NA HORA DA PROVAÇÃO


(9/7/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

Ó Senhor tu nos provastes,

depuraste-nos como se depura a prata (Sl 66,10)

Certa ocasião, o cardeal Newman meditava, com espanto, sobre os textos bíblicos em que as provações são apresentadas como a purificação da prata pelo fogo, numa fundição. Quantos já tiveram a ocasião de estar numa fundição e de ver o real trabalho do fundidor, acrisolando os metais? Para compreender esse processo, o cardeal Newman decidiu ir até uma fundição de prata e ver um fundidor no seu trabalho. Diante dessa obra de purificação pelo fogo, o cardeal perguntou ao profissional: “Quando você sabe que a prata está pronta, pura, purificada das escórias grosseiras?” O profissional respondeu: “Eu sei que a prata está madura quando, me debruçando sobre ela, posso ver refletidos os traços de meu próprio rosto.”

Quando somos “provados pelo fogo” é bom de lembrar que o Pai está debruçando seu rosto sobre nós, a fim que nos tornemos capazes de refletir os seus traços, como filhos. A provação é uma experiência pessoal, irredutível e intransferível. é Também uma oportunidade terapêutica. Ela pode nos ensinar como sair de todas essas falsas identificações as quais nos agarramos, mas que nos impedem de tocar e atingir nossa realidade, nua, sem ilusões… Como dizem os místicos: quem experimenta, sabe! “Que ninguém quando for tentado, diga: “Minha tentação vem de Deus”. Pois Deus não pode ser tentado a fazer o mal e a ninguém tenta” (Tg 1,13). Na hora da dor Deus debruça-se sutilmente sobre nós. Quem levanta os olhos interiores pode ver sua presença.

A vontade de Deus, o seu desejo prazeroso, é que sejamos felizes, em paz de espírito e coração. Deus não quer, nem deseja, que soframos os golpes aleatórios ou não desta vida. Mas Ele permite que eles aconteçam, porque se agisse de outro modo bloquearia nossa natureza e condição humana. Os acidentes acontecem, mas Deus não está fazendo isso contra nós ou por nós. Como sinaliza Joyce Rupp, “somos seres humanos plenos e finitos, vivendo sobre uma terra onde ocorrem desastres naturais, onde existem predisposições genéticas, onde às vezes fazemos escolhas erradas ou pecaminosas, onde a vida nem sempre é como planejamos ou esperávamos que fosse. Somos abençoados e onerados por nossa condição humana, com o mistério de nos desenvolver até nossa totalidade de pessoa, que envolve perdas contínuas. Somos frágeis e inacabados, sempre sujeitos à possibilidade do sofrimento. Vivemos num mundo em que sabemos não ser possível escapar à mortalidade, a nosso último adeus antes do alô eterno”.

Quem enfrenta as provas, todas as provações libertadoras, se levanta solitário e simplificado, duas palavras que traduzem uma única, difícil de traduzir: monachos. O monge, o monachos, não é somente o celibatário, o solitário. É aquele que tende ao UNO (g. mónos), à unificação de todas suas faculdades: corpo – coração – espírito, a fim de tornar-se um filho monógeno, unigênito, de um só gene, de um só projeto, de um só jacto ou impulso dirigido ao Pai, como o Verbo no prólogo do evangelho de João (logos pros ton Théon). “Elimina as escórias da prata e já sai um vaso para o ourives” (Pv 25,4). Que todos sejam um, como eu e o Pai somos um (Jo 17,11).

Na hora da provação verdadeira experimenta-se a solidão, não como recusa do amor ou da amizade, mas como busca de um estado de superação do ego e de encontro íntimo. Muitos sabem que a partir de uma certa profundidade de verdade estamos sempre solitários, face a nós mesmos. É nessa situação que sente-se, como nunca, a unidade com Deus e a sua presença. Mas ser só não basta, é necessário ser simples. Etimologicamente, simples significa: sem prega, sem dobra, sem estar voltado sobre si mesmo. O simples não é duplo, múltiplo ou desdobrado em partes, é uno. Quem é simples reencontra a identidade verdadeira. A adesão ao Cristo, essa nova sarça ardente, esse fogo consumidor, essa fornalha onde podemos lançar todas nossas faltas e pecados, acaba com nossas pregas, duplicidades e dobras mais secretas. “É um fogo que eu vim trazer à terra, e como quisera que já estivesse aceso!” (Lc 12,49) A fim de que nossa identidade profunda possa emergir purificada de suas representações ilusórias. Esse fogo está em cada um de nós, as vezes sob as cinzas de nossas mediocridades. Essas brasas esperam que o sopro divino, o ruah, acenda as chamas da iluminação para que sejamos incendiados por sua Presença.

Somos peregrinos. Estamos de passagem. A páscoa, a passagem – pessah em hebraico – é um tema central do Cristianismo. Descobrir-se peregrino é um sinal de saúde psicológica. Tudo passa. O sofrimento intolerável e o prazer mais fascinante. Tentar impedir o fluxo e o refluxo da vida de passar é causa de grandes sofrimentos. Muitos autores muçulmanos, entre os quais Al-Ghazali (1059-1111), atribuem a Jesus a seguinte frase: “O mundo é uma ponte. Passe por cima, sem estabelecer tua morada”.

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