O ANIMAL NÃO TEM RAZÃO


Cristianismo e Ética da Natureza

(23/7/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

Este fim de milênio está marcado por uma preocupação mundial: a preservação do meio ambiente e o destino da vida sobre a Terra. Vê-se emergir entre crianças e jovens uma nova ética da natureza, que poucas gerações conheceram ou conceberam. As crianças erigem-se contra a poda de árvores, a morte de baleias e são capazes de sair na defesa de um inseto ameaçado por algum adulto. Cada vez mais a natureza e os seres vivos tornam-se objeto de direito. A nova lei dos crimes ambientais é um exemplo dessa mudança, principalmente nos artigos que tratam da proteção das plantas, animais domésticos e selvagens e daqueles usados em pesquisa de laboratório.

Paradoxalmente, um pouco como na questão dos operários no século XIX e das mudanças ocorridas com a juventude nesta segunda metade de século, a Igreja parece estar chegando atrasada – mais uma vez – no tema da ecologia. Dada a complexidade e a abrangência do tema, vale tomar como reflexão inicial o exemplo dos animais e do lugar reservado para eles na teologia judaico-cristã, profundamente marcada pelo antropocentrismo.

Nas grandes religiões monoteístas, em geral, os homens não têm nada a aprender com os animais. Já nas religiões politeístas, os animais servem de modelo de comportamento e conduta para os homens. Eles ensinam como proceder em diversas situações. O único exemplo da Bíblia nesse nível é o da jumenta de Balaão que vê o quê seu mestre e seus dois servos não vêem: o anjo exterminador de Javé, postado no meio do caminho! Ela tenta salvar seu dono por três vezes, desviando da rota. Apanha muito por fazê-lo, a ponto de Javé abrir sua boca para interrogar seu dono: “O que foi que eu fiz para você me espancar três vezes? (Nn 22,22-28). Fora este relato, de origem bastante obscura, no texto bíblico, os animais não tem quase nada a nos ensinar.

Sem tocar voluntariamente no tema do vegetarianismo, a visão das tradições hinduístas, das religiões do Egito antigo e dos vários grupos africanos e ameríndios é muito diferente da tradição monoteísta. No julgamento dos mortos do Egito antigo, diante da balança de Mâat, não somente as faltas contra a humanidade eram consideradas, mas também todas as cometidas contra os animais. Escritos nas sepulturas evocavam que o morto nunca havia atentado contra os animais: “Nunca molestou um ganso, num retirou o capim de um boi…”. Era crença dos egípcios que os animais compareceriam ao julgamento para testemunhar a favor ou contra o humano julgado. Em outras palavras, não só o comportamento do homem em suas relações humanas era julgado na hora da morte, mas também seu relacionamento com a natureza. Para nossa teologia antropocêntrica isso sempre foi simplesmente inconcebível. Os animais não têm vez no púlpito de nossas igrejas e nos escritos doutrinários.

Os mitos indígenas e de povos politeístas, sobre a origem do cosmos, sempre buscam situar o homem dentro da criação e do meio ambiente. Na tradição judaico-cristã e muçulmana é o contrário. O cosmos inteiro é que é situado no interior do mundo dos homens, ao qual fica absolutamente submetido. Como destaca o teólogo alemão Eugen Drewermann, no cristianismo é ainda pior pois este estendeu sua antropologia à cosmologia. Toda a criação foi levada ao mal pelo pecado de Adão e deve ser salva pelo Cristo, quer dizer pelos homens, seguidores do Cristo (Igreja). “Essa imagem do mundo é sem dúvida altamente mitológica, mas, com relação ao mito “pagão”, sua mitologia vem do fim oposto: no antropocentrismo da visão cristã do mundo (caso se continue a interpretá-lo assim!), o ser humano continua o tema principal do universo; ele e seu destino decidem o conjunto do cosmos; tudo que existe foi criado para ele. Trata-se de uma teologia que recusa simplesmente, como nos dias de Galileu, a ver e a levar em conta o que deveríamos reconhecer na primeira olhada que se desse através de um microscópio ou de um telescópio: a completa refutação do antropocentrismo cristão”. Galileu e Copérnico enterraram a duras penas o geocentrismo, mas pouco arranharam o antropocentrismo. Talvez, suas descobertas científicas até afirmaram a infinita capacidade deste singular ser racional que seria o homem.

Nossa civilização comete três crimes gravíssimos contra os animais. O primeiro é a destruição de suas casas e moradas, de seus ecossistemas. Para ter-se carne em churrascos, imagina-se legítimo estender as pastagens até onde for possível: desmatando e queimando, destruindo – sem a menor reflexão – milhares de habitats e milhões de espécimens. Em segundo lugar, está o tratamento dados aos animais na pecuária moderna. O que se faz em termos de manipulação genética, técnicas de reprodução, alimentação, remédios, hormônios, transporte e abate é digno de um filme de terror. Mas o consumidor vê a carne embalada, bonita, no supermercado e voluntariamente não deseja saber o que aquele frango ou boi sofreu antes de chegar ali. Esconde-se tudo isso. Por último, está o que pratica-se nos laboratórios de pesquisa. Verdadeiros centros de tortura, eles submetem animais a sofrimentos indescritíveis por via física, química e radioativa. Estima-se a cerca de 300 a 400.000 animais superiores mortos anualmente em laboratório. A maioria por motivo fútil: testar novas fórmulas de xampu, cremes faciais etc. A pretensão cosmética cobra um alto preço para atender a vaidade humana.

Alimentados por uma leitura limitada da filosofia de Aristóteles, muitos teólogos cristãos vêm a criação como algo determinado e as espécies vegetais e animais como seres fixos. As descobertas da ciência, de como a vida surgiu e se desenvolveu em nosso planeta, colocam a emergência do homem entre os animais, em termos temporais e filogenéticos, cada vez mais precisos. São quase quatro bilhðes de anos de história da vida sobre a Terra. Foi uma lenta e recente evolução dos antropóides, ao longo dos últimos quatro milhões de anos, para chegar-se até o atual momento da hominização. Essas descobertas questionam as visões religiosas e filosóficas do homem e do cosmos, construídas em contexto histórico muito diverso do atual. Até pouco tempo acreditava-se num surgimento rápido e quase instantâneo da vida sobre a Terra e tinha-se como certa a imutabilidade dos seres vivos.

Ao contrário de certas visões criacionistas das religiões, a ciência demonstra a permanente evolução de todos os sistemas físicos e biológicos existentes no Universo, mas não somente no sentido da dialética heraclitiana do panta rei, do tudo passa. Nada é fixo. A ciência derrubou sem cessar seus próprios paradigmas fixistas: a imutabilidade das espécies de Cuvier; a imobilidade da Terra no centro do universo criado por Ptolomeu; a concepção mecanicista de Descartes que considerava toda matéria como inerte e até a mecânica de Newton, que via o mundo como um relógio perfeitamente ajustado. Nenhuma dessas visões resistiu ao progresso do pensamento científico, mesmo se a compreensão do mundo e do universo continua aproximativa e fragmentada. Hoje a Teoria da Relatividade de Einstein e a visão da física quântica implicam um espaço multidimensional muito diferente da idéia comum de espaço e de tempo. Amanhã, essas visões do mundo real serão mais uma vez corrigidas por novas descobertas.

Essas pesquisas, sobre como os sistemas vivos evoluem e se mantém, atingem em cheio muitos dos postulados éticos, teológicos e até espirituais, aceitos durante séculos. O antropocentrismo e a antropologia das doutrinas judaica, cristã e islâmica apresentam serias limitações para entender e dar significado aos novos conhecimentos científicos sobre a origem, a evolução e o destino da vida na Terra. Sete tópicos poderiam ser destacados para consideração da comunidade cristã:

O ser humano é o principal tema do Universo? Como repensar nosso lugar e o lugar dos animais no planeta em função da unidade original de todas formas de vida. Essa unidade inicial deve gerar uma unidade de destinos?

Qual o destino escatológico da criação? A ciência, com as dimensões temporais reveladas nas relações evolutivas, ajuda a pensar o tempo na Eternidade numa nova perspectiva? Qual o destino escatológico dos golfinhos, dos chimpanzés e das outras formas de vida?

Superar o antropocentrismo é um passo a mais a ser dado no caminho do caos ao cosmos. Um cosmos que na sua totalidade possui talvez um coeficiente positivo superior ao da humanidade pois, na hierarquia dos seres, ele constitui a condição primeira. Como situar a história da salvação numa dimensão cosmológica coerente com as descobertas da ciência?

A natureza pode viver sem o homem e não o contrário. A luta é permanente para superar o etnocentrismo enquanto o geocentrismo caiu por simples demonstração científica, já que até hoje ninguém viu a Terra girando em torno do Sol. Como superar o antropocentrismo sem cair num biocentrismo?

O domínio da natureza deve ser compreendido como um estágio avançado da consciência humana? A inteligência do homem pode regular sua relação com a natureza (interna e externa), de tal forma a minimizar os aspectos destrutivos e autodestrutivos dos desejos humanos?

Nós não devemos “salvar” os animais, mas temos o dever de deixá-los em paz, na medida do possível. Existe uma necessidade, pelo menos como idéia reguladora da razão prática, da fé na imortalidade dos animais para fundar uma ética que acorde a consideração devida aos outros seres, que são também criaturas como nós

Como traduzir na prática pastoral as tensas dinâmicas das harmonias resultantes de polaridades opostas como o desenvolvimento humano e a preservação ambiental, situadas entre tempo e eternidade, distantes de qualquer bio ou antropocentrismo?

Curitiba

1998

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