O MAR, A MONTANHA E A CASA


GEOGRAFIA ESPIRITUAL NO EVANGELHO DE MARCOS

(19/3/2007)

Evaristo Eduardo de Miranda

Era uma vez uma casa no alto de uma montanha, lá na serra da Mantiqueira. De longe, a partir do tortuoso caminho do vale, parecia uma ruína: madeira e pedras caiadas, abandonadas entre as nuvens. Caminhando em sua direção, descobria-se uma singela casinha branca, coberta de sapé e envolvida no frescor do ar puro da serra. Chegando no seu terreiro percebia-se uma acolhedora e florida varanda, perfumada por baunilhas e manacás. Dali, contemplava-se o nascer do sol na imensidão do distante mar azul.

A maioria das pessoas não vive em casas bonitas, brancas ou perfumadas. Muitas das montanhas são desertas, desabitadas e inóspitas, e existe muita gente que nunca viu ou pôs os pés no mar. Entretanto, essas imagens mexem com o espírito e fazem sonhar. O mar, a montanha e a casa são imagens gravadas, impressas, no fundo da alma. Elas fazem parte da identidade dos humanos há milênios. Gravadas na profundidade de nossas mentes, elas fazem parte do que os psicólogos chamam de arquétipo. A palavra vem do grego arké (primeiro, princípio, origem, começo). Encontra-se o termo arké em outras palavras portuguesas como arqueologia, arquivo, arcaico… e na filosofia aristotélica designava princípio, fonte ou causa.

O conceito de arquétipo traduz a idéia do padrão, do modelo primordial dos seres criados. Para a psicologia junguiana, os arquétipos correspondem a imagens psíquicas do inconsciente coletivo, que são patrimônio comum a toda a humanidade: Os arquétipos são a base dos comportamentos especificamente humanos. Para Jung existem tantos arquétipos quanto situações típicas na vida das pessoas. Os quatro evangelhos, e toda a Bíblia, estão repletos de imagens arquetípicas. E se hoje usa-se a abusa-se do termo arquétipo e arquetípico, a psicologia analítica sempre observa os arquétipos e suas manifestações na prática clínica, com uma atitude científica e fenomenológica cuidadosa. No sentido espiritual, o arquétipo pode ser entendido como selo, marca de Deus na cera do humano.

Ao falar de mar, montanha e casa, o evangelho de Marcos evoca mais do que uma circunstância espacial ou uma localização geográfica onde os eventos da vida de Jesus aconteceram, como ocorre com os outros evangelistas. O esmero em descrever situações concretas, com detalhes omitidos por Mateus e Lucas, faz com que Marcos trate o tempo e o espaço de uma forma muito especial: o tempo é novo e o espaço é outro.

O tempo novo, o novo tempo, chega com Jesus. Uma das marcas dessa nova temporalidade em Marcos é o uso repetido e constante do termo logo, no sentido de imediatamente, instantâneo, sem hesitação:

“deixam logo as redes (1,18);

logo os chamou (1,20),

logo no dia de sábado (1,21);

logo ao sair da sinagoga (1,29);

logo falaram da sogra de Pedro (1,30)…”

A palavra logo (euthus em grego, bekarov em hebraico) realça ao mesmo tempo, a força e o inesperado da inspiração que comanda o agir, a conversão, nos dizeres de André Chouraqui, acima de raciocínios, reflexões ou deduções. As pessoas aderem a Jesus, convertem-se, seguem-no, independentemente de caminhos psicológicos complexos, raciocínios elaborados, testemunhos e milagres, pregações ou discursos. Mas essa presença do Espírito no tempo cumprido (Mc 1,15) e na proximidade do Reinado de Deus também manifesta-se, no evangelho de Marcos, no espaço.

Existe uma geografia espiritual em Marcos, cuja descoberta não exige sacrifícios ou erudição exegética particular. Marcos não localiza somente, no sentido territorial, a missão e a manifestação de Jesus como em Cafarnaum, Galiléia, Betsaida, Jerusalém ou alhures. É claro que essa territorialidade não é neutra e possui um determinado conteúdo espiritual. Mas o convite, ao leitor da TRIBUNA, é no sentido de seguir a geografia espiritual de Marcos, nos próximos exemplares desta revista arquidiocesana, em três dos principais lugares onde ele situou (até em contradição com os outros evangelistas), as manifestações de Jesus: o mar, a montanha e a casa.

Uma simples comparação dos textos revela que o que parecia um simples, mesmo se cuidadoso, contexto referencial, brota de uma outra inspiração, uma outra geografia, profundamente arquetípica e espiritual. O espaço geográfico das manifestações do Espírito não é algo desordenado, em pedaços ou ruínas, ao sabor do texto ou materiais que serviram ao relato de Marcos. Ë fácil perceber que para Marcos, determinados eventos espirituais só podem ocorrer no mar, enquanto outros somente na montanha ou na casa. Essa geografia espiritual tem uma dimensão de mistério e uma marca arquetípica. O significado psicológico e espiritual desses contextos espaciais, rico e coerente, é também misterioso no evangelho de Marcos.

A iniciação nos mistérios da Igreja é lenta. Dura toda a existência. As portas dos mistérios (mysterion, de myo, manter fechado) da Igreja começam a abrir-se para o cristão no ritual iniciático do batismo. Elas continuam abrindo-se, na vivência da fé, aos que escolheram a casa certa e a porta de entrada verdadeira: “Eu sou a porta; se alguém entra por mim, será salvo, sairá e voltará e achará com que se alimentar (Jo 10,9)”. Nos próximos artigos, algumas pistas desses mistérios serão apresentadas, como indicações, para viajantes perdidos pelo costume. A estrada é conhecida. O caminho é fácil. A paisagem costumeira. Mas tudo que vira reflexo, dispensa o ato consciente e reflexivo. Estas pistas vêm para que o caminho se perca, a paisagem fique perturbadora e portadora de novas possibilidades. O que parecia conhecido revela-se desconhecido. E no desconhecido descortinam-se novos lugares e agradáveis descobertas. Um pouco como na música de Beto Guedes, esses novos lugares reservam surpresas luminosas e perfumadas, ocultas aos olhos de muitos, mas reveladas aos iniciados.

“Eu moro numa casinha de palha

que fica detrás da muralha

daquela serra acolá.

De longe, ela vos parece arruinada

mas de perto ela é juncada

de baunilha e manacá”.

A BEIRA MAR

GEOGRAFIA ESPIRITUAL NO EVANGELHO DE MARCOS

Evaristo Eduardo de Miranda (*)

fluctuat, nec mergitur

No evangelho de Marcos, o espaço geográfico das manifestações do Espírito não é algo desordenado. No artigo anterior evocou-se algo fácil de se perceber: para Marcos, determinados eventos espirituais só podem ocorrer no mar, enquanto outros somente na montanha ou na casa. Essa geografia espiritual tem uma dimensão de mistério e uma marca arquetípica. E o primeiro lugar da geografia espiritual de Marcos é o mar.

No início do evangelho de Marcos, Jesus vem de Nazaré e é batizado por João. Após ter sido posto à prova no deserto, não retorna a Nazaré, mas instala-se em Cafarnaum, na beira do mar da Galiléia. Para um contador de palavras, Marcos aparece como alguém que gostava do mar. São 14 citações da palavra mar, contra 3 em Lucas e 6 em João.

O mar surge em Marcos, logo no capítulo primeiro. É o contexto onde Jesus começa a proclamar o evangelho e encontrar seus discípulos e a multidão. A evangelização tem início com o chamamento dos discípulos, e isso ocorre ao longo do mar. “Caminhando junto ao mar da Galiléia…” ou ainda “Passando ao longo do mar da Galiléia…” (Mc 1,16), Jesus avista e convoca seus primeiros quatro discípulos, homens pecadores e pescadores.

No segundo capítulo de Marcos, já acompanhado por seus discípulos, “Jesus saiu de novo para a beira do mar. Toda a multidão vinha a ele, e ele os ensinava.” (2, 13). No capítulo terceiro encontramos um texto quase idêntico: “Jesus retirou-se com seus discípulos para a beira do mar. Uma grande multidão vinda da Galiléia o seguiu.” (3,7). No quarto capítulo, outro texto análogo: “Novamente, Jesus põe-se a ensinar à beira do mar. Uma multidão junta-se perto dele…” (4, 1). Nesse capítulo temos ainda Jesus repreendendo o vento e falando ao mar (4,39), para espanto dos discípulos que se surpreendem de ver que até o vento e mar lhe obedecem (4,41). O quinto capítulo também começa no mar: “Chegaram até a outra margem do mar (5,1)”. E o mar segue presente, em outros capítulos do evangelho de Marcos.

O mar é símbolo da origem e dinâmica da vida. Tudo sai do mar e volta para ele. Esse imenso receptáculo, imagem do inconsciente, é uma matriz da vida. Seu simbolismo encontra o da água e do oceano. Como um corpo materno, o mar é lugar propício para nascimentos, transformações e renascimentos. É junto ao mar, é do mar, que Jesus fala com as multidões. Se em Lucas, Jesus desce a um plano (Lc 6,17) para pregar o “sermão da montanha” de Mateus (Mt 5,1), em Marcos certamente o fez a beira mar.

O balançar das águas do mar, suas ondas em movimento, evocam os estados transitórios entre realidades possíveis, ainda informais, e as realidades formais, que aprisionam, imobilizam e mumificam. O mar é fonte de correntes que podem ser mortais ou vivificantes. Nos sonhos e filmes, os naufrágios, afogamentos, perigos e monstros surgem das profundezas do mar, como outros monstros surgem das do nosso inconsciente. Nesse contexto de ambivalência, incerteza, dúvida, indecisão pode-se transformar mal em bem, trevas em luz. É nesse contexto que, no evangelho de Marcos, Jesus dirige-se ao povo e às multidões. Vamos pescar um desses ensinamentos.

Uma vez questionaram Santa Teresinha do Menino Jesus, porque ela nunca pedia coisas, favores, graças etc. para Deus. Achavam que a noviça era gente de pouca fé. Ela respondeu: Jesus veio dormir no meu barco, eu não vou acordá-lo! Nesse episódio evangélico evocado pela santinha, sobre a tempestade no lago de Genezaré. Marcos (4, 35-41) relata como o convite de Jesus, para que passassem à outra margem, se transformou num pesadelo. Em meio à tempestade, Jesus dormia sobre a almofada. Foi despertado por homens angustiados. Como recomendam comerciantes da fé em programas de televisão e no púlpito de seus templos: peçam bens, automóveis, saúde, trabalho, dinheiro… peçam com fé que Deus atende. Os discípulos pediam por suas vidas e Jesus tratou essa atitude como falta de fé!

Quando o barulho cessa, a multidão vai embora e ficamos só, na casa vazia, quando enfim a calma se instala, é aí que a “tempestade” começa no coração. Temos medo de nós mesmos, não nos encontramos em nós, gostaríamos de achar um abrigo… Forças ocultas da alma, experiências que havíamos negado, escondido no inconsciente, emergem, ressurgem e ameaçam nos engolir. Confrontados a nós mesmos, como não se afogar?

Esse mar infinito pode nos engolir e pode também nos transportar. Ele é nosso coração, nosso inconsciente, o impenetrável, o sem fronteiras. Não há como escapar ao risco dessa água, mas importa saber como viver. Marcos convida a não se contentar de voltar-se para Deus na hora da dificuldade, implorando para que nos salve. Marcos convida a adotar a atitude que Jesus encarna: dormir, não fazer nada. Algo de um enorme alcance espiritual.

Saibamos, no mais profundo de nós mesmos: não há nada a temer, nem do exterior, nem das forças profundas que se agitam em nós. Nosso único problema é reencontrar a paz, como Jesus dormindo no barco. Como dizia Santa Teresinha, Ele veio dormir em nosso barco. Nada nos pode ameaçar. Nada nos falta. Imediatamente as ondas cessam e o vento se aquieta.

Pouco adianta buscar socorro, implorar conselho. O que fazer? O evangelho diz que não há nada a “fazer”. Quem passa todo seu tempo fazendo o bem, não acha tempo para ser bom, dizem os místicos. Não reserva tempo a contemplação. É pura ação. Ser capaz de encontrar a paz interior no meio do furacão, eis o que importa na vida! Ancorar o barco na profundidade interior, na terra firme, bem abaixo das fúrias do mar, mais profundamente que o mais fundo dos abismos, abaixo da zona da angústia psíquica. O que decide os sentimentos é saber, sim ou não, se tal lugar existe, sob o abismo.

Nisso fé e psicanálise encontram-se. O conselho do terapeuta junta-se à atitude de Jesus: dormir, “esquecer” a angústia e buscar na profundidade do eu interior, da linguagem dos sonhos e das imagens do sono, uma fortaleza, uma firmeza renovada. Encarnar a atitude de Jesus. A fé é precisamente o que é suscetível de nos fazer entrever, perceber, – até em sonhos – que o humano pode viver de uma forma diferente o real, a realidade, se ele acredita que existe uma “outra margem”, além do mar do inconsciente. É em função da falta de fé e do medo que se amplificam o ruído do mar e a força das ondas. A única força capaz de parar esse vento é nossa confiança em Deus.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. O mar, a montanha e a casa. A Tribuna, Campinas – SP, v. 91, p. 6 – 7, 2000.

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