NO CAMINHO, UMA PEDRA


(22/11/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

Os enigmas nesta vida chegam de repente: um acidente, a perda inesperada de um ser querido, uma deficiência física ou mental, uma separação inimaginável, uma violência aleatória, uma grave enfermidade… Eles são uma via inquietante para irmos a nós mesmos, sem sermos devorados por ilusões de poder ou saber.

Diante do enigma são várias as atitudes. A mais comum é a perplexidade. Face a desgraça, esse comportamento está ligado, em geral, à idéia inconsciente de julgamentos ou merecimentos. Porque essa pedra no caminho? Porque eu? Porque comigo? O que eu fiz? Quem é o culpado? De onde vem essa desgraça? Bate-se de frente com essa pedra, com esse muro impenetrável, ao querer-se ver através. Essa via, das justificativas e explicações, é plena de esterilidade. A interrogação sobre a origem do mal ou da desgraça não leva a nada. Vem de pressupostos equivocados. Seríamos culpados do quê? De haver amado?

No evangelho de João, os discípulos perguntam a Jesus sobre o porquê de um homem nascer cego. Quem pecou para que ele fosse um cego de nascença? Ele? Seus pais? Jesus responde. Nem ele, nem sua família. O problema não é o porque do mal, mas o que vocês fazem com ele! Cristo constata o fato, a realidade, e coloca claramente a questão: o que fazer do enigma colocado pela vida? Ele serve para que? “Para que as obras de Deus se manifestem (Jo 9, 3)”.

Para muitos, os enigmas vêm como pedra de tropeço. Para outros, eles são um marco a ser contornado, uma referência no caminho, uma inflexão na trajetória. Na Roma antiga, as corridas de carros de combate se faziam num estádio oval. No meio da pista – uma elipse bem alongada – havia um canteiro central, a spina. O étimo spina está na origem das palavras espinho e espinha dorsal. Ele identifica tudo o que pica e, sobretudo, evoca o desafio do caminho espinhoso. Em cada extremidade da spina, divisor da arena romana, havia uma pedra de cabeceira. Se na curva o corredor se afastasse demasiadamente da pedra, para evitar um choque, arriscava perder a rota e o impulso. Se se aproximasse demasiado, corria o risco de chocar-se. Como hoje, nas curvas fechadas das corridas de automóvel, os enigmas são difíceis de contornar.

Um dos desafios dos enigmas é o de passar perto, reconhecê-los e não se chocar. Alguns se afastam e fogem para bares, bebidas, sexo, religião… Buscam uma “nova” vida. Evitam a realidade e trilham o caminho da perdição completa de sua identidade. Para outros, o enigma vem como pedra de tropeço, obstáculo, chamado ao imobilismo, ao choque ou à destruição. Soçobram na melancolia. Ou, buscam ilusoriamente alguma forma de remover essa pedra ou fazê-la desaparecer. No caminho havia uma pedra: marco de referência, baliza ou razão de choque, tropeço e descaminho?

Em muitas parábolas, os evangelhos ensinam: a prova que nos foi dada deve ser transformada numa jóia, única e de infinito valor. Isso é possível pelo trabalho do Sopro, do Espírito, mas não é fácil. A ajuda externa é quase inútil. Ninguém pode se colocar no lugar do outro e nem na plenitude de sua dor. Os enigmas ensinam a existência de passagens irredutíveis e intransferíveis na vida, chamados diferenciadores, únicos como o nosso próprio ser.

Os enigmas desafiam nosso sentimento de onipotência. Esse ilusório sentimento de poder, de poder muito – graças as nossas capacidades materiais e intelectuais – é fortemente questionado pelos enigmas irreversíveis. Eles chegam como uma oportunidade de um novo caminho, sempre próprio e apropriado, para irmos à descoberta de nós mesmos. Eles surgem como uma via de superação da ilusão da onipotência e também da onisciência. Eu não sei, não entendo e nem posso saber ou entender tudo! Aceito o mistério e vou dar-lhe um lugar em minha vida. Enigmas são incompreensíveis e como é difícil aceitar nossa própria miséria, nossa imperfeição e nossa deficiência!

Diante da necessidade de alquimizar e metabolizar o enigma recebido, o primeiro passo é toca-lo, segura-lo, pesa-lo, identifica-lo e coloca-lo bem diante de nós para podermos um dia, enfim, nomea-lo. Essa é a atitude possível: aceitar e doar. O dom de si começa nesse duro trabalho de preensão (e aceitação!) do enigma. E Continua na aceitação de carregar coisas sem nenhuma beleza ou poesia, eventos de um prosaísmo afligente. Para ultrapassar a ilusão da onipotência, da onisciência e da posse é preciso aceitar e doar, no mais completo abandono. Quem está diante de um enigma não deseja consolo. Em muitos casos, isso seria uma verdadeira traição para com a pessoa perdida ou a situação anteriormente vivida. Ao mesmo tempo, durante um longo momento, não sabemos como prosseguir. É normal. Descobrimos que não somos Deus. Mas Ele assegura a existência de um caminho.

Existe um caminho e não podemos errar. Existe um caminho e não desejamos errar. Senão, seria morte. O caminho é espinhoso, mas existe. Ele é próprio a cada caso, a cada enigma. Uma via para transformar em graça, a desgraça. A nós de encontrá-la. E mais tarde, quando tudo parecer enfim superado, quando transformados ressurgimos das cinzas, ao contemplarmos desglorificados o enigma recebido um dia, descobriremos que ele ainda está lá, inteiro, intacto. Esses são… os verdadeiros enigmas. Por definição.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. No caminho uma pedra. Jornal Univesidade, Campinas – SP, v. 149, p. 8 – 9, 2012.

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