NA TERRA, UM DESASTRE AÉREO


(19/8/2007)

Evaristo Eduardo de Miranda

Não foi um avião e sim uma montanha que se abateu sobre amigos e familiares das vítimas do acidente aéreo de Congonhas, em S. Paulo, no último dia 17 de julho. Diante dessa morte e de outras mortes trágicas, a Igreja não pretende consolar ninguém. Quem pode ficar consolado da morte de um filho, de uma mãe ou de um amigo? A Igreja busca ajudar seus filhos a penetrar e viver essa dor com esperança e no amor, para que não se transforme em infelicidade. A morte é razão de tristeza, mas não pode levar a infelicidade permanente.

Por sua presença, através de suas orações, visitas e em seus ritos de passagem à eternidade, a Igreja participa efetivamente da tristeza de seus filhos. Ela sofre e partilha a dor de familiares e amigos. A Igreja sabe quão fundamental para as famílias é recuperar e identificar os restos mortais. Esses corpos foram templos do Espírito Santo, do sopro de vida. Recuperá-los para plantá-los como sementes, regando-os com lágrimas, certo de sua floração e ressurreição na casa do Pai. Em todas estas semanas, após o trágico acidente, tem-se visto a sacralidade dos sepultamentos e das flores, em face da derrisão do crematório.

Todas as celebrações religiosas católicas não são uma encenação teatral. Elas são necessárias em cada casa, em cada caso, em cada sepultamento e após. Existe uma sábia pedagogia nos ritos de passagem de corpo presente e de corpo ausente. A experiência da morte foi compartilhada pelas vítimas em segundos. Mas todos compartilharão dessa experiência. Um dia.

Para pais, não há dor maior do que a perda dos filhos. Outros ficaram órfãos, viúvas ou viúvos de forma inesperada. Mas não há palavra na língua portuguesa para qualificar um pai ou uma mãe que perdeu um filho. Realizar essas perdas é e será tarefa difícil. E quantos amigos não ficaram solitários? Esses passageiros morreram fora de lugar, fora de hora e injustamente. Sentimos o que sentiram os discípulos, amigos e Maria ao descer o corpo de Jesus da cruz. Uma morte aparentemente absurda.

Para os cristãos, o luto, como caminho de aceitação do caráter definitivo da perda, é iluminado pela Páscoa de Cristo, pela esperança da ressurreição e do encontro futuro na casa do Pai. A palavra latina sidus significa estrela ou, mais exatamente, a estrela numa constelação. Daí vem muitas palavras ligadas à paixão, como desastre e sideral. Daí vem também a alquimia dos metais: a siderurgia, poder de transmutação conquistado pelo homem ao roubar o fogo dos deuses. A palavra desastre etimologicamente evoca a perda do astro, da estrela, da constelação. Foram muitas perdas e muitas estrelas apagadas no coração de tanto gente. Elas brilham agora no firmamento da lembrança.

Cada católico, amigo ou conhecido dos familiares e amigos, pode e deve ser presença solidária e o rosto da Igreja junto dos que sofrem. Quem sofre necessita o apoio de sua comunidade e a solidariedade da Igreja para que o amor continue a animar suas vidas. Essa é, particularmente, a missão cotidiana dos sacerdotes e dos ministros das exéquias. No entardecer de nossas vidas seremos julgados no amor, dizia o místico e doutor da Igreja, São João da Cruz.

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