O MORRER DOS PAIS E DOS FILHOS


(1/1/1997)

Evaristo Eduardo de Miranda

Destinados a partir, os filhos também nos preparam para a nossa morte. O medo da morte para quem tem filhos passa a ter dois lados inéditos. Todos os pais vivem essa dupla realidade: se uma vida deve ser tomada, toma a minha, não a de meu filho. Isso de alguma forma já é uma ajuda no morrer porque, pelo amor, a vida do outro realmente importa. Pelo filho está-se disposto a morrer. Essa descoberta do valor da vida do outro amplia-se na vida de cada um. E pode levar a atos altruístas como o belo gesto do capitão do Titanic e seus dos tripulantes, naufragando com o seu barco e deixando vida salva a quem foi possível. É a regra do primeiro as mulheres e crianças, ainda triunfante em muitas situações de crise.

Mas, simultaneamente, os pais vivem uma segunda realidade com relação à morte: a do não me tires a vida pois eu tenho um lar para alimentar! Eu tenho filhos para criar. É paradoxal como os filhos ajudam e dificultam o morrer dos pais. Não é a ordem natural das coisas, mas os pais podem perder seus filhos para a morte. Num mundo como o de hoje em dia, onde a violência, a fome, o trânsito, o crime, as drogas e certas doenças atingem em cheio a infância e a juventude, aos pais pode caber a dura tarefa de enterrar seus filhos. Os pais, secretamente, esperam ser enterrados por seus filhos. Com a idade, ao envelhecerem, todos os filhos se tornam órfãos. Muitos filhos acabam cuidando de pais, órfãos. Mas uma mãe ou um pai que perdeu seu filho ou filha não é viúvo ou órfão. Ë o que? Não existe palavra na língua portuguesa para classificá-los. A orfandade é normal e inevitável. A morte dos filhos é absurda e inominável. Deixa uma cicatriz indelével. Como dizia o cantor e compositor Gilberto Gil, que perdeu seu filho num acidente automobilístico: “Todo o dia eu lembro e acaricio suavemente esta cicatriz.”

Seria justa e legitima a esperança de ser enterrado pelos filhos? Como comenta a psicanalista Marie Balmary, Jesus trabalha na linha de autorizar a saída dos envelopes e das matrizes, indo da morte para a vida. A recuperação da Palavra é essencial para quem muito calou. Existe uma simetria inversa muito interessante entre o episódio em que Elias convoca Eliseu para assumir a Palavra (profética), no Livro de Reis (I Re 19,19-21), e a passagem em que Jesus convoca os homens para o anúncio da boa nova no evangelho de Lucas. A caminho de Jerusalém, com seus discípulos (Lc 9,57-62), Jesus convida:

“Faz caminho comigo”.

As traduções em geral dizem “Siga-me” o que tem uma dimensão de aparente submissão, inexistente no verbo grego akoloutheo. A palavra keleuthos, significa caminho, estrada. Jesus não dá ordens mas estende um convite de companheirismo, de companhia. O convidado respondeu:

“Deixa primeiro que eu vá sepultar meu pai.”

Estamos no direito de nos perguntar: o que faz esse homem na beira do caminho com seu pai já morto em casa? Seria concebível alguém, com um pai morto em casa, ficar numa beira de estrada contemplando o movimento? O que espera esse homem? O que busca esse homem? O texto nos revela que no fundo esse homem espera ordens. O verbo grego epitreko (ordenar, transmitir, legar, confiar) evoca mais uma missão do que uma autorização: ordena-me de enterrar primeiro o meu pai…Jesus lhe disse:

“Deixe que os mortos sepultem seus próprios mortos;

mas você vá anunciar o Reino de Deus.”

A esse pedido de missão com relação a um pai morto, Jesus responde por um verbo diferente, aphiemi, um deixar acontecer, deixar andar, no sentido bem liberal do termo. Se alguém deseja enterrar seu pai, que o faça. Nenhuma autorização é necessária. Mas Jesus indica que estar vivo e anunciar são sinônimos. Ao invés de negar a autorização a um vínculo com o que ficou para trás, Jesus inverte o problema: não é mais necessária a autorização. Deixa os mortos e vá. Nasça e deixe os mortos. Até matando simbolicamente os pais quando necessário.

Freud, livre pensador, achou-se na obrigação de viver com sua mãe até o fim de sua vida. Seria necessária uma autorização religiosa para que o homem possa deixar pai e mãe? Matar seu pai e sua mãe foi talvez algo impensável para Freud. Toda morte simbólica em Freud só referia-se ao pai. O filho mata o pai para substituí-lo junto à mãe. Com relação a submissão mantida pelos dois pais, libertar-se de um já é uma vantagem, indica Marie Balmary ao mostrar que os textos bíblicos vão bem mais longe. Do primeiro ao último livro da Bíblia, o homem – para aceder à Palavra – mata simbolicamente pai e mãe e vai viver longe de toda servidão. Como no episódio em que Elias convoca Eliseu para substituí-lo como profeta, homem da palavra (I Re 19, 19-21) e no evangelho de Lucas.

Outro ainda lhe disse:

“Eu te seguirei, Senhor, mas deixa primeiro que eu vá me despedir do pessoal de minha casa.”

Mas Jesus lhe respondeu:

“Quem põe a mão no arado e olha para trás, não serve para o Reino de Deus.”

Elias lança sua capa sobre Eliseu que estava arando. Ao contrário do que Jesus condena no evangelho de Lucas, Eliseu aparentemente olha para trás. Depois diante do chamado de Elias, Eliseu pede autorização para ir beijar seu pai e sua mãe antes de seguí-lo. De novo, ao contrário do evangelho, Elias aceita que Eliseu vá despedir-se de seus pais. Ao voltar, pronto para buscar enfim seu lugar, Eliseu mata a parelha de bois, com a qual estava atado e arando (pares, pais animais), queima o jugo (instrumento de trabalho conjunto, conjugal), cozinha com esse jugo a carne dos animais e dá de comer a comunidade, ao povo. Depois levanta-se, segue Elias e o serve.

A família, como uma placenta que não serve mais, deve ser deixada enquanto lugar de animalidade e de servidão. O homem é chamado da morte para a vida e não o contrário. A morte é o primeiro estado, o homem se liberta da morte pelo chamado divino e vai servir livremente a Palavra, como Eliseu foi servir o profeta. Ao se libertar da família, o homem destrói também ele mesmo, enquanto criança-jugo. Criança que juntava os pais no trabalho necessário de alimentação e criação. O filho, ao libertar-se de suas amarras, desamarra também aqueles de quem ele se liberta. O jugo deve ser destruído como no episódio de Eliseu. Psicologicamente, ninguém é doente sozinho mas em relação com os outros. Por isso, o sarar também é em relação com os outros. Existem relações que adoecem, mas existem relações que curam. O texto de Reis começa pela aração (trabalho físico), o texto de Lucas termina (trabalho espiritual).

E se a solução dos conflitos entre pais ou filhos depende de um “milagre”, é bom saber que o milagre é quase sempre fruto de uma transgressão, de uma ruptura de envelopes e envolvimentos. Como o do cego Bartimeu que ouve Jesus se aproximando. Ele grita e não se cala ao sentir Jesus por perto. Grita contra tudo e contra todos. Luta com os que o envolvem para que se cale. Ele rompe o envelope do silêncio e do bom comportamento até que Jesus o ouça e o cure (Mc 10,46-52). Outros também para obter um milagre agem em completa transgressão à ordem e aos costumes arrebentando o teto (o envelope) de uma casa para descer um paralítico até Jesus! (Mc 2,1-12). Ou ainda, movem-se discretamente, como no comovente episódio da mulher com fluxos de sangue (Lc 8,40). No meio da multidão ela avança, e de forma anônima e discreta, ousa tocar a orla do manto de Jesus para ser instantaneamente curada. Quem me tocou, pergunta Jesus. Mas como Senhor! São as multidões que te apertam e comprimem, diz o nosso querido Pedro, cabeça de pedra. Alguém me tocou pois eu senti que saiu de mim uma força! Abre-se um espaço em volta de Jesus e a mulher se evidencia, chorando, para ouvir de Jesus um impressionante louvor a sua fé.

Nesse complexo tecido de pais e filhos, de infinitos diálogos, mutismos e conflitos, as vezes é necessário parar de amassar a massa. Dar chance e tempo ao fermento de agir. Retirar-se. Podemos e devemos orar. Não com um prosaísmo que desossa, mas com a coragem e a fé dessa mulher emergindo da multidão! Meditar e apaziguar o espírito. No terceiro dia, na terceira hora, o pão terá crescido. Sejam quais forem as marcas e os medos. Em nossas relações com os pais e com os filhos não devemos lutar com nossas sombras, nem com nossos lados escuros.

Não devemos temer as trevas, por mais entranhadas que pareçam estar em nós e neles. Jesus no deserto falou com elas. Rejeitou a regressão (ser alimentado e embalado como criança). Somos chamados a falar com as trevas através da luz que nos vem dessa nossa paternidade estrelar. Como dizia Bergson, a vida é um caminho de sombra e luzes. O importante é que se saiba vitalizar as sombras e aproveitar as luzes. A harmonia é um encontro de luzes que se alimentam da escuridão, no paradoxo dos opostos integrados. Assim como a Graça se alimenta do pecado, a potência da Palavra e do Verbo curam e libertam. Devemos redescobrir o que já sabíamos: nos pertencemos porque somos filhos e filhas do Deus da Palavra, do Verbo que se fez pessoa. O Verbo nos chama a buscar nosso lugar e a romper com os envelopes e matrizes. Somos absolutamente livres pois a herança que deixaremos a nossos filhos não nos pertencia e o que herdamos de nossos pais também não lhes pertencia.

Agosto de 1994. Dans l’attente de Daniel.

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