O DEFENSOR DE PEDRO


(30/4/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

“Quanto a mim, eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor,

que permanecerá convosco para sempre.”

(Jo 14, 16).

Na paixão do Cristo, a negação de Pedro e o cantar do galo são episódios instigantes quando buscamos beber na água cristalina do texto original. Longe de delatar a já conhecida fraqueza humana, esse texto é talvez uma das primeiras evidências da ação e da presença do Espírito Santo na Igreja, ao concluir-se o ministério terreno do Cristo. Sua lição principal? Pedro não pode acompanhar Jesus, mas Jesus pode acompanhar Pedro.

O apóstolo Pedro tem uma participação destacada nos evangelhos, principalmente em Marcos. Os textos relatam como o pescador Simão, sob a inspiração do Espírito, enquanto todos calam-se, reconhece no Cristo, o Filho do Deus vivo. Ele será o único a ter seu nome mudado por Jesus: Pedro (Cephas) e receberá a missão de alicerçar a Igreja, mais forte que a Potência da Morte (Mt 16,15-19). Pedro atenderá a convocação do Cristo.

A idéia de seguir alguém evoca submissão e alienação. Isso não existe no verbo grego akoloutheo, utilizado no evangelho. A palavra grega keleuthos significa caminho, estrada, rota, trajeto, viagem. Quem vai junto com alguém pela mesma estrada o acompanha, da mesma raiz akólouthos. Esse verbo grego opõe-se a outros que, eles sim, significam caminhar na frente, ir adiante, conduzir (ègumai) ou mostrar o caminho, guiar (archomai). Ao contrário do seguimento temeroso e submisso, acompanhar vai bem para os dois sujeitos. Duas pessoas caminham juntas. O acompanhar evoca igualdade na dignidade e na liberdade, e não na servidão ou na submissão dos que aceitam um jugo comum. O posicionamento de Jesus na caminhada é uma autorização para a vida e a liberdade: eu estarei ao teu lado. Caminharei com você. Dois sujeitos, sem sujeição. Ele é o Emanuel, o Deus conosco. E Jesus estará junto de Pedro.

Mas a potência da morte vai enfrentar-se com Pedro. Apesar de suas declarações e de sua disposição de acompanhar e morrer com o Mestre, os textos relatam que Pedro não poderá acompanhá-lo no calvário. E, de certa forma, nem sequer no lugar onde Pedro o negará (Mt 26,31-34). Após a prisão do Cristo, Pedro nega a si mesmo, o que de certa forma é o mais grave. O evangelho nos mostra como age o Cristo, sujeito que não desfalece, não falha, nem diante da morte, nem diante do desfalecimento de seu amigo Pedro, diante da morte (Mc 14,66-72; Mt 26,69-75).

Sabendo da impossibilidade de Pedro (e da nossa) de acompanhá-lo em muitas situações vivenciais, Jesus deixa para seu apóstolo uma predição importantíssima. Ela vai permitir a Pedro não morrer psicologicamente, no lugar onde, diante do simples anúncio da morte, Pedro já tinha morrido (Mt 16,21-31). Na última noite, no monte das Oliveiras, Jesus disse a Pedro “antes que o galo cante duas vezes, me terás negado” (Mc 14,30). Qual o significado desse galo, além do imaginário, quase anedótico da tradição, sobre um Pedro arrependido e cheio de remorsos?

Um galo. No grego original não é utilizada a palavra galo, mas um equivalente, usado na linguagem corrente para designá-lo pela sua função: alector, o defensor. Essa palavra vem do verbo alexô, “afastar alguém de um perigo, de uma desgraça”. Quando o alector cantar, Pedro ouvirá seu defensor, a palavra do outro que o acompanha até ali. Eu estarei com você na sua negação, ali onde você mesmo não estará!! A voz da madrugada virá para Pedro salvar-se de sua negação. Negação do outro, mas também de si mesmo. “Eu não sou o homem…” Em João é ainda pior: ouk eimi. Eu não sou. O anti nome de YHWH (Eu sou o que sou). O sujeito Pedro está morto. Ele desapareceu, no lugar onde o reconheceram como discípulo de um condenado. Ele o nega. Jesus não é seu mestre. Uma forma obscura de um “eu não quero…” de Pedro, de um negar a vontade do pai, como os rebentos do vinhateiro (Mt 21,29). Isso dura uma noite, o tempo de três negações.

Depois, a voz do defensor é ouvida, irradiando com a nova luz. Eis que acorda o sujeito Pedro-com-o-outro, iluminado. Pedro não está mais só! E ele chora, o ato onde não foi ator, nem autor. Se não havia ninguém (eu não sou), só havia satanás e a palavra de Jesus, no galo, esperando por ele. Em Marcos (14,72), ele nitidamente recorda, pensa muito, chora a emoção do reencontro com a palavra do defensor. Sem a predição do Cristo e o canto do defensor, talvez a pedra se tornasse pó, como Judas, suicida. Mas não. Acompanhado, um dia, essa pedra também será atada ao patíbulo, de cabeça para baixo. A cadeia do papado não foi inaugurada na solidão mas na solidariedade. “O Defensor, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará recordar tudo o que eu vos disse” (Jo 14,26).

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. O defensor de Pedro. A Tribuna, Campinas – SP, 1999.

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