O FIM DO CAMINHO


(8/3/2005)

Evaristo Eduardo de Miranda

Em hebraico, as palavras hebreus (ivrim) e Abrão (Avram) são quase idênticas e têm a mesma raiz: o verbo hebraico marchar, passar, passar caminhando, avra. Os hebreus, os ivrim, são um povo em marcha. São os caminhantes. No passado (avar), passaram do Egito para Canaã. Abrão também passou e atravessou os rios da Mesopotâmia rumo a Canaã. O chamado divino vai contra qualquer inação: em marcha! Das terras da servidão para a vida e a liberdade.

Em movimento! Em marcha! Em hebraico o termo é ashrei. Asherei é a primeira palavra dos Salmos 1 e 119. Ashrei repete-se 43 vezes na Bíblia hebraica. Ela implica uma retidão (iashar) do homem marchando, verticalizado e geocêntrico, na estrada sem obstáculos que leva a IHVH, em direção ao reino de IHVH. O sentido fundamental de ashar é andar, marchar (Pr 4,14), “conduzir por uma via reta” (Pr 23,19). A bem-aventurança está no fim e não no começo do caminho.

No famoso Sermão da Montanha (Mt 5,3-11), as proclamações de Jesus não deveriam ser traduzida como “Felizes”. Essa foi uma tentativa de tradutores para demonstrar, no passado, que também tínhamos uma filosofia da felicidade e que esta não era propriedade exclusiva da filosofia grega ou, mais particularmente, dos estóicos. O sentido hebraico é o dos Salmos e o da Tradição: em marcha! Um sentido pascal, de passagem. Em marcha os pobres, os aflitos, os oprimidos, os pacificadores… Prossigam pelo caminho reto. A bem-aventurança não é dada de início (não haveria valor algum nisso). Ela está no fim, no fim do caminho.

O povo hebreu tem a locomoção associada à própria imagem, ao nome e à semelhança. Foram nomeados ou nomearam-se: hebreus, ivrim, os que se locomovem, os passantes. O simbolismo do caminho, da estrada, em grego hodos, está intimamente ligado à religião de Israel. Sua história é feita de deslocamentos, de êxodo (ex-hodos) para a Terra Prometida ou como retorno do exílio. Diz Santa Catarina de Sena: o mundo é uma ponte, sejamos passantes.

Móvel e mobilizado, Jesus também deixa Nazaré, estabelece-se em Cafarnaum, mas não se fixa: “Vamos para outra parte, às aldeias da vizinhança, para que lá também eu proclame o Evangelho: pois para isso é que eu saí” (Mc 1,38). Ele passa. Ele sai. Todo seu ministério na Galiléia e na Judéia é itinerante. Ele vai até países vizinhos, ao encontro dos não judeus. Jesus envia seus discípulos anunciar sua vinda (Mc 6,7) e quem deseja caminhar com ele, deve deixar aldeia, trabalho e família (Mc 10,28-30). Ele diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Lucas ao relatar o caminhar de Cléofas e seu amigo para Emaús (Lc 24,13-35), expressa os significados essenciais da Páscoa e da vida cristã. Somos chamados a caminhar, a sair e a evangelizar em outros territórios, sem apego ao que fixa e imobiliza.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. O fim do caminho. A Tribuna, Campinas – SP, v. 96, p. 7, 2005.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. O fim do caminho. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 6, p. 2, 2005.

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