NAS ESTRELAS, DESEJO E DESTINO


(24/12/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

Em que casos a realização do desejo é também a do destino? O mais comum é o destino atrapalhar e obstruir o desejo. Apesar de seus desejos, muitas pessoas parecem destinadas a outra sorte, a outra realidade. A vida inverte o sentido do caminho, muda prioridades, altera projetos e sacrifica desejos. As vezes é sutil, em outras atinge duramente os seres vivos, com a aleatoriedade dos acidentes, enfermidades e calamidades. Muitos se resignam dizendo: não era o nosso desejo, mas foi o nosso destino.

Em outros casos, o mesmo destino pode surgir como realização plena dos desejos e projetos, contra tudo e contra todos. Negação do real, do normal, do natural, muitas trajetórias pessoais se fazem de surpresa em surpresa e terminam onde ninguém – nem a pessoa – esperava. Era o destino. A palavra destino vem do latim destinare, e significa fixar, ligar.

As mulheres e os homens destinados, ou predestinados, parecem estar fixados e ligados a seus lugares simbólicos como as estrelas numa constelação: constelação familiar, profissional, política… Por isso, desde os primódios, os homens vêm seu destino como inscrito nos astros, nas estrelas. E em certa medida está mesmo, mas é possível escapar.

O homem escapa de seu destino quando se torna humano, carente e desejoso. O homem é vítima do seu destino quando se crê potente, herdeiro de si mesmo e senhor do seu arbítrio. A insensibilidade do espírito é uma noite sem estrelas, um caminhar desorientado. A palavra latina sidus significa estrela, ou mais exatamente a estrela numa constelação. Daí vem muitas palavras ligadas à paixão, como desastre e sideral. Daí vem também a alquimia dos metais: a siderurgia, poder de transmutação conquistado pelo homem ao roubar o fogo dos deuses.

E qual a relação de estrela e desejo? Especificamente, o verbo desejar desiderare significa cessar de ver (sua estrela, seu astro), constatar ou lamentar a ausência de. Daí o termo buscar, desejar. O desejoso busca a luz perdida de sua estrela. Desir astre. Pode ser um desastre. Pode ser uma iluminação. O desastre sideral é a busca ilusória de necessidades artificiais, criadas exteriormente e interiormente. Pelas quais nos sacrificamos e das quais nos tornamos escravos. É a incorporação dos projetos alheiros, dos desejos paternos, das ideologias impostas, do império da moda e da aparência.

Para outros não se trata de preencher um vazio ou negociar e conquistar pela poder da vontade o paraíso terrestre e um corpo glorioso nesta terra. Não. Ao lamentar essa ausência, o humano se sente carente e sai em busca do astro perdido, O que não se deixa ver. Nessa perspectiva, o humano deixa de ser siderado, destinado e vítima do destino, para tornar-se desejoso. Aos que não lamentam seu passado, nem se angustiam com seu futuro, a ilusão das previsões astrológicas são desnecessárias. Para eles as estrelas se deixam ver. A luz de seu caminhar vai brilhar no interior de seu coração.

Nômades e inquietos, sedentos de Absoluto e de luz interior, eles mudam de nome, de lugar, de família, na busca de si mesmo. Abandonam envelopes aconchegantes e envolvimentos paralisantes. Desenvolvem-se. O humano, o homem em busca de sua verdadeira humanidade – pela fé – muda o seu destino. “Nós vimos o seu astro ao surgir”, diziam os magos, os sábios vindos do Oriente (Mt 2,2). Foi razão suficiente para colocarem-se em movimento. Um movimento de sabedoria, de quem busca estar presente. Em si mesmo e na vida dos outros. Estar presente é estar acordado, alerta, consciente.

O movimento e a viagem do ser desejoso não são de fuga ou de ausência, mas de busca de estar presente. O ser desejoso – ao afiar a lâmina do desejo na mó do amor – escapa das ilusões, corta os desejos compulsivos e se diferencia. Quem ama é iluminado pela Graça. Sua liberdade está bem acima do livre arbítrio. Quem ama sua viagem, vê brilhar a luz de sua estrela e entende a voz oracular do Cosmos no universo do seu coração. Sai do domínio dos impulsos e das pulsões para penetrar no reino da palavra. Muda de nome, de língua, de constelação e destino para ir ao encontro de si mesmo. Desejo e destino se unem, paradoxalmente, como o arbítrio e a Graça na vida dos cristãos.

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