O DESARMAMENTO DE DEUS


(6/12/2011)

Evaristo Eduardo de Miranda

Na Bíblia, todo pacto do humano com Deus é acompanhado de uma lei e de um sinal. Para Abrahão, Deus propõe como sinal de sua aliança a circuncisão de todo macho. Para Moisés, Deus propõe guardar e santificar o sábado, o shabat. Passada a fúria devastadora do dilúvio, em sua aliança com a humanidade, Deus escolhe como símbolo o arco-íris. Textualmente em hebraico está dito: Meu arco, à nuvem eu o entreguei (Gn 9,13-17).

O que significa esse arco nos céus? Um desarmamento unilateral de Deus. Ele renuncia à guerra contra a humanidade e como um guerreiro, ele depõe seu arco nos céus, ele se desarma. Esse gesto do divino deverá recordar-lhe, e também ao homem, a sua lei da vida e seu novo pacto com a criação inteira (Gn 17,11; 21,30; 31,3-34; Ex 31,17; Jos 24,27), pela preservação dos homens, animais e de todas as formas de vida. O arco, em hebraico como em português, designa ao mesmo tempo o arco do guerreiro e o arco-íris (Hab 3,9). E o arco-íris é um símbolo universal e arquetípico da paz.

É sempre tempo de desarmar os espíritos, de acriançar nossa vida e de confiar no poder salvador da paz. Bem aventurados os pacificadores, os que trazem a paz, eles serão chamados filhos de Deus (Mt 5,9).

Meu arco, à nuvem eu o dei. Essa forma verbal sublinha o caráter unilateral do desarmamento divino. O homem ainda não havia dado nenhuma prova de sua melhoria após o dilúvio e Deus já depunha as armas. A imagem do arco deposto na nuvem talvez tenha sido emprestada pelos hebreus da cultura da Babilônia, onde o gesto aparece no relato mesopotâmico Enuma Elish. Essa imagem está presente também na Ilíada (11,28). O que seria da Bíblia sem as contribuições culturais Ed religiosas da Babilônia, do Egito e dos gregos? Talvez não tivéssemos anjos, demônios, circuncisão, dilúvio, homem deito de barro, relatos da criação, Moisés salvo num arca de junco etc. Mas o arco-íris, no livro do Gênesis, projeta no futuro a dinâmica da salvação da humanidade. Os guerreiros do arco-íris buscam, vivem e anunciam a paz. Como canta o profeta: “Como são belos os pés do mensageiro que anunciam a paz” (Is 52,7).

A expressão hebraica para designar o dilúvio é mabul e só é encontrada no livro do Gênesis em toda a Bíblia, salvo uma menção no Salmo 29,10. Essa palavra é explicada pela raiz hebraica nabal, “parecer” ou “perder a razão” (Pr 30,32). Este verbo é aplicado na Bíblia à terra e ao mundo inteiro (Is 24,4). A invasão das águas transtornou o universo, que “perdeu a razão”. Apenas os peixes escapam à maldição do dilúvio e essa é uma das razões que levaram os primeiros cristãos a ver neles um símbolo do Cristo, daquele Jesus que os multiplicou e os deu como alimento a uma multidão faminta.

No mito do dilúvio, a condenação do gênero humano e de toda vida sobre a terra seria inapelável e representaria o fim do mundo, se Noé, Noah em hebraico, não tivesse encontrado “graça aos olhos de IHVH” (Gn 6,8). o jogo de palavras, intraduzível e muito significativo em hebraico, entre Noahnh – e hén (graça) – hn. Na travessia das águas da liturgia pascal, a Igreja nos recorda que a graça alimenta-se do pecado. Cada vez que perdoamos, desarma-se nosso espírito e tem início uma nova criação.

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