MERGULHAR NO NOME E NA PESSOA


(20/12/2004)

Evaristo Eduardo de Miranda

Em tempos de verão, nada como mergulhar num rio, piscina ou mar. Prazerosa, essa imersão relaxa, faz bem à saúde e revifica. Mergulhar é sadio e santo. Nas Escrituras são freqüentes banhos, abluções e mergulhos terapêuticos e espirituais. Para os cristãos, a experiência das águas evoca o batismo. Em que medida essa prática litúrgica corresponde ao sacramento?

A “fórmula batismal” da tradição cristã traduz uma determinação atribuída a Jesus nos evangelhos e provavelmente de redação tardia: “batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19). A palavra grega dos evangelhos, baptizein, significa mergulhar e, segundo o contexto, imergir ou submergir. O evangelho de Mateus, originalmente escrito em hebraico, deixa claro: mergulhem os convertidos no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O evangelista não manda jogar ninguém na água.

O nome, em hebraico shem, é sinônimo da pessoa e, na bíblia hebraica e na tradição judaica, representa o próprio Deus. Que teu Nome seja santificado!. Que Deus seja santificado! Não há distância e sim equivalência entre nome e pessoa, entre Deus e o Santo Nome. O texto grego dos evangelhos fala “eis to onoma”, “em o nome” ou, mais exatamente, “para o nome”, com um forte sentido de movimento e de direção.

Mergulhar os convertidos para o Nome, haShem, mergulhar para o Santo Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Essa experiência espiritual é o fundamento da vida cristã: mergulhar na Trindade, banhar-se em suas águas, deixá-las atravessar nossas vidas e nossas pessoas, nossos sonhos e nossas realidades. Essa água divina purifica, vivifica e unifica. A cristologia dos últimos séculos afastou-nos dessa dimensão trinitária, tão essencial.

Batizar para muitos católicos evoca dar um nome e um rito onde verte-se água sobre uma criança. A palavra batizar perdeu seu significado original e identifica-se com um rito, distante e pobre, face as realidades sacramentais que tenta traduzir e efetivar. O batizado é aquele que se introduz, que mergulha “para dentro da pessoa do Pai, da pessoa do Filho e da pessoa do Espírito Santo”, como na feliz expressão de D. Joaquim Zamith, OSB.

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