O FOGO NA FLORESTA


(16/11/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

Quando Baal Chem Tov, o Mestre do Bom Nome, rabino místico que fundou o hassidismo, tinha uma tarefa muito difícil diante de si ou quando via uma desgraça prestes a abater-se sobre seu povo, ele ia se recolher solitário num certo local, no meio da floresta. Ali, ele acendia um fogo, meditava em oração e as orientações inspiradas de D-us chegavam. As desgraças eram afastadas, o milagre acontecia.

Uma geração mais tarde, quando seu discípulo, o Maguid de Mezeritch, devia intervir junto aos céus pelas mesmas razões e problemas, ele ia ao mesmo local, no meio da floresta, e dizia: “Senhor do Universo, escuta-me. Eu não sei mais como acender o fogo, mas ainda sou capaz de dizer a oração”. E as orientações e inspirações de D-us chegavam e as desgraças eram afastadas. O milagre acontecia.

Na geração seguinte, o rabi Moisés Lev de Sassov, para salvar o povo das mesmas desgraças e ameaças, também ia solitário na floresta e dizia: “Eu não sei acender o fogo; eu não sei mais rezar, mas eu ainda me lembro do lugar e isso deve bastar.” As orientações inspiradas de D-us chegavam, as desgraças eram afastadas e o milagre acontecia.

E depois chegou a vez do rabi Israel de Rijine de afastar as ameaças e desgraças. Sentado em sua poltrona dourada, no coração do seu castelo, ele punha a cabeça entre as mãos e dirigia-se a D-us: “Senhor do Universo, eu sou incapaz de acender o fogo; eu não conheço mais a oração; eu não sou capaz de achar o lugar na floresta. Tudo o que eu sei fazer é contar essa história. E isso deve bastar.” E de novo, as inspirações de D-us chegavam, as desgraças eram afastadas e o milagre acontecia.

O judaísmo, mesmo sem a historiografia do cristianismo, não esquece. Reinventa-se cotidianamente, no rememorar das centelhas de suas histórias, na unidade das fagulhas dispersas pelo mundo inteiro e na missão – e não castigo – da diáspora de recolhê-las. A verdadeira perfeição do homem está na sua perfectibilidade. Na tradição judaica – cristã, o homem não é homem pela natureza humana, mas pela sua capacidade sobrenatural de se ultrapassar. Se fossemos acabados, como as pedras ou o mar, estaríamos mortos. Diariamente nos reinventamos, nos construímos e ascendemos. O que nos move está além do lugar, do fogo, da fé e da oração. Em cada palavra, em cada sentença, em cada gesto, em cada dança, em cada canção, morremos e ressuscitamos. Destruímos o definido para abrirmo-nos ao infinito, como seres responsáveis pela nossa liberdade. Na dinâmica do Tzimtzum, da Shevira e do Ticun.

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