MULHERES SAGRADAS


(20/11/2010)

Evaristo Eduardo de Miranda

Jesus lhes disse:

“Em verdade, eu vos declaro, (…)

As prostitutas vos precedem no Reino de Deus.”

Mateus 21,31

O evangelho de Mateus começa seu primeiro capítulo apresentando uma genealogia de Jesus. Mateus o faz descender de Abraão, através de 42 gerações (3 x 14). Assim começa o mais semítico dos evangelhos: “Livro das origens de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão. Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacó, Jacó gerou Judá e seus irmãos…” (Mt 1,1-2). Essa genealogia é artificial, sem pretensão histórica, no sentido moderno do termo. Ela é divergente da genealogia de Jesus apresentada pelo evangelho de Lucas (Lc 3,23). Nem no nome do pai do pai de Jesus, elas concordam. Para Lucas (3,23), o pai de José era Eli e não Jacó (Mt 1,16).

Estranha essa genealogia de Mateus. Ele optou por não citar três reis de Israel entre Jorão e Osias. Gente importante! Ele não menciona Sarah, a mulher de Abraão, nem o nome das outras mulheres, sem as quais todos esses homens não teriam gerado nada. Mateus menciona apenas quatro mulheres, quatro prostitutas: Tamar, Raab, Rute e Betzabé. Três delas eram estrangeiras, não judias. Contrariando a lei, a teologia da pureza da raça, a proibição sacerdotal contra os casamentos mistos, passíveis de punição com a morte (Nm 25,1-17). Raab era prostituta profissional. As outras três, prostituíram-se.

O verbo prostituir é um verbo erótico, cheio de posições e inflexões: transitivo direto, copulativo, bitransitivo e pronomial, com vários sentidos figurados, derivações e usos gramaticais. Designa a atitude entregar-se à cópula sexual em troco de dinheiro ou qualquer tipo de vantagem material, pessoal ou social. Sua composição etimológica é a palavra prostitui. Esse antepositivo, do verbo latino prostituo, significa colocar diante, expor, apresentar à vista; pôr à venda. A prostituição é o campo social do prostituir.

Tamar, caananita, prostituta por necessidade, quase morreu queimada como uma bruxa e, contra o fracasso sexual e afetivo dos homens – em particular de Judá -, lutou com sua coragem, determinação e orgulho (Gn 38,1-26). Sua história é a de tantas mulheres, que arriscam a vida diante do universo opressivo dos homens. A Bíblia diz que ela vestiu-se como uma prostituta, uma qedeshá. Esse termo hebraico significa “mulher sagrada”.

A prática da prostituição no antigo Oriente Médio não enfrentava censura moral e era extremamente comum. Na cultura mesopotâmica e cananeia, a prostituição também era ritual. Os templos da deusa da fertilidade (Astarte, Istar) possuíam anexos onde homens eram servidos por mulheres consagradas, representantes da deusa, do princípio feminino da fertilidade. O intercurso com essas mulheres sagradas era comunhão com o divino, com o princípio da fertilidade, especialmente na festa do Ano Novo.

Raab, prostituta profissional, tirará um espião de Josué do anonimato, ao gerar com ele uma linhagem caananita dentro de Israel. Esse Salmon merece o crédito de ter sido, ao desposar a prostituta de Jericó, o primeiro hebreu a ultrapassar a ordem de Moisés, dada no Deuteronômio – a de extirpar toda população caananita (Dt 7,1-11). O episódio mítico das muralhas de Jericó e da prostituta Raab (Js 2,1-24; 6; 17, 23-24) explica porque tolerava-se uma linhagem cananita, em pleno território israelita (Js 6,15).

Rute, a moabita, como tantas mulheres no desespero total, entrega-se inteiramente ao seu “salvador”. Deita-se sorrateiramente durante a noite, com aquele que para elas, é um esposo e deus, um pai e um marido, um irmão e uma herança. Se existe alguma falha nesse dom de amor, não está certamente na forma de oferecer-se, mas no fato de ter-se que humilhar-se sem saber se o outro responderá sim por piedade ou por um amor verdadeiro (Rt 3).

Betsabé, adúltera consciente ou inconsciente, nua, banhando-se no final da tarde, será vista pelo rei e inflamará o seu desejo sexual. Assim diz o relato bíblico, talvez para proteger a mãe do sucessor do trono, apresentando-a como uma vítima do desejo real. O fato é que Davi, numa história onde a hybris está totalmente desencadeada, deitará com essa mulher menstruada – mesmo sob sua advertência que estava nos seus dias de purificação, pecado ainda maior – e terminará por ordenar o assassinato de seu fidelíssimo marido! E dessa relação adulterina nascerá Salomão (2Sm 11,1-27).

É dessa vara, dessa “bela” linhagem feminina, de “mulheres sagradas” que nascerá o filho de José e Maria, o Cristo, o resgatador da humanidade. Essa genealogia lembra que na história da salvação “bons e maus” não são tão diferentes, como gostam de afirmar os moralistas estéreis. Nenhuma pessoa é totalmente boa ou má. Todos nós somos realizados e irrealizados, completos e incompletos, em nossa obra interior. As prostitutas na linhagem de Jesus mostram: na história da salvação há um lugar para aqueles que a lei e o fanatismo religioso tentam excluir, por decreto. A história santa não anda por caminhos tão santos. Os filhos de Tamar, Raab, Rute, Betsabé são os frutos maduros da fértil história da salvação e de seus destinos de mulher.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Mulheres Sagradas. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 4, p. 1, 2003.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Mulheres Sagradas. A Tribuna, Campinas – SP, v. 93, p. 10 – 11, 2002.

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