MATAR E COMER ANIMAIS


(11/7/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

No poema da criação, no livro do Gênesis, Deus quer um Humano vegetariano. Para alimentar-se, o Humano não precisará verter sangue ou causar sofrimento. Deus propõe como alimento para o Humano as ervas que dão semente: os cereais (trigo, centeio, cevada, aveia, arroz, sorgo, milheto…) e os legumes (ervilhas, feijões, favas, grão de bico e toda sorte de vagens). Se o contexto fosse menos mesopotâmico e mais tropical, Deus também teria incluído na dieta do Humano as raízes e os tubérculos de plantas maravilhosas como a mandioca, a batata doce, o cará, a batata, o inhame… No Éden, Deus também oferece ao Humano, as árvores que dão frutos: vinha, figueira, oliveira, tamareira, macieira, romãzeira e foi parando por aí. Se o contexto fosse tropical, Ele teria incluído fruta-pão, banana, laranjas, manga, mamão, jaca, goiaba, abacaxi, jabuticabas, cajus, pitangas e uma infinidade de frutas.

O Humano perfeito era vegetariano. Ele não precisava derramar o sangue de nenhum vivente para viver. Ele iria alimentar-se de plantas. Estamos no Paraíso. Diante do Humano, Deus fez desfilar os viventes, os animais, para ver como ele os nomearia. Deus não propõe caçar ou domesticar os animais. Propõe conhecê-los, admirá-los. O Humano se reconhece e se diferencia dos animais, numa relação de identificação, desidentificação e alteridade, ao final da qual florescerá a emergência necessária da mulher e do homem. O Humano deixa de ser macho e fêmea. O Homem (ish) é apresentado à Mulher (isha). Deus não cria a Mulher, Ela a apresenta ao Homem.

Após o diálogo com a serpente, o mais despido dos animais, o Humano entra no mundo da dualidade, da multiplicidade e da morte. Que a serpente não decida por nós! Os objetos de conhecimento, adquiridos de forma exterior ao indivíduo, são uma ilusória entesouração de um saber estranho ao essencial do homem. Este os percebe com a mesma superficialidade que percebe a si mesmo. Na “coisificação” do ser e do conhecimento, o amor está ausente. O homem fica cego à sua interioridade e cego a toda realidade que lhe escapa.

Banindo-se da unidade do paraíso, o Humano nu, envergonhado e cego, obriga Deus a matar, ou pelo menos tosquiar, os primeiros animais. Passada a ira, Ele confecciona e reveste sua criatura de vestimentas de pele, antes que deixem definitivamente o paraíso (Gn 3,21). Deus teria sacrificado os primeiros animais pelos humanos? Para os místicos, Deus não sacrificou nenhum animal. Foi o Humano quem trocou sua vestimenta de luz (em hebraico Hor) por uma vestimenta de pele (em hebraico Or). Ou ainda, o homem recebeu o prepúcio e a mulher o hímen. Seus sexos foram recobertos de peles.

Expulso do paraíso, o Humano segue o caminho da serpente não verticalizada. Não come pó, mas come do pó. Passa a cultivar a terra, tanto a terrestre, como a de seu solo interior. Para a humanidade ainda vale o convite do Éden: cuidar do seu jardim, da sua terra interior, para poder crescer, ser fértil, florir e dar frutos. A isso Deus o enviou. Por esse caminho messiânico, o Humano poderá voltar ao paraíso. Mas o Humano também cria animais. Disso Deus nada falara, mesmo se a pecuária custa o suor da fronte. Por uma razão profundamente marcada em seu inconsciente de devedor, de quem não aceita o amor ou o dom gratuito, o Humano oferece a Deus seu(s) sacrifício(s).

Deus não pediu sacrifício, nem a Adão, nem a Caim, nem a Abel. Nem a ninguém. Ele pode pedagogicamente aceitá-lo e até acolhe-lo, quando expressa, num gesto primitivo, uma intuição do que deva ser o dom gratuito. Deus não quer sacrifício, mas amor, caridade. Durante séculos, patriarcas, profetas e poetas vão repetir: Deus nos ama de um amor gratuito, não interesseiro. Durante séculos, sábios fariseus e rabis vão reiterar essa doutrina, enfrentando saduceus e sacerdotes: Deus quer caridade e não sacrifícios. O rabi Jesus dirá que se for necessário, para acabar definitivamente com os sacrifícios, com as dívidas impagáveis, estará disposto até de morrer. Deus quer amor.

Depois vem o dilúvio. Num clima mítico, o Humano colabora com Deus, na salvação da Humanidade e dos animais. Com o passado dos animais extintos, transformados metaforicamente em betume, com esse óleo mineral, o Humano unge no presente a sua arca salvadora para preenchê-la de um porvir desprovido de ameaças ambientais.

Todos os animais serão salvos, independentemente de sua utilidade ou interesse para os humanos. Os peçonhentos, carnívoros ou ameaçadores para a espécie humana terão seu lugar na arca. Se Deus e Noé fossem utilitaristas, como as sociedades atuais, salvariam apenas os animais domésticos.

Após o desastre diluviano, Deus não se regozija das montanhas de cadáveres de humanos e animais putrefatos. Arrepende-se. Arrepende-se de ter desejado um Humano perfeito. “Eu não tenho prazer na morte do mau… Eu não sinto prazer na morte daquele que morre” (Ez 18,23.32). Deus anuncia: a perfeição do Humano é sua perfectibilidade. Promete ajudar o Humano, sua imagem, em seu trabalho de semelhança, em seu aperfeiçoamento. Deus propõe e celebra uma aliança, com humanos e animais: “Eis que estabeleço minha aliança convosco e vossa semente depois de vós. E com toda alma vivente que convosco está de aves, reses… E de todo animal da terra” (Gn 9,9-10).

Deus vai tolerar a imperfeição de sua criatura e para ajudá-la enviará mestres, profetas, revelações, anciãos, patriarcas, sinais, mártires… Se necessário for, Ele mesmo virá para auxiliar o Humano (promessa messiânica). Nesse ponto, o relato bíblico abandona o mito e começa penetrar na história, na proto-história da salvação.

É uma lição de comedimento e ponderação. É uma parábola sobre a medida e a necessária aceitação dos limites e imperfeições dos outros. Nesse momento, Deus concede aos humanos a possibilidade de matar e comer animais. Segundo um amigo, Deus fez isso depois do dilúvio pensando nos argentinos. Provavelmente também pensou nos gaúchos. Mas antes disso, para fazer seus calçados, alforjes, roupas, tendas, arreios etc., provavelmente os humanos não esperavam os animais morrerem de velhice parar tirar-lhes o couro. Mesmo assim, o Divino cerca essa prática de morte e matadouros, de restrições amplamente codificadas pelo judaísmo. Só alguns serão autorizados a matar. Só alguns animais poderão ser comidos e seguindo um ritual preciso.

Deus não autoriza o Humano a destruir as moradas dos animais, a submetê-los a tratamentos cruéis ou degradantes, a usá-los como se fossem material de construção em experimentos científicos ou a abatê-los sem piedade. Como proclamado por Deus na aliança pós-diluviana, sob o elo do arco-íris, os animais merecem ser protegidos e têm o direito de existir, independentemente de sua utilidade atual ou potencial para o homem.

Autorizado a comer animais, o Humano começa a perceber que existe um plano de Deus para os homens e animais. O Humano tem uma vaga ideia do plano de Deus para humanidade. E isso após uma longa e necessária história da Revelação, ainda incompreendida por tantos. Os verdadeiros discípulos têm alguma ideia do plano de Deus para sua pessoa. Quanto ao plano divino para os animais, os humanos não têm a menor ideia.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Matar e comer animais. A Tribuna, Campinas – SP, v. 3793, 2002.

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