O ESSENCIAL E O INDISPENSÁVEL


(25/12/2006)

Evaristo Eduardo de Miranda

A Igreja não é uma sociedade ideológica e sim uma sociedade de homens em vias de tornarem-se discípulos de Jesus Cristo. Também não se trata de uma grande comunidade. Somos seres sociais. E os homens que, numa época dada e num local determinado, estão em vias de tornarem-se discípulos, como foram os primeiros discípulos de Jesus, formam sempre uma sociedade. Esta exige uma certa organização, uma certa estrutura, como dizia Marcel Légaut. A Igreja é de forma indissociável comunhão e instituição. Essas duas dimensões eclesiais estão ligadas mas não estão no mesmo plano. O essencial é a comunhão. O indispensável é a instituição.

Qual a diferença entre o essencial e o indispensável? O essencial não pode ser retirado. A comunhão deve existir entre os homens que, graças às suas próprias possibilidades humanas, entram na inteligência do que Jesus viveu. O indispensável, ao contrário, deve adaptar-se às circunstancias locais de tempo e lugar de forma a permitir ao essencial de tornar-se progressivamente real.

O essencial da Igreja é algo imutável enquanto o indispensável é algo móvel e dinâmico. É infinitamente mais fácil enxergar o indispensável do que corresponder em profundidade ao essencial. Muitos confundem as duas coisas: o indispensável pode parecer essencial e até tornar-se um obstáculo para a tomada de consciência do que é essencial na Igreja (QN 195).

O essencial é a comunhão. O modo como Jesus comportou-se com relação às instituições do seu tempo, o demonstra. Se é verdade que, desde os meados do século passado antes até do Concílio Vaticano II, muitos dedicaram-se a “desconstruir” aquilo que não parecia essencial na vida da Igreja, está mais do que chegado o tempo de reconstruir e de parar de gemer sobre o passado. A comunidade de fé é essa comunidade de homens em busca da sua humanidade, suficientemente profundos na vida espiritual para entrar na inteligência do que Jesus viveu. São essas comunidades de fé, de dois ou três reunidos em Seu nome, que constituem o tecido da Igreja.

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