MADALENA E A AMIZADE DAS SOMBRAS


(08/6/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

Maio de 1983. Alto sertão de Pernambuco.

Chega-me do Mediterrâneo a reprodução de um quadro de Madalena de Georges De La Tour e linhas manuscritas e bem traçadas por Patrick Bousquet, parafraseadas parcialmente a seguir:

(…) Madalena solitária e a amizade das sombras… onde a beleza do pigmento leitoso de seu seio, escapa ao alcance do espelho. Ela está só. E no vidro vazio, só contempla a vacilante chama de uma vela… Dupla talvez, mas cuja binária propagação não é mais do que uma catástrofe ao quadrado. O espelho só capta, por todo prestígio, a fugaz e definhada língua de uma vela. Ele só capta um fogo tênue que flerta com sua anulação… Sim, o fogo, a chama, o brilho da mulher e a tenuidade desta última. Tudo se diz ao espelho…

Ela renuncia à sua prestigiosa imagem e só contempla de si mesma, a presente, sua precariedade, sua carne perecível… Madalena libertou-se de todas as escamas que contrariavam a contemplação da verdade: suas joias jazem sobre o móvel, por terra… Aquém de todo reflexo… Como Madalena. Elas jazem como seres arrasados… Como hidras aniquiladas.

Madalena é como São Jorge enfrentando o dragão… E esses colares inertes são como os esqueletos, os raques lívidos e dessecados de uma tarasca, sob o ferro de lança da chama.

Madalena triunfou sobre ela mesma… Ela quebrou sua imagem, ou melhor, o que nela, ocultava o nascimento do Outrem. Madalena passou de uma concepção do Ego, à descoberta do Outro. Ela aceita como imagem total de si mesma, o signo de seu próprio desaparecimento… Ela se sabe plenamente marcada pela castração. O luto será seu pão… E a sombra matará sua sede.

Nós só podemos viver pela poda sistemática de nossos apetites de parada. Será-nos necessário deitar com o corpo acre de nosso próprio eclipse! E nos interrogar sobre o porquê de nossa ausência, ali onde o Outro é.

Meum gaudium!

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