O DEUS DA CLARA


(19/9/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

Um casal amigo, do Rio de Janeiro, teve seu primeiro filho. Uma menina atilada e esperta, a quem deram o nome de Clara, aquela que tem o brilho do dia. O meu livro “Água, Sopro e Luz” ajudou na preparação do batismo da criança. A palavra claro evoca o sonoro (para o ouvido), o brilhante ou nítido (para os olhos) e o manifesto e inteligível (para o espírito). Clarissimus era o título dado, na época imperial romana, às pessoas de qualidade. O nome da menina, que veio iluminar a vida desses amigos, é um convite franciscano para um passeio pelo brilho dos nomes do divino.

Em latim, a raiz die significa brilhar. Dia toma sua origem em dies e significa “céu em plena luz ou na plenitude da luz”. Disso derivou o primeiro significado de dia, como luminoso, em oposição à nox, noite. Posteriormente, a palavra representou o espaço temporal de um dia e, enfim, a duração ilimitada, em dias e dias. Da mesma raiz, diu, (presente em diu-rno, por exemplo) encontramos o significado de Júpiter, Ju-ppiter ou diu-pitter, literalmente “senhor do céu em plena luz”. Mas essa plenitude da luz ilumina também o nosso cotidiano pela raiz die. São palavras como meridiano (meri-die, no meio do dia), hodierno (hodie-rnus, de hoje, do dia de hoje), cotidiano (cotti-die para quoque die, cada dia) etc.

Da mesma raiz deriva deus (deiv-us, dius) e designa o habitante do céu luminoso, em oposição ao homo, habitante do solo terrestre. O feminino toma conta da palavra deus em Diana (Di-ana), a lua, a própria luminosidade. Designar o Incriado, o Absoluto, pela palavra Deus, evoca – pelo latim – a iluminação, o ver claro, o brilhar e a luz do dia. “Eu sou a luz do cosmos, quem caminha comigo não estará nas trevas mas na luz da Vida”(Jo 8,12).

É curioso que – pelo grego – a palavra Deus (théos) venha de contemplação. Pela mesma raiz temos teoria (ação de contemplar, examinar), o que permite ver claro ou com clareza num determinado fenômeno. Pelo grego, Deus é aquele que nos permite ver claro, ver à luz do dia. Ao batizar a Clara, seus pais e amigos decidiram agir simbolicamente sobre a criança e não “teorizar” sobre seu futuro. Clara é uma abertura, pela qual o sopro divino reacendeu brasas adormecidas no mais interior e profundo do coração de seus pais. O batismo não é uma teorização mas uma teose, um rito de divinização, de deificação da criança. Pela estrada grega ou latina, quem tem uma experiência pessoal de Deus em sua vida, vê claro e caminha na luz.

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