O DEFICIENTE E A FORTALEZA DA CRUZ


(5/5/1997)

Evaristo Eduardo de Miranda

Quantos pais e parentes de deficientes ouvem este comentário: trata-se de uma cruz que vocês deverão suportar e carregar. Uma prova que Deus lhes deu. Com humildade, sigam os passos de Jesus. Vivam o seu calvário. Nossa vocação seria mesmo a do martírio? Seria essa a via, o caminho proposto pela fé cristã ‘a pessoa deficiente, a seus pais, parentes e amigos? A via dolorosa?

Para muitas visões religiosas, um filho ou uma pessoa deficiente são vistos como uma pesada cruz a ser suportada e carregada na submissão, imitando Jesus no caminho do Calvário. Diante do evento de um familiar deficiente, a ansiedade pode levar os pais a fazer muita coisa por ele, mas nem sempre com a devida atenção à liberdade inerente a sua pessoa. O desejo de ter mestre, guia ou guru é tão comum! E resulta do desejo de não ser confrontado a dificuldade de viver verdadeiramente nossa vida única.

Quando os pais pensam assim, como imaginar outra atitude face ao filho deficiente. Eles buscam um médico, um terapeuta, uma equipe, uma teoria, uma escola ou qualquer coisa que lhes sirva de guia. Todas essas ajudas são válidas e necessárias na medida em que contribuem para a plena integridade física e psíquica do deficiente, instaurando sua sacralidade.

Mas o portador de deficiências, sejam elas quais forem, é chamado a assumir sua vida única e também a se preparar um dia para a morte única que é a sua. Quantos anos não são gastos para sair da alienação, desse lugar de morte em que a superproteção, a divinização e a subestimação colocam a pessoa deficiente, profanando-a. Lugar de morte e de profanação, onde impera o desejo de não ser contado entre os que falam, mas entre os que repetem as palavras já ditas por aqueles que falam bem ou sabem.

Qual seria então o significado da cruz, que o Cristo propõe de tomar a cada dia? Seria um chamado a resignação e a submissão aos fatos e eventos negativos da existência? Mais uma vez, vale a pena revisitar o texto para entender-se o possível contexto do desafio lançado pelo exemplo do Cristo. Passo a passo, palavra por palavra: tomar sua cruz.

A cruz sempre foi uma palavra pesada na história cristã. O termo grego empregado no evangelho é staurós. Tratava-se de um poste ou pau cravado verticalmente no chão. Uma espécie de coluna à qual se prendiam os criminosos, expondo-os à ignomínia pública. No staurós era colocado o madeiro transversal dos supliciados, o patíbulo, em geral carregado por eles próprios até o local. Staurós vem do verbo: manter-se de pé. É a mesma raiz de sto em latim, stand em inglês. Em português tem-se estatura: medida de uma pessoa, da cabeça aos pés, em posição rigorosamente vertical. Estatura também pode significar altura, grandeza: um homem de grande estatura moral e intelectual. O manter-se de pé é, entre os primatas, a posição própria do homem! Levantar nossa cruz, com grandeza moral e espiritual, exige ficar de pé! O sujeito instaura a si mesmo. Instaurar vem da mesma raiz staurós. No sentido de estabelecer, formar; fundar, inaugurar, organizar, renovar e restaurar.

A tradição popular fala em carregar a cruz, como sinônimo de sofrimento e resignação. Cada um deve carregar sua cruz. No texto bíblico o chamado é de para tomar a cruz. Tomar no sentido de levantar (airô, em grego) sua cruz: alçar, erguer, erguer do chão, suspender e também levar, arrebatar (tomar uma cidade, uma fortificação) ou suprimir (tomar a defesa inimiga). O fantástico é que quando se toma ou se alça alguma coisa adquiri-se o manuseio, o domínio!

O símbolo da cruz lembra os quatro pontos cardeais e a orientação. É uma bússola espiritual dos católicos. Como símbolo, ao unir exterior e interior, a cruz evoca um sol. Seu centro é um ponto para onde tudo converge e de onde tudo se irradia. Os madeiros da cruz unem na vertical o céu e a terra e na horizontal o Oriente e o Ocidente, o dia e a noite. Com o sinal da cruz, o católico simboliza seu desejo e compromisso de irradiar a luz de Cristo neste mundo. A cruz não aponta para a morte e o sofrimento e sim para a ressurreição, para a vida eterna na plenitude da luz.

Para os católicos, a cruz é a imagem por excelência da vida, da árvore da vida, da qual caiu maduro, na Sexta-feira Santa, o fruto de Jesus. Fruto colhido por seus amigos. A cruz é como uma estrela a iluminar e pairar sobre os católicos, do berço até a sepultura. A cruz é uma chave e abre a porta da eternidade. Se alguém sente a deficiência de um ente querido como uma cruz, saiba que o convite do evangelho é para tomá-la entre as mãos e erguê-la do chão. Sacraliza-la ao invés de profana-la.

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