LÁGRIMAS E FINADOS

(7/7/2003)

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

Quem fará de minha cabeça um manancial de água,

de meus olhos uma fonte de lágrimas? (Jr 8,23)

 

A água acompanha o dia de Finados. Ela lembra a limpeza, a purificação e a compaixão. De forma simples, as pessoas deixaram suas casas, vieram aos cemitérios e limpam os túmulos com água. Em outros casos, molham vasos ou plantas dos canteiros e limpam as placas. Muitos vão suar nessas atividades e também vão sentir sede. Essa morada provisória dos restos mortais das pessoas falecidas é tratada com carinho no dia de Finados. Uma sepultura limpa e ordenada pelos familiares expressa no exterior uma atenção interior de cada um para com os falecidos. Ao jogar água sobre os túmulos, muitos lembram a água benta aspergida na celebração do funeral ou na bênção da sepultura. É a mesma água, com a qual fomos batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Essa água brotou pela primeira vez de Jesus crucificado: Um dos soldados feriu-lhe o lado com a lança, e imediatamente saiu sangue e água (Jo 19,34)

 

Vinde , benditos de meu Pai, recebei em herança o Reino

que foi preparado para vós desde a fundação do mundo.

(…) Porque eu tive sede e me destes de beber (Mt 25,34.35).

Duas vezes nos evangelhos, Jesus pede de beber: no encontro com a samaritana (Jo 4,1-30) e instantes antes de morrer na cruz (Jo 19,28). Jesus repete e proclama sua sede. Parece um absurdo: Jesus, a água viva, pede de beber. A razão é simples: Deus tem sede de nós. Deus nos busca e nos deseja com um infinito amor. Deus tem sede de nossa atenção, de nosso silêncio. Podemos ficar horas em silêncio diante de uma televisão. E não conseguimos ficar apenas alguns minutos em silêncio diante de nós mesmos e de Deus. No cemitério, o silêncio vem naturalmente. Cada um é convidado por Deus a ficar um momento em silêncio junto à sepultura de seus falecidos, nas orações e nas missas oferecidas em sufrágio de suas almas. Em silêncio, ou conversando sem gritaria com parentes e amigos, pode-se relembrar as lições tiradas da vida daqueles que já se foram. E perdoar alguma coisa que ainda não foi perdoada em nossos corações. Orar por eles e com eles, pela salvação de todos. Pensar em todas as pessoas ali presentes. Perdoar quem ofende os católicos e outras pessoas por estarem vindo ao cemitério no dia de Finados. Ao fazer assim, brota uma fonte de água viva em cada um.

Ninguém consegue falar enquanto bebe um copo de água. Pelo menos, no momento de matar a sede neste dia de verão, façamos esse silêncio. E recordemos aqueles que, de diversas formas, mataram nossa sede e nossa fome, os pais, parentes e amigos falecidos. É um dia para compartilhar nosso pão e nossa água. E lembrar: Todo aquele que der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um desses pequenos (…) não perderá a sua recompensa (Mt 10,42).

Dia e noite minhas lágrimas são o meu pão (Sl 42,4).

 

No dia de Finados, quem entra em comunhão com Deus e os irmãos se comove. As lágrimas brotam da fonte dos olhos. Como a pele produz o suor e a língua a saliva, as lágrimas são os frutos do olhar compassivo. Feitas de água e sal, as lágrimas estão associadas à imagem do pão, um alimento interior e místico, sem o qual não podemos crescer. As lágrimas estão entre as mais sublimes destilações das águas corporais. O olhar compassivo é iluminado por lágrimas. O salmista evoca o povo alimentado por “um pão amassado em lágrimas” e cuja sede é saciada “com uma tríplice medida de lágrimas” (Sl 80,6). As lágrimas estão associadas a imagem do pão, e são um alimento interior e místico, sem o qual não se pode crescer. Muitas pessoas choram juntas no dia de Finados, abraçam-se e perdoam-se. Sentem-se mais humanas e irmanadas. Essas lágrimas são um dom da graça divina, como as da mulher arrependida que banharam os pés de Jesus (Lc 7,38) e moveram o seu coração (Lc 7,44). Essa pecadora havia entregado-se a falsos amantes e esposos. Em Jesus, ela encontrou o verdadeiro Esposo.

Então Jesus chorou (Jo 11,35).

Jesus também chorou no episódio da morte de Lázaro. Na escola do evangelho, nós somos discípulos e testemunhas desse Jesus. Ele “sabia” que ia trazer Lázaro de volta à vida. Mas ele chorou por compaixão, ao ver as irmãs de Lázaro e seus amigos chorando. Ele compartilhou esse sofrimento. Essas lágrimas, Jesus verteu por nós, como pelas irmãs de Lázaro. Nas lágrimas de Jesus descobre-se a maravilhosa humanidade de nosso Deus. Na transparência de suas lágrimas, está a transparência de seu amor por nós. O mesmo deve passar a brilhar em nossas lágrimas. As lágrimas da compaixão têm um valor infinito. Poucos humanos alcançam essa realidade. Felizes os que hoje vieram aos cemitérios significar seu amor e compaixão. Daqui sairão saciados pelo pão espiritual e pela certeza do olhar amoroso do Senhor que nunca nos abandona, nem depois da morte. Os olhos do Senhor teu Deus estão sempre sobre ti (Dt 11,12).

 

 

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