JOSÉ, O PAI MODERNO


(6/8/2006)

Evaristo Eduardo de Miranda

O vínculo do pai com a paternidade sempre foi muito mais problemático do que o da mãe, por razões biológicas. Somente há poucos anos, com a generalização dos exames de DNA, a paternidade pode ser comprovada com certeza. Cada cultura inventou sistemas para definir a contribuição paterna numa filiação provável e improvável. O direito romano e a tradição judaica adotaram o voluntarismo. O pai era aquele que se declarava pai, acima até da realidade biológica. E ponto final. Um episódio bíblico ilustra essa regra: Raquel, a esposa estéril de Jacó (Gn 30,3). O pai declarava e o filho era legítimo, livre, bendito e herdeiro. E não um bastardo. Era uma propriedade do pai. A quem ele destinaria o nome e sua herança.

O cristianismo, rapidamente, negou essa visão da paternidade. Em primeiro lugar, a Igreja primitiva ao compartilhar todos os bens entre a comunidade de crentes, contestou o patrimonialismo dos vínculos familiares. O cristianismo re-significou a linguagem do parentesco: os fiéis denominam-se irmãos, o sacerdote é chamado de pai (padre), a Igreja de Santa Madre (Santa Mãe) e o papa de Santo Padre (Santo Pai). Graças ao papel de José, esposo do Maria, no mistério da encarnação, a figura do pai biológico foi apagando-se frente à do pai protetor e educador.

O mistério da encarnação não é muito gratificante para pais de família proprietários de sua prole. José cumpre um papel de pai protetor de Maria e de Jesus, mesmo tendo hesitado inicialmente em assumi-lo. Ele não é o pai biológico de Jesus. Ele é um paradigma para tantos pais que devem assumir filhos de casamentos anteriores das esposas, filhos adotivos e filhos das diversas realidades que compõem hoje os vários tipos de famílias. Esse pai moderno, protetor e educador, é um personagem humano, extremamente humano frente à Maria e a Jesus.

O humilde carpinteiro de Nazaré foi apresentado como um modelo das virtudes cristãs pelos franciscanos a partir dos séculos XIII e XIV. O culto a São José foi amplificado pela reforma católica do século XVII, até tornar-se , segundo a fórmula de Charles Péguy, o “herói dos tempos modernos”. Para Igreja, o progenitor não é o proprietário dos filhos, como era para o direito romano e para o judaísmo. Ele os recebeu de Deus para protegê-los e educá-los. Essa missão social é subalterna às exigências da salvação mas é o que dá sentido e valor à vida terrena e à paternidade.

Além de teólogos, a figura de José interessa cada vez mais historiadores e psicólogos. Um homem com quem Deus só falava por sonhos! Quatro falas e quatro sonhos (Mt 1,20; 2,13; 2,19 e 2,22). Ele vive atento, em harmonia e diálogo com seu inconsciente. Em José, essa extraordinária capacidade de lembrar, interpretar e agir segundo seus próprios sonhos, diz muito sobre sua interioridade e equilíbrio psicológico.

Engajamento e decisão não faltaram ao José de Nazaré, paradigma também do pai que sabe retirar-se diante do crescimento do filho. Retirar-se não significa abandonar. José foi um pai diligente. Agiu com coragem, presença e eficiência: assistiu Maria no parto, organizou a fuga e a vida no Egito, o retorno à Palestina etc. E diante da vida própria do filho soube se retirar. Com um desapego de dar inveja. Num silêncio e discrição tão sutis, José desaparece sem ser notado, até dos textos evangélicos.

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