NO JARDIM DAS OLIVEIRAS


(1/9/2010)

Evaristo Eduardo de Miranda

As profecias de Isaías e Miquéias, em contradição com a maior parte do Primeiro Testamento, previam um tempo de fraternidade universal. Nesse tempo desejado por Deus, o ferro das espadas serviria unicamente para cultivar a terra. Jesus concretizou essas profecias. No jardim das Oliveiras, o símbolo dessa concretização foi o desarmamento de Pedro por Jesus.

Jesus não fundou a Igreja. Ele é a sua origem. Foram os apóstolos, unidos a Pedro, quem fundaram as igrejas em sucessivas etapas de sua missão. As igrejas estabeleceram-se em forte comunhão e mantiveram uma ligação freqüente. As epístolas do Segundo Testamento, as cartas dos primeiros bispos e as visitas apostólicas testemunham a união entre as igrejas e com o bispo de Roma. Elas tornaram-se juntas, na diversidade, o sinal e a presença de Jesus Cristo.

Cabe a nós atualizar no presente o que recebemos do passado, mantendo viva a Tradição, a transmissão. Pela vida espiritual e sacramental, os discípulos são convidados a retirar-se dos holofotes e encontrar Jesus no jardim das Oliveiras.

Logo no seu nascimento, Jesus desapareceu diante da possibilidade de um Herodes desejoso de encontrá-lo (Mt 2,13-15). Ele também desapareceu fisicamente diante de quem queria lapidá-lo no alto de uma falésia (Lc 4,29-30). Jesus desapareceu da presença dos que desejavam fazê-lo um rei. E mesmo, muitas vezes, Ele desapareceu defronte dos discípulos. Eles o buscam e o encontram, solitário, longe de todos, retirado em oração na montanha (Mc 6,46), ensopado de suor no lugar do lagar de azeite, no Getsemâni, em hebraico Gat Shemenim, no Jardim das Oliveiras (Lc 22,40).

O lagar é o local em que as azeitonas são esmagadas para produzir o azeite (em hebraico, shemem). O azeite é o óleo da unção e dos sacrifícios, uma espécie de luz interior das azeitonas, líquida e cheia de energia, como Jesus estava repleto da presença do Deus. Aquele cujo nome (shem), cujo santo nome (HaShem), em hebraico, está oculto na palavra azeite (shemem), no lagar dos azeites (shemenim), no Getsemâni, no jardim das Oliveiras.

O essencial não se ensina. Na vida espiritual, o essencial se revela no íntimo de cada um, como uma Anunciação que murmura a esperança, nas palavras de Marcel Légaut. Como uma unção sagrada e régia.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. No Jardim das Oliveiras. A Tribuna, Campinas – SP, v. 3874, p. 15 – 15, 2010.

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