NO PRINCÍPIO ERA O BOI


(1/1/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

“O Cristo não é semelhante ao rinoceronte unicórnio,

nem ao minotauro bicórnio,

mas ele é como o touro de dois chifres:

terrível juiz e doce salvador.”

Tertuliano

A tradição vê um boi no estábulo onde nasceu Jesus, contemplando e ruminando junto com o jumento, sobre o novo princípio, o novo príncipe. Tanto Ezequiel, como o Apocalipse, descrevem o boi, o jovem touro, como um dos quatro animais celestes (Ez 1,10; Ap 4,7). Desde Irineu, a tradição cristã já assimilava os quatro animais (leão, touro, homem e águia) com cada um dos evangelistas. A Lucas, corresponde o boi. E foi esse boi Lucas, esse bom Lucas, quem nos deixou mais detalhes sobre o princípio de Jesus, num estábulo. No princípio, no estábulo, estava e era o boi. Porque?

A letra A principia nosso alfabeto. Originalmente, nos hieróglifos egípcios, ela era representada pelo desenho de um boi, com seus dois chifres: . Na escrita caananita, a letra foi vertida para a horizontal e depois para a vertical. A inversão vertical, com relação ao primeiro grafismo, deu origem ao alfa grego e ao A latino. A posição horizontal ainda é mantida no alfa minúsculo e na letra a cursiva. Em hebraico, a letra alef também aponta seus chifres para os céus. A palavra alef tira sua raiz de elef que significa boi, gado graúdo. Alef evoca também o verbo domesticar, aprender, ensinar e estudar. Aluf é príncipe, mestre, esposo. Cristo é apresentado nas escrituras como o Alef, o Alfa, o A, o princípio, o príncipe, o mestre, o esposo. Hoje, o A está invertido, com seus chifres voltados para o mundo e não para os céus.

Existem várias relações e diferenças entre a simbologia do boi e do touro (shor), e do arredondado (agol) bezerro (eguel), sempre assemelhados. A castração opõe o boi ao touro, dá-lhe outra fertilidade, interior, conferindo-lhe imagem de docilidade, paciência e aptidão ao trabalho e ao sacrifício. Para os gregos, o boi era um animal sagrado, imolado nos sacrifícios. A palavra holocausto e hecatombe evocam a imolação e o sacrifício de cem bois, onde chamas e fumaça dirigiam-se e ascendiam aos céus. Na mitologia grega, a lira de Apolo foi inventada e dada por Hermes para obter seu perdão. Esse ladrão dos bois de Apolo, confeccionou-a com pele e nervos de boi, num casco de tartaruga, sacrificando animais. Também na tradição judaica, o boi é um dos animais oferecidos em sacrifício (Ex 29,10-11; 1Sm 1,24-25; 2Sm 6,13; 1Rs 18,23; Ez 43,19; Dn 3,40).

Se na visão religiosa, o boi – com sua força tranqüila – é visto como sacrifício, ele também simboliza o sacrificador. Quando o boi abre a terra, a adamá cósmica, e a prepara para a boa semente, assimila-se à figura do sacerdote. Ele sulca mansamente a terra intelectual para que ela receba a fecundidade das sementes e das chuvas celestes. Enfim, sua paciente ruminação exprime o trabalho interior, cultivar a terra interior, a lenta assimilação dos conteúdos inconscientes pelo consciente, o obscuro germinar da vida, a gestação cósmica, a partir da morte da semente, sepultada em boa terra. Integrar em nossa animalidade, o boi que existe em nós, é gestar em nós a unidade do sacrifício e do sacrificador.

Os chifres do boi representam sua força invencível e conservadora. Corno e coroa são, etimologicamente e em profundidade, a mesma palavra, em hebraico qeren cuja raiz evoca também raios de luz, esplendor e glória. Os dois chifres evocam a energia descendente e ascendente. Na estátua de Moisés, de Michelângelo, os dois raios de luz sobre a cabeça são apresentados como dois chifres sólidos. Os chifres do boi estão dirigidos para o céu como antenas que buscam a fonte de informação. O céu exterior simboliza e aponta para o nosso céu interior. No humano, os cabelos correspondem aos chifres do boi e simbolizam nossa coroa (keter) e nossa força. A informação é fonte de força. No sentido da mística judaica e cristã, a força é energia formadora, a partir do interior, daquele que a conquista. Aquele que é in-formado, tem a força. Ele aprende, compreende e surpreende. Pode instruir e ensinar. Nada de ensinamentos intelectuais mas experiência vivida, interiorizada e prazerosa. Ele afasta-se do homem banal, daqueles cuja energia vem de motivações exteriores ou de uma vontade que é tensão e fonte de esgotamento.

Quem busca sua formação no exterior, de fora para dentro, vive de ilusão, sofre e gasta sua energia no vazio. No Ocidente, o alfa grego e o A latino, invertidos, buscam sua in-formação no mundo. Essas letras perderam seu poder. Estão castradas e esvaziadas de sentido. Na Bíblia, a imagem do boi nos convida a conversão (teshuvá) e não a inversão, da vida e valores. Esse é o caminho para conhecer, re-conhecer e salvar o boi que está em nós. Para a mística judaica, o alfabeto é como uma escada que sobe aos céus. Seu primeiro degrau é a letra A, o alef. O A é uma fonte divina que fecunda todas letras, todos sons. O A é graça e verdade, como no A-mén. A palavra hebraica verdade emet, sem o alef inicial transforma-se em morte, met. O alef corresponde ao dia primeiro, ao dia Um da Criação. O alef é a base e a luz de todos os cálculos e atos de Deus no mundo, sinal da sua unidade. No princípio era o . No princípio estava o boi.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. No princípio era o Boi. A Tribuna, Campinas – SP, v. 92, p. 10 – 11, 2002.

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