MUDAR A MORTE


(4/6/2007)

Evaristo Eduardo de Miranda

Vulnerant omnes, ultima necat.

Toda hora fere, a última mata. Esta frase dos relógios solares de várias igrejas barrocas brasileiras, expressa a dialética entre a vida e a morte. Muitos lutam para mudar a vida, poucos para mudar a morte. Essa é uma das missões dos ministros das exéquias. Eles são o rosto da Igreja junto aos que sofrem, nos cemitérios. Eles são uma presença na dor pela perda de um ente querido. Diariamente nos cemitérios das cidades, eles fazem, com sabedoria espiritual, os funerais cristãos de seus irmãos. Eles buscam humanizar a morte, o morrer e os cemitérios.

A tarefa é urgente. Nunca na história, a sociedade evacuou, escondeu e se escondeu tanto da morte como nos dias de hoje. Em poucas décadas viveu-se uma inversão total entre a forma de realizar o parto e o funeral. Durante séculos, o parto e o nascimento era algo reservado e quase uma prerrogativa de mulheres. Somente algumas participavam. O acesso vedado a muitos, inclusive ao pai. Já os funerais eram cerimônias públicas. Todos eram chamados a participar: crianças, vizinhos, parentes, amigos e conhecidos. Em meio ao luto e à tristeza, o velório era também um local de comensalidade e celebração. Hoje há uma inversão total.

O parto é fotografado e filmado pelo marido e familiares. Com orgulho se mostrará a amigos e até a desconhecidos, desde o filme com as imagens intrauterinas, até o momento da saída do bebe através da vagina da esposa, além de outros detalhes ginecológicos e neonatais tornados públicos. Quanto ao morrer, os funerais são realizados cada vez mais rapidamente. Os mortos são escondidos, quase como uma vergonha ou um incômodo ameaçador. Os enterros não saem mais das casas. Nem dos hospitais. O velório é realizado no próprio cemitério, isso evita acompanhamentos e os constrangimentos associados a visibilidade dos deslocamentos dos cortejos fúnebres. A rapidez também se faz presente: do hospital para o velório do cemitério e deste para o túmulo ou o crematório em poucas horas. Como se o morto fosse uma ameaça contagiosa. Ele é enterrado da forma mais discreta e antisséptica possível. “Na mais estrita intimidade”, como anunciava um comunicado de falecimento. Enquanto o parto valoriza a produção, o ganho, a morte pontifica a perda inevitável. Nossa sociedade não trata somente de esconder a morte e o morto, mas de se esconder dela e deles como de uma realidade inaceitável. Por quê?

Morrer assumiu em nossas sociedades um caráter totalmente acidental. Morreu porque corria muito, porque era obeso, porque sofria do coração ou porque esse tipo de câncer não tem cura. Como se a pessoa fosse magra, calma ou se o câncer tivesse cura ela não morresse. Morre-se sempre de algo e não por estar vivo. A morte, certeza na vida de todos, é apresentada como acidental e não natural. Por quê? Vive-se numa sociedade onde, a um tempo, esconde-se a reflexão sobre a morte individual e banaliza-se morte e morrer em filmes, novelas, ações policiais e páginas dos jornais. Uma sociedade necrófila no comportamento social e necrófoba na reflexão individual. Um fato permanece: a grandeza e o tormento do homem é sua consciência da própria morte.

O trabalho da pastoral das exéquias ajuda os familiares e amigos a cumprirem uma série de gestos e rituais necessários para um luto sadio. Ajuda as pessoas a penetrarem na dor, mas não na infelicidade. Ele revela dimensões desconhecidas do morrer, reconcilia as pessoas entre si e com o defunto, reduz o campo da mágoa e do remorso, amplia o perdão e o amor. O velório e os funerais cristãos propiciam uma preparação para a nossa própria morte. Ela não é um fim, na perspectiva cristã, mas uma finalidade. Jesus ressuscitou e a morte é uma passagem para a casa do Pai. Onde nos encontraremos todos. Os pais com os filhos, os netos com os avós, amigos e irmãos. Reconciliados e transformados. Nascemos para ressuscitar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *