LIÇÃO DE VIDA


(29/11/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

As discussões sobre a campanha eleitoral ao seu lado, não sensibilizavam o jovem W. O fato de que os membros de sua igreja evangélica não estivessem junto com ele naquele momento solene, pois o consideravam um desviado – o que é pior do que parado no trilho do Senhor -, também não o perturbava. Nem as lágrimas de sua esposa, evangélica, grávida de quatro meses de seu primeiro filho, haviam sido suficientes para comovê-lo e tirá-lo daquele imobilismo. As vinte e oito balas de chumbo em seu corpo, disparadas a queima roupa por várias mãos, o tornaram muito pesado. Como uma âncora, ele parecia agarrado ao fundo do singelo caixão doado pela Prefeitura. É um caixão reservado aos indigentes e às famílias sem recursos para pagar o enterro. Pequenas elevações em sua cabeça, como uma coroa, eram o resultado de várias balas que pareciam querer brotar.

Parte da família veio avisar com diligência sectária que ele não era católico. Melhor não rezar ou orar. Aquilo tudo não agradava a Deus. O Senhor ama a justiça e a santidade. O que ocorrera com W. estava muito distante de Deus. Melhor nem aproximar-se do caixão. Melhor ficar lá fora. Por outro lado, constatavam que o pastor ou ancião não viria, nem a comunidade, porque ele andava “desviado”. Sobre W., abatia-se um julgamento sectário e inapelável. Não haverá culto, nem funeral. Julgado pelos homens, W. agora enfrentará o julgamento de Deus.

Alguns tentam explicar o desvio de W. Sabiamente, desistem e calam-se. Difícil falar essas coisas na frente do W., silencioso e rígido daquele jeito. Alguém tenta explicar, discretamente, quem ele era. Antes de pronunciar suas justificativas, o ministro católico das exéquias toma a palavra e diz que já sabia quem ele era: era um filho de Deus. Um ser humano. Uma pessoa. Um pobre entre os pobres. Era um jovem, um esposo, com uma vida inteira pela frente, quase prestes a ser pai. Perdido de si, perdido de nós. Perdido por nós.

Diante dessas palavras, as irmãs de W., católicas, pedem os funerais cristãos oferecidos pela pastoral das exéquias. Sua esposa questiona e põe em dúvida a validade do funeral. W. segue indiferente. As duas autoridades familiares, uma pela linhagem e outra pela do matrimônio, discutem. Uma frase de bom senso emerge: Deus é um só. O W. também era um só. Cada um de nós é um só. Um diálogo ocorre entre o ministro e a esposa de W. Ela aceita a celebração (senão… não haverá nenhuma). A Igreja adapta o ritual, para acolher a todos – falecido e comunidade – de forma ecumênica e caridosa.

O ministro anuncia aos presentes que estão diante da imagem de dois assassinados. Eles olham em volta. Procuram quem mais, além de W., havia sido assassinado. O ministro aponta para a cruz e o crucificado, colocados (jogados) num canto da sala por algum iconoclasta assustado e de plantão. A Igreja lembra: Jesus não morreu de doença, nem de velhice. Foi assassinado. Injustamente. Fora de lugar. Fora de hora. O fundador da nossa Igreja morreu assassinado: pela intolerância, pela incompreensão, pela estranha sede de justiça de alguns. A Igreja católica sabe do que está falando. São séculos de mártires e vítimas da violência. W. não foi o primeiro assassinado no Cemitério N. Sa. da Conceição. Nem o único, nem o último. A Igreja sabe do que está falando e, para surpresa de muitos, está a vontade naquela situação.

O ministro explica que Nossa Senhora, a virgem Maria, a mãe de Jesus sabe o que a mãe de W. está sofrendo. Já passou por isso, a Mater dolorosa. Ela também perdeu um filho, assassinado. Os amigos de Jesus – João, Pedro, Tiago… – também entendem a dor dos amigos de W. Aos amigos que vieram dizer adeus, dar o último adeus, a Igreja os convida, juntos, a dar a – Deus. Com a oração do Pai Nosso, cercado por mãos abertas e voltadas para os céus, W. é entregue nas mãos de Deus. São mãos melhores do que as nossas.

No final da celebração (sem Ave Maria, nem água benta), o restinho de Israel ali presente, carinhosamente, aproxima-se de W. e cerca o corpo do irmão falecido. O ministro lembra que a hora de nossa hora é uma perfumada floração, marca a passagem do tempo novo e o início do tempo definitivo. Em tudo aquilo há uma lição de vida e de morte. Deus não é justo conosco. Ele é mais do que justo. Ele é bom e é um Pai de infinita misericórdia. A celebração encerra-se com as palavras do apóstolo Paulo: “Nenhum de nós vive para si mesmo, e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor (1Rm 14, 7-9)”.

A esposa e outras pessoas haviam deixado a sala, desde o início da celebração. Outros foram retirando-se, aos poucos. Sua não lhes permitia ficar ali, disseram. Diante dos que rezam e dos que retiram-se, W. segue impassível.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Lição de vida. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 4, p. 12, 2002.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de Lição de vida. A Tribuna, Campinas – SP, v. 93, p. 10 – 11, 2002.

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