O ENTERRO DE JESUS


(26/3/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

O sepultamento de Jesus obedeceu a ritos profanos e religiosos, próprios do judaísmo e do contexto religioso e político daqueles momentos terríveis. Quem “oficiou” as exéquias de Jesus foi um destacado fariseu, amigo de Nicodemos (Naqdimon ben Gurion), chamado Iossef de Ramataim, um homem rico e justo, membro notável do San’hedrin, do Sinédrio. Ele é conhecido na tradição cristã como José de Arimatéia, um discípulo secreto (por medo?) de Iehoshua ben Iossef, de Jesus de Nazaré.

Iossef era do vilarejo de Ramataim, em grego Arimathaia, de localização incerta. Supôs-se estar situado a noroeste de Jerusalém, a leste de Jope (a Nablus dos dias de hoje), provavelmente idêntica a Rama (thaim) do Antigo Testamento (1S 1,1), na montanha de Efraim, país natal do profeta Shemuel. Outra hipótese é que seria a cidade hoje chamada Rentis. O sentido hebraico da palavra Ramataim designa a altura (ram) dupla (staim), a Dupla Elevação, designando provavelmente uma cidade com dois bairros situados em colinas vizinhas. Mas o nome também permite uma especulação simbólica.

Seu testemunho humano é esclarecedor do relacionamento, de pelo menos parte, dos fariseus com Jesus. Sua ligação com de Iehoshua ben Iossef, o Jesus de Nazaré era grande. Como bom fariseu (e não somente como fariseu bom), ele fará um gesto, quando da morte de Jesus, cuja coragem, audácia, benevolência e compaixão vão valer-lhe uma menção unânime (fato raro) em todos os evangelhos (Mt 27,57-59; Mc 15,43-45; Lc 23,50; Jn 19,38). Após a morte de Jesus, no que pesem as terríveis circunstâncias políticas e humanas implicadas, num lance de ousadia e de quem não deixa intimidar-se, José de Arimatéia vai pessoalmente reclamar junto a Pôncio Pilatos a liberação do corpo de Jesus, para dar-lhe sepultamento e cumprir os ritos de exéquias.

Para descrever esse gesto, o evangelho de Marcos usa o termo “tomando coragem” já que a lei romana previa que os crucificados deviam tornar-se presa de abutres, cães e animais selvagens. Pilatos permite, não sem antes estar seguro da realidade da morte do Jesus de Nazaré (Mt 15,44). Sua situação de “nobre conselheiro”, mencionada por Marcos, indica que José de Arimatéia era um homem suficientemente importante socialmente para ter livre acesso a Pilatos. Se esse título, como muitos acreditam, indica que ele era membro do San’hedrin, seu gesto toma também um significado adicional de coragem e independência.

Junto com os fariseus amigos de Jesus, José de Arimatéia sabia que a tradição judaica era a de sepultar os mortos no mesmo dia de sua morte (Jo 11,27). No caso de um enforcado, a Lei exigia esse procedimento (Dt 21,23). Os romanos, pelo contrário, tinham como lei deixar os cadáveres dos crucificados à mercê dos animais selvagens e aves de rapina. Estava-se na preparação do shabat da Páscoa. Esse favor pedido a Pilatos por José de Arimatéia tem também um alcance religioso: tratava-se, na liturgia judaica, do shabat da libertação dos hebreus da escravidão, na véspera da Páscoa (Pessach), de uma importância litúrgica muito particular (Ex 12,16).

“Ele (José de Arimatéia) vem, então, e leva o corpo de Jesus” (Jo 19,38). Dadas as circunstâncias da morte, pode-se apenas imaginar – em silêncio respeitoso – o que implica a realização prática e efetiva dessa frase por esse fariseu piedoso. Ele deve ter concluído sua tarefa, ungido pelo sangue e pelo suor de Jesus. Essa mistura de suor e sangue também impregnará um lençol para toda a eternidade, segundo a crença dos cristãos. Esse gesto ousado de José de Arimatéia talvez relativize e dê outro significado para seu discipulado “secreto” junto a Jesus. Normalmente, o clandestino de um partido ou de uma seita, nunca é apreciado, mas o comprometimento público – no mais alto nível – de José de Arimatéia para pôr a salvo o corpo de Jesus, vai torná-lo merecedor de menção elogiosa pelos quatro evangelistas. Marcos dirá: “Ele também esperava o reino de Elohim” (Mc 15,43).

Ele oferece o mausoléu de sua família, uma sepultura cavada no rochedo do Calvário, bem próximo ao local da crucifixão. Ali, ajudado por outro fariseu, Naqdimon ben Gurion, o Nicodemos, ele sepultará o corpo de Jesus, seguindo estritamente os ritos previstos pelos fariseus nessas circunstâncias.

Segundo relato de Marcos, José de Arimatéia é quem compra a mortalha, essa longa peça de linho na qual os judeus tinham a costume de envolver seus mortos. Nesse início de crepúsculo de véspera do shabat, quando as velas começavam a ser acesas nos lares para a celebração, o fariseu José de Arimatéia desce Jesus da cruz, envolve-o em seus braços e depois na mortalha de linho. Nicodemos e José de Arimatéia buscam observar as práticas rituais prescritas pelos fariseus numa situação limite, levando grande quantidade de aromas preciosos: mais de trinta quilos de mirra e aloés (Jo 19,39)! Nesse gesto, Nicodemos vê em Jesus, o messias de Israel. “Ele pretende dar-lhe funerais reais e, como acontecia com os reis e as figuras importantes, queimar grandes quantidades de incenso purificador, durante o sepultamento do mestre supliciado. Sendo um fariseu, ele vem certificar-se de que os ritos de sepultamento serão respeitados. Ele próprio se encarrega disto, trazendo o que será necessário para pôr no túmulo.” Finalmente, eles o depositam na sepultura cavada na rocha, onde ninguém ainda havia sido posto (Lc 23,53).

Essa precisão, sepulcro novo pertencente a José de Arimatéia, é retomada em Mateus (27,60) é significa que a sepultura fora cavada por ele mesmo e por sua família. Segundo André Chouraqui, a precisão é importante: “ela prova que, aos olhos da Torá, Iehoshua podia se beneficiar sem problema de uma sepultura normal, o que não teria sido o caso se ele tivesse sido condenado à morte por um tribunal rabínico. Os condenados à morte, em virtude da Torá, eram enterrados em um local à parte de um cemitério especialmente reservado para eles. Vítima dos romanos, Iehoshua, ainda que crucificado, tem direito a uma sepultura normal” e aos ritos previstos pela tradição religiosa do judaísmo. A privação da sepultura era vista como uma grande maldição (Dt 28,26; 1Rs 21,23; 2Rs 9,36; Si 34,3; 66,24; Jr 7,33; 14,16; 19,7; 22,19; 25,31)

Ajudado por muitos homens, possivelmente amigos fariseus, José de Arimatéia rola a pedra circular. Provavelmente ela avança sobre uma canaleta, até a abertura, do sepulcro. Do exterior, pela entrada, era possível ver o lugar onde o corpo havia sido deixado, deitado. Não havia mais tempo para nada. Sobre essa pedra circular que fecha a entrada, vai parar o olhar contemplativo de duas mulheres: Miriâm de Magdalá e a Miriâm de Iossef e de Yaacov. Imediatamente José de Arimatéia se retira, junto com seus irmãos fariseus. É shabat.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. O enterro de Jesus. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 2, p. 4 – 5, 2001.

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