. Nas áreas rurais os familiares ainda portam o luto de um ente querido. Na minha infância nem o rádio das casas era ligado alto quando havia uma morte na rua. Existiam vestimentas, ritos, períodos e atitudes exigidas no luto. Desde a missa de sétimo dia, a missa de trinta dias, as novenas pela alma, etc. Perguntas escatológicas nos assaltavam. Ao ver alguém de luto nas ruas como não lembrar que determinada pessoa morrera. Como diz Freud, é difícil explicar o luto em bases econômicas. É notável que o desprazer da dor apareça como normal. Mas o fato é que o Eu, após acabar o trabalho de luto, retorna livre e sem inibições. Um luto não realizado leva a melancolia e pode terminar na esquizofrenia.

Sem morte não haveria vida. É a lei da natureza. É a lei divina. Sem morte não haveria herança. Tudo o que recebemos de nossos pais e avós são ensinamentos e valores. Quando eles morrem se tornam nossa herança. Às vezes, como S. Pedro na cerimônia do lava-pés, dizemos não. Não você não me lavará os pés, não você não vai morrer. Não aceito. Mas se não aceitarmos não teremos parte no banquete. Jesus deixa claro que eles tirarão grande proveito de sua morte. Não o proveito visto como lucro bancário, mas a herança da ressurreição. A irmã morte é preparada no caminho do desapego e da consciência. Os ritos, os símbolos e as alegorias religiosas nos preparam. Sem morbidez, nem necrofilia, o caminho da Quaresma, pela via da renúncia, dura toda a nossa vida. Jesus é a Ressurreição e a vida (Jn 8,44; 11,25), possui as chaves da morte e a destruirá (Ap 1,18; 20,10-13). No episódio da transfiguração, Pedro, Tiago e João são chamados por Jesus (Mc 9,2-9). Eles o seguem, sem indagar para onde, se a hora é certa, se a opção é valida, etc. Nesses momentos de total intuição e lucidez devemos seguir e atender ao Chamado e nos preparar para receber a herança. É um grande “negócio”, nesta sociedade secularizada, trocar a ilusão da imortalidade, trazida pelo consumismo materialista, pela esperança da eternidade.

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