MINISTRAR EXÉQUIAS


(17/5/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

Você já assistiu um funeral cristão? Para os católicos, o rito das exéquias não é fácil de ser realizado nas grandes cidades, onde o contexto familiar torna-se cada vez mais profano, neopagão e até agressivo frente à presença da Igreja. A descristianização do povo é um fato crescente e vai junto com seu desraizamento cultural.

Para a Igreja, a dimensão e a atenção catequética no ritual de exéquias têm sido fortemente destacadas, desde a conclusão de sua revisão sob Paulo VI, um tesouro pouco conhecido dentro da própria Igreja. Ele vai além de uma encomendação de defuntos durante o velório. Ele é um direito do cristão e um dever dos ministros da Igreja e da comunidade para com os irmãos falecidos.

As exéquias cristãs manifestam a veneração pelo corpo como expressão da esperança na ressurreição. Diferente de ritos profanos, o cristão é velado com respeito e oração, centro de cuidados e atenções. Ele é colocado no meio da assembléia, cercado por símbolos e sinais: velas acesas, crucifixo, flores, incenso e a atitude de compaixão dos presentes. O posicionamento e gestos do ministro e fiéis durante a celebração expressam essa veneração auspiciosa. A benção e a incensação do corpo traduzem a dignidade do batizado, a unidade da pessoa, templo do Espírito Santo destinado a ressuscitar.

A transmutação da morte em ressurreição é o prodígio dado e manifestado a todos no batismo e celebrado nas exéquias. A ressurreição do Cristo destrói esse último limite, o da morte. Ele atravessou o mar do Fim. Ao batizar, transformamos a água primordial no vinho da alegria nupcial, como nas bodas de Caná. Ao celebrar as exéquias estamos na plenitude dessas bodas (Is 42,3). Um dia, na plenitude de nossas pessoas, de nossos corpos gloriosos, realizaremos a verdade destas palavras: Nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam (1Cor 2,9).

As exéquias não são puramente oração pela alma, nem somente perspectiva de ressurreição. A alma há de purificar-se para entrar nos céus, de onde as expressões de sufrágio. O corpo aguarda a ressurreição, de onde as expressões de esperança. Nas exéquias, a comunidade é ajudada a firmar sua esperança na vida eterna e a viver no amor. Seus símbolos e gestos litúrgicos ajudam todos a libertarem-se do medo da morte e a viver na liberdade dos filhos de Deus. Como afirma Paulo, Jesus veio para “libertar os que, por medo da morte, passavam a vida inteira numa situação de escravos” (Hb 2,15).

Para os cristãos, a morte humana não é mais como antes. Somente a vinda de um Deus sobre a Terra poderia causar essa mudança. A morte perdeu seu aguilhão, como uma serpente cujo veneno não é mais capaz de matar suas vítimas, mas somente de endormi-las por um tempo.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Ministrar Exéquias. A Tribuna, Campinas – SP, v. 3876, p. 15 – 15, 2010.

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