MESTRES DE HUMANIDADE


(9/11/2004)

Evaristo Eduardo de Miranda

Quando deres um festim,

convida pobres, aleijados, coxos e cegos.

(Lc 14,13)

Ágata é pequenina, bem pequenina no seio de sua mãe. Sua mamãe e seu papai sentem seu viver, seu desenvolvimento e a amam. Ela tem cinco meses e um exame de ecografia descobriu que ela não tem cérebro. Nascendo, não poderá viver. O médico tenta consolar a família, esmagada pela dor, propondo que poderiam ir aquele dia mesmo ao hospital e efetuar um chamado aborto terapêutico. Muitos vão falar aos pais nesse sentido, evocando a razão. Os pais, apesar do imenso sofrimento, tomam a seguinte decisão: esse bebe é nosso, ele vive, é necessário guardá-lo e sobretudo amá-lo. Ágata ficará até o final nesse berço de ternura que é o seio d sua mamãe.

Nos meses seguintes, eles são obrigados a resistir a todas as pressões do seu meio ambiente que consideram sua decisão um ato de loucura. Há também aqueles que os apoiam: alguns parentes próximos, um padre amigo, as irmãs religiosas da maternidade… Ágata nasceu com oito meses. Ela viveu uma meia hora. Foi nos braços de seu pai que ela foi batizada.

Meses depois os pais puderam dizer: “Nós estamos em grande sofrimento e também em grande serenidade. Ágata vive junto ao Pai, numa paz que nós desconhecemos na Terra. Ela participa, do seu modo, na nossa vida de todos os dias, bem como na vida de toda a Terra. Essa é a história da pequenina Ágata, uma pedrinha preciosa (Ap 2,17) e não pedra no caminho.

Todos nascemos extremamente deficientes e carentes. Durante toda a vida continuamos frágeis. Ninguém vive num refúgio onde não possa ocorrer uma enfermidade, um acidente ou simplesmente um cansaço. Se uma morte repentina ou acidental não colher a vida do jovem ou adulto, a entrada na velhice é uma experiência certa de portar-se sucessivos limites e ampliadas deficiências e fragilidades. “Os membros do corpo que parecem os mais fracos são necessários e devem ser os mais honrados” (1Cor 12, 22-25).

Negar a presença da fragilidade na vida humana é negar a realidade da morte. As deficiências e fraquezas sempre lembram a última despossessão, a mais absoluta de todas: a morte. Numa sociedade de super-homens, as pessoas não aceitam a fragilidade, a fraqueza e a deficiência. Irritam-se com o choro das crianças, ficam irados com a surdez ou a dependência dos idosos e repudiam um epiléptico e suas crises. A fraqueza e a diferença despertam em alguns a cólera e a rejeição. Em outros, a deficiência incita a um amor possessivo e perigoso. A fragilidade do outro e de cada um deveria ser uma fonte de compaixão. Quando alguém é rejeitado por sua fraqueza pode tornar-se deprimido e confuso. Quando alguém é aceito, apreciado, escutado e amado por suas fraquezas, estas convertem-se em fonte de paz e alegria. A compaixão pode ser, ao contrário da rejeição e do preconceito, uma fonte real de crescimento e bem estar para os mais pequeninos.

A fraqueza não ilude. A ilusão está no desejo de ser forte e poderoso, rejeitando as realidades da fragilidade e da morte na vida de cada um. Para o cristianismo, ser humano eqüivale a aceitar a coabitação em cada um da força e fraqueza, da saúde e doença, da perfeição e imperfeição, da vida e morte. Os deficientes são eficientes. O clamor e a confiança de seus corações são capazes de abrir corações totalmente fechados e mudar vidas. Os mais fracos suscitam potências de amor escondidas no coração dos poderosos. Para Mahatma Gandhi, “a vida é somente vida quando existe o amor”.

A imagem socialmente aceita do ser humano ideal é um mito: uma pessoa autônoma, eficaz e competente (se possível rica e bela). A sociedade deveria definir-se como um lugar onde leva-se em conta as necessidades de todos os seus membros, sem exceção e onde reconhece-se os dons de cada um. Esse é o sentido da civilidade e da civilização, como nas palavras do papa João Paulo II: “A qualidade de uma sociedade ou de uma civilização não se mede pela sua riqueza, nem pela sua eficiência, pelo respeito que ela manifesta com relação aos mais pequeninos”. Sem ouvir e acolher os deficientes, a sociedade não é capaz de usufruir de sua sabedoria escondida, de seu perfume, fora das normas. E eles são mestres de humanidade.

A tradição espiritual judaica e cristã mostra caminhos para descoberta de uma humanidade comum e escondida em todas as pessoas, muito além das diferenças, consideradas por alguns como ameaçadoras ou perigosas. Os frágeis e deficientes trazem insegurança e ajudam os humanos a descobrir suas feridas, seus limites e sua humanidade comum. Quem aceita suas fraquezas e limites, vice na insegurança. Essa insegurança gera uma disponibilidade para conhecer novos espaços e realidades. Ela retira do isolamento, do alcance das seitas, do sectarismo e da ilusão da onipotência e da onisciência. Passa-se a pertencer a uma comunidade, sem exclusão possível, um sentimento tão forte no judaísmo e nos judeus (Is 58,6-7).

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Mestres de Humanidade. A Tribuna, Campinas – SP, v. 95, p. 8 – 9,2004.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Mestres de Humanidade. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 6, p. 1 – 2,2004.

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