NÃO FAZER NADA


(12/9/1993)

Evaristo Eduardo de Miranda

Neste verão estive relendo a vida de Santa Teresinha do Menino Jesus. Era uma dessas velhas dívidas minhas, comigo mesmo. Elas são sempre as mais difíceis de pagar. Após a passagem do ano, fui passar uma temporada na praia, convidado por um amigo. Ali encontrei alguns conhecidos, em geral “ricos e modernos”. Eles também liam seus best-sellers de verão, beira mar. Meu livro causou uma visível estranheza. Até uma certa perturbação. Sem dizer nada, eles olhavam – com curiosidade – para a capa onde figurava aquela santinha com seu sorriso malandro e bochechas cor de rosa.

Um dia, um dos convidados – empresário de sucesso no ramo veterinário – me abordou. Primeiro, ele me perguntou se eu estava lendo a vida “dessa santa”. Era óbvio. Respondi que sim. Aí, ele me perguntou o que ela fez na vida, neste mundo. Respondi com muita firmeza: nada! Ele ficou intrigado e não aceitou minha resposta.

-Mas como? Para ser considerada uma santa ela deve ter feito milagres em sua vida ou coisas extraordinárias. Ainda mais ela, que é conhecida.

– Nada, respondi mais uma vez. Nada além de ajudar na cozinha, na lavanderia etc. Então ele perguntou:

-E é Santa?

Eu lhe disse que sim, uma das mais veneradas no Brasil, com direito até a música infantil: Teresinha de Jesus, numa queda foi ao chão… Ele ficou em silêncio. Ficamos longamente em silêncio, lado a lado, contemplando o mar e ouvindo seu rugido. Depois de um certo tempo, ele me disse:

– Sabe, neste final de ano eu andei revisando minha vida e tudo o que tenho feito nesses anos todos.

Eu pensei, eu achei, que ele ia me falar de suas realizações, de seus casamentos e filhos, sucessos, expectativas e projetos. Mas não. Após um pequeno silêncio, como que suspirando, ele completou em tom de tristeza:

– Cheguei a conclusão de que até hoje, eu não fiz nada, nada em minha vida.

– Você é uma alma gêmea desta santinha.

Ele se espantou um pouco com meu comentário. Apresentei-lhe Santa Teresinha. Recordamos que como na canção infantil, quantas vezes de uma queda não vamos ao chão. As quedas são muitas e o vaso se quebra em pedaços. Muitas pessoas conseguem pela dedicação, pela auto-análise e até pela via da psicanálise recuperar e colar cada pedacinho de seu vaso. Esse caminho é fantástico. Mas a via da Graça de Deus é outra. Um vaso restaurado – olhado de perto – mantém as cicatrizes e as marcas das rupturas. A consciência inclusive avisa da fragilidade de certas emendas que não devem ser submetidas a tensões ou tentações, sob o risco de se romperem de novo. Pela Graça, Deus não somente nos limpa, nos perdoa, nos acolhe mas nos recria. Nos transforma num vaso novo. A força recriadora da Graça nos transforma em novas criaturas. Superando presentes e passados, por mais distantes e esgarçantes que tenham sido. A Graça de Deus não concerta, nem restaura, recria. E o que é mais extraordinário: o faz respeitando nossa natureza. Prepara para o hoje e o amanhã. Esse poder sobrenatural, ao longo da história, permitiu a tantos indivíduos superarem completamente, neles mesmos, o que parecia absolutamente impossível.

Para obter essa energia, para aceder a esse Mistério, é necessário o silêncio. O jejum das palavras. Bem mais difícil que o das calorias. Quase que por oposição ao caminho psicanalítico. Quantas vezes o silêncio, a meditação e a oração nos mostram que não fizemos nada, quando achávamos que fazíamos tanto.

Recomeçar uma vida parece difícil. Mas a Trindade nos acode. Demos nossa mão ao Espírito Santo. O Espírito de Deus nos inunda. As decisões serão mais lúcidas, mais definitivas, mais felizes e cheias de Graça. A Graça de Deus descomplica nossa vida. Ela não exige nada. Talvez o mais fundamental nesta vida seja a mesma descoberta evocada por Santa Teresinha: “Senti que a única coisa necessária era unir-me sempre mais intimamente a Jesus, “o resto me seria dado por acréscimo”. Com efeito, minha esperança nunca se iludiu.” (MA C 22).

– Entende amigo?

Ele balançava a cabeça. O sol nos inundava de luz. O mar mantinha seu rumor de alerta. Um perfume de rosas passeava sutilmente por nossas almas.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Não fazer nada. Mensageiro, São Paulo – SP, p. 38, 1997.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *