NA COMUNHÃO DOS SANTOS


(22/9/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

No dia de Finados, nas casas, igrejas e cemitérios relembramos nossos irmãos falecidos, santificados na morte e pela morte. Nossa santificação começa nesta vida, mas não termina aqui, nem com a nossa morte. Pela morte, os irmãos falecidos comparecem diante de Deus. Iluminados por Deus revisam suas vidas, fazem um juízo de sua existência, completam o que faltou para sua santificação. Diante de Deus, eles entendem o que não entendiam, aceitam o que não aceitavam, podem acreditar no que não acreditavam. Podem dizer sim para Deus onde sempre disseram não. Perdoam o que não perdoavam neste mundo e são perdoados por Deus.

Se pai e mãe sempre estão dispostos a perdoar seus filhos e acolhê-los no seio da família, o que dizer de Deus? Ele ama infinitamente. Nascemos para poder morrer, diz São Gregório de Nissa. Para completar nosso nascimento e crescimento como filhos de Deus. A morte nos leva a penetrar no coração do mistério pascal cristão.

Os falecidos, relembrados no dia de Finados, passaram por uma purificação prévia e necessária ao encontro com Deus. A morte é como a travessia do Mar Vermelho (Lc 9,31), uma passagem para a casa do Pai, onde não faltam moradas (Jo 14,12), pois Jesus provou a morte para benefício de todos nós (Hb 2,9). Na Eternidade não existe tempo, nem espaço. A Eternidade não é um lugar, mas uma nova maneira de ser, em plenitude. Na Eternidade entramos em outras dimensões, difíceis de imaginar neste mundo. Lá não há passado ou futuro. Deus é. Nossos falecidos, não apenas estão, eles também são com Deus. Um dia, nós também seremos e estaremos com Ele e com todos que amamos e nos amaram. Os netos com os avós, os pais com os filhos, as gerações passadas e as presentes. Cada um de nós e a humanidade inteira, por Cristo, se encontrarão em Deus.

Na casa do Pai não existe choro, dor ou sofrimento. Ali, acabam-se as realidades e dimensões deste mundo. Não existem desigualdades, ameaças, violências ou injustiças. A páscoa, a passagem pela morte é uma mudança de situação. Podemos deixar para sempre o engano, o tropeço, a impiedade, o ódio, o orgulho e tantas coisas que nos separam de Deus, de nossa condição de filhos de Deus e de nossos irmãos. Além das coisas ruins deste mundo, nos céus acaba também a fé, a esperança, os dons da pregação, da palavra, do profetismo… O que não acaba é a caridade, o amor. Estamos no mundo para começar a viver nos céus, fazendo um trabalho de luz e iluminando os irmãos.

A morte é a nossa Páscoa. A experiência da morte é um caminho de iluminação e crescimento diante de Deus. Pela morte, nós participamos do mistério pascal de Cristo. O cristão ao morrer pode dizer: cumpre na minha carne o que falta na morte do Cristo (Col 1,24) ou ainda, não sou em quem morro, mas Cristo quem morre em mim (Ga 2,20). A passagem da morte exige decisão e conversão. Ninguém se salva sozinho. A conversão e a salvação não é obra individual. Não é a pessoa quem se salva, por sua força de vontade. Foi Cristo quem nos salvou. Somos salvos pela graça de Deus, auxiliados pelo corpo místico de Cristo, a Igreja. Por isso, na comunhão dos santos, oramos uns pelos outros. Os católicos não rezam para os mortos, mas pelos mortos. Pela conversão plena de todos os vivos e falecidos.

Avós, pais, irmãos, esposo, esposa ou amigos falecidos continuam nos iluminando. São luzes que não se apagam. Seus exemplos, obras e testemunhos de vida são luzes para nosso caminho neste mundo de trevas. O dia de Finados é um dia de Iluminação, junto da festa de Todos os Santos. Não estamos em comunicação com os mortos, mas em comunhão com os santos. Rezamos com eles. Eles rezam conosco. Nenhum católico adora santo. Só adoramos Deus que está nos céus. Os santos, nós veneramos. Lembramos-nos de suas vidas, de seus exemplos e buscamos imitar sua fé. Oramos com eles, confiando que um dia oraremos como eles, na plenitude da Vida, no seio amoroso de Deus. Estamos cumprindo o que está recomendado na carta aos Hebreus: Lembrai-vos dos vossos santos, dos vossos guias… Que vos ensinaram a Palavra de Deus. Considerai como viveram. Considerai como morreram e imitai-lhes a fé (Hb 13,7). Ao acender uma vela, ao depositar flores nas sepulturas, ao participar das orações vamos nos comprometer a viver sempre como irmãos, em comunhão, perdoando e construindo a paz, agora e até a hora de nossa morte. Amém.

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