JOÃO PAULO II E OS JUDEUS


(30/3/2004)

Evaristo Eduardo de Miranda

Nunca na história recente da Igreja, um papa trabalhou tanto pela aproximação entre católicos e judeus, como durante o pontificado de João Paulo II. Essa atuação, marcada pela visita à sinagoga de Roma, o estabelecimento de relações diplomáticas com Israel e a visita do Papa João Paulo II à Israel não foi fruto do acaso. Os papas João XXIII e Paulo VI trabalharam nesse sentido, mas Karol Wojtyla nasceu em Wadowice, Polônia, conviveu desde sua infância com famílias judias.

Ele viu seus amigos judeus morrerem sob o nazismo e sua sala de aula ficar progressivamente vazia. Participou da resistência à opressão nazista e comunista. Falsificou documentos para livrar os judeus dos nazistas e sempre esteve convicto que os laços entre judeus e cristãos deviam apontar para um mundo melhor, agora, já, em nosso tempo presente, e não somente num futuro distante. Falando sobre o diálogo judeu-cristão, o rabino Simón Moguilevsky, da Congregação Israelita da República Argentina, disse: “Sabemos aquilo que nos une: a crença em um Deus único, a afirmação da realidade de um universo espiritual onde desenvolvemos a vida religiosa, a crença no valor de cada indivíduo e seu lugar especial no desenvolvimento da história. E finalmente, temos em comum compartilhar a fé messiânica em um futuro que dará ao homem a possibilidade de algo melhor que o presente do nosso tempo.

E esse algo melhor começou nitidamente emergir na segunda metade do século passado, apesar das posturas corajosas de muitos no passado. Nos anos sessenta, no decorrer de uma conferência em Chicago, monsenhor John S. Quinn, um dos peritos do Concílio do Vaticano II, revelou uma oração composta pelo papa João XXIII (1881-1963), poucos dias antes de sua morte. Segundo seu desejo, ela deveria ser recitada por todas igrejas. Nela o papa João XXIII pedia perdão a Deus por todos sofrimentos que a Igreja Católica fez os judeus padecerem. O texto da oração publicada é o seguinte:

“Senhor!

Estamos conscientes de que, no decorrer de muitos séculos, nossos olhos se achavam tão cegos que já não éramos capazes de ainda ver a beleza de Teu povo eleito, nem de reconhecer a Tua face nos traços de nossos irmãos privilegiados.

Compreendemos que o sinal de Caim esteja escrito em nossa fronte no curso dos séculos; estava nosso irmão deitado, ensangüentado e em prantos por causa da nossa falta, porque havíamos esquecido Teu amor.

Perdoa-nos a maldição que injustamente tínhamos atribuído ao seu nome de judeu. Perdoa-nos o Te havermos, uma segunda vez, crucificado neles, em sua carne, porque não sabíamos o que fazíamos”.

E Magistério da Igreja tem sido muito claro neste sentido, nos últimos cinqüenta anos. Sob o pontificado de Paulo VI, o documento do Vaticano Nostra Aetate (28-10-1965) afirmou: o conjunto do povo judeu contemporâneo de Cristo não pode ser considerado como responsável da sua morte, mesmo se alguns colaboraram com os romanos. Esse mesmo Império crucificou milhares de outros judeus nessa época. O documento do Vaticano afirma também: é ainda mais absurdo, incriminar os judeus das gerações consecutivas. E se espanta de que, ainda hoje, seja necessário afirmar solenemente uma verdade tão elementar!

As Orientações para a Aplicação da Nostra Aetate (3-1-1975) agregaram as seguintes precisões: “Os vínculos espirituais que unem a Igreja ao judaísmo condenam toda forma de anti-semitismo e impõem o dever de uma melhor compreensão recíproca. É importante que os cristãos busquem conhecer melhor os componentes fundamentais da tradição religiosa do judaísmo e que eles aprendam por que trações essenciais os Judeus se definem eles mesmos na sua realidade religiosa vivida. O Antigo Testamento e a tradição judaica fundada sobre ele não devem ser considerados como opostos ao Novo Testamento de forma a só oferecer uma religião da justiça única e do medo e do legalismo, sem recorrer ao amor de Deus e do próximo.”

Em sua histórica visita à sinagoga de Roma (13-4-1986), o papa João Paulo II afirmou: “Os cristãos devem se sentir irmãos de todos os homens; essa obrigação vale ainda mais quando eles se encontram diante daqueles que pertencem ao povo judeu. (…) Qualquer um que encontre Jesus Cristo, encontra o judaísmo. A religião judaica não nos é “extrínseca” mas de certa forma intrínseca a nossa religião. Nós temos com ela, relações que não possuímos com nenhuma outra religião. Vocês são irmãos prediletos, e de uma certa maneira, poderíamos dizer “Nossos irmãos mais velhos”. Os judeus são queridíssimos de Deus que os convocou para uma vocação irrevogável.” O Papa João Paulo II rompeu com dois mil anos de história de separação, preconceito, erros teológicos e deu pessoalmente o exemplo a todos, de qual seria o novo olhar católico sobre o povo judeu: o olhar de irmãos.

Na ocasião da visita de João Paulo II à Sinagoga de Roma, ele foi recebido pelo Rabino Élio Toaf. Durante a visita o Rabino contou uma história. Durante a guerra, um menino, filho de uma família judeu-polonesa, foi deixado aos cuidados de uma família católica até que a guerra terminasse. A mãe pedira à amiga católica que o educasse na fé dos pais, do Deus único. A guerra terminou e os pais do menino não voltaram. Os responsáveis pela criança, vendo que os pais não voltaram para buscá-la, procuraram o padre da cidade para batizá-la na Igreja. O padre não aceitou de imediato o batismo. Perguntou aos responsáveis sobre a origem da criança. Quando soube da história disse: peguem esta criança e a entreguem a uma família judia para que possa ser criada segundo a tradição e a fé de seus pais. Depois, completou o Rabino Toaf: – O padre hoje é o Papa, e eu era o menino.

Na visita histórica do papa João Paulo II a Israel (23-03-2000) por ocasião do Jubileu, em nome do Deus único, ele pediu aos fiéis das três religiões monoteístas: “Reconheçamos as diferenças entre nós, mas também reconheçamos em cada ser humano a imagem e semelhança do Criador.” Elogiado pelos líderes políticos de Israel por seu combate ao anti-semitismo, João Paulo II, artífice do processo que culminou com o estabelecimento de relações diplomáticas entre o Vaticano e o Estado judeu, pediu coragem para acabar com todas as formas de preconceitos. “Temos de lutar para apresentar sempre e em todas as partes a verdadeira face dos judeus e do judaísmo, e também dos cristãos e do cristianismo”.

A manifestação de afeto do papa pelo povo judeu, uma relação sedimentada ao longo de toda a vida do pontífice, teve seu ponto culminante na visita ao Memorial do Holocausto. Ali, cerca de 200 sobreviventes, entre os quais 20 pessoas procedentes de Wadowice, na Polônia, sua cidade natal, receberam o abraço emocionado do papa. Um dos momentos mais intensos foi seu encontro com Edith Tzirer, de 69 anos. Quando era jovem, o padre Karol Wojtyla, salvou-a da morte em janeiro de 1945, levando-a em seus braços por três quilômetros, até uma estação de trem. A mulher, em lágrimas, tocou o braço do papa em sinal de afeto.

“Segundo os sobreviventes da insanidade nazista, quando o papa lembra aqueles que morreram no Holocausto não se refere a vítimas sem rosto, mas a amigos e colegas de turma. A experiência do sofrimento dá ao papa uma autoridade que não costuma estar presente nas estratégias puramente políticas ou nos rarefeitos gabinetes curiais. O papa falou em paz, justiça e unidade como ‘presentes de Deus’, tocando no ponto nevrálgico que fez da sua visita um acontecimento de enorme conteúdo e conseqüências políticas, embora tenha reiterado o caráter religioso da sua peregrinação. A coragem para enfrentar temas espinhosos, apoiada no alicerce de uma incontestável força moral, fez com que a palavra de Sua Santidade pudesse ser ouvida num território minado por séculos de ódio e de incompreensões.

O corajoso e profundo documento pontifício Memória e Reconciliação – A Igreja e as Culpas do Passado, destaca: “como sempre, é fundamental estabelecer, mediante a pesquisa histórico-crítica, a verdade histórica. Estabelecidos os fatos, será necessário avaliar seu valor espiritual e moral, assim como seu significado objetivo. Só assim será possível evitar toda espécie de memória mítica e chegar a uma adequada memória crítica, capaz – à luz da fé – de produzir frutos de conversão e de renovação”.

Os absurdos e crimes do passado não merecem ser esquecidos. Devem alimentar um olhar novo, vigilante e positivo sobre o futuro. Os passos, no sentido da reconciliação, implicam revisitar as memórias comuns e santificá-las, purificando-as das culpas e equívocos passados. Durante o pontificado de João Paulo II, graças ao esforço do Papa e de alguns dos seus assessores, especialmente do Cardeal Ratzinger, a Shoá tornou-se tema da reflexão teológica da Igreja. Como sinaliza A. Coelho, “a Igreja fez um profundo exame de consciência e conclamou a todos os católicos reverem suas posições e conceitos sobre o judaísmo e os judeus. É verdade que os esforços e exemplos desses homens não são suficientes para vencer os velhos preconceitos anti-semitas que ainda perduram dentro da Igreja, principalmente entre alguns grupos mais tradicionais e também entre grupos mais “progressistas” de duvidosa vocação e fidelidade à Igreja, que hoje reeditam velhos chavões do anti-semitismo.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. João Paulo II e os judeus. A Tribuna, Campinas – SP, v. 96, p. 08 – 09, 2005.

1 comment for “JOÃO PAULO II E OS JUDEUS

  1. JADIR DA LUZ
    5 de setembro de 2016 at 21:04

    o povo judeu é a garantia e a sustentação das ESCRITURAS SAGRADAS, aliás escrituras sagradas(mikvey hakodeche)é o nome que os judeus denominam genericamente, o que nós cristãos chamamos de biblia.Qdo jesus disse EXAMINAI AS SAGRADAS ESCRITURAS PORQUE SÃO ELAS QUE TESTIFICAM DE MIM, jesus citou a expressão mikveyhacodeche se referindo à quilo que erradamente chamamos de velho testamento.Naqueles dias o suposto novo testamento, ainda não existia e não incluido, portanto, nas escrituras sagradas.No entanto o filho de maria o chamou de escrituras sagradas(mikveyhacodeche até hoje os judeus o denominam assim) mas nós o denominamos de um livro caduco, inutil e acabado.o povo judeu está ressucitando, e muitas coisas serão revistas.

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