JESUS VEM OU VAI?


(16/11/2003)

Evaristo Eduardo de Miranda

Nos evangelhos, Jesus é aquele que vem. Maranatha! Será? Antes de tudo, Jesus é aquele que vai. Ele vai e volta para o Pai, lá onde ninguém pode seguí-lo ou alcançá-lo. Os discípulos viveram essa experiência difícil: Aquele que eles seguem é também Aquele que, todo o tempo, se retira e escapa. Ele não veio para ficar, mas para partir.

Jesus desaparece fisicamente diante daqueles que queriam lapidá-lo no alto de uma falésia. Ele desaparece diante da possibilidade de um Herodes que desejava vê-lo. Ele desaparece diante dos que desejavam fazê-lo um rei. E mesmo, muitas vezes, Ele desaparece diante dos discípulos. Eles o buscam e o encontram, solitário, longe de todos, em oração na montanha.

Ressuscitado, Jesus continua com o mesmo comportamento: desaparecendo. Ele caminha junto dos discípulos em Emaús, consente em ficar com eles. Quando é reconhecido, desaparece diante de seus olhos. Ele fica postado atrás de Maria, cujo olhar está voltado ao sepulcro vazio. Ao chamá-la pelo seu nome, ela o reconhece e lança-se aos seus pés. “Não me retenhas”, Ele diz. Maria pode e deve vincular-se a Jesus, mas não deve retê-lo. Ela deve ir a seus irmãos, anunciar… Maria queria tomá-lo, tê-lo… gesto humano, gesto de amor. Jesus não deseja que ninguém o retenha. Ele se vai. Ele precisa partir.

Porque fazer-se visível, se é para desaparecer, para se retirar, para se afastar? Os judeus não o entendem, os discípulos também não e seu primo, João o batizador, dirá: “É você quem devia vir?” Uma pergunta atravessa todo o evangelho: Quem é Jesus? Uma pergunta coroada de outras indagações: De onde Ele vem? Onde Ele mora? Com que autoridade Ele faz isso? Não é Ele o filho do carpinteiro? (…) Quem é Jesus? Quem pode, verdadeiramente, responder essa pergunta?

Diante da afirmação de que vai deixá-los, os discípulos o interrogam: “Senhor, para onde vais?” Lá onde Ele vai, os discípulos conhecem o caminho, mas não podem segui-lo. Paradoxo. Quem pode tomá-lo? Os únicos a tomá-lo serão os guardas no jardim das Oliveiras, no Gat Shemenim. Outros tentaram tomar, pelo menos seu corpo, e encontraram um sepulcro vazio. “Se foi você quem o tomou…” dirá Maria. Quem poderia pegá-lo, lá para onde Ele partiu? Diante da personalidade de Jesus, de seu comportamento, de sua vida… quem poderia tomá-lo?

Quando os que o acompanham se retiram, pois suas palavras eram muito duras, Ele interrogou seus discípulos: “Vocês também vão me deixar?” Impossível. Eles não abandonarão, nem deixarão aquele que possui palavras de vida eterna e é a luz do mundo. Numa noite tenebrosa, Judas irá deixá-lo para entregá-lo. Não poderia ser de outra forma. Logo depois, os discípulos também o deixarão. Ele fica só. Orando e suando. Em silêncio, humilhado e sentenciado. Não poderia ser de outra forma. Tudo era necessário, para que o Cristo fosse realmente abandonado. Deus, El… meu, i. Eli, Eli, lama shabachtani? Deus meu, Deus meu… por que? Porque abandonaste eu, i. Jesus não queria ser tomado. Nem abandonado?

A paixão de Jesus foi a de ser abandonado pelo Pai e pelos que ele amou. Jesus não desejava ser tomado porque Ele só pode e só quer ser tomado pelo Pai. Ele não será tomado por nada, nem por ninguém. Num desapego, num abandono total, Ele entrega-se ao Pai. Quando a Cruz o reterá, quando os cravos o imobilizarão, Ele revelará ao mundo: realmente não me apego a mais nada, senão à única vontade do Pai, que deseja nele e para nós esse abandono.

Na escola do evangelho, somos discípulos e testemunhas desse Jesus que ninguém consegue tomar, nem apropriar-se. Não retê-lo, acordar-lhe a liberdade de nos abandonar. Deixar-se tomar e fascinar por essa ternura revelada quando chora pelo que exige de nós, como no episódio de Lázaro. O teólogo Urs von Balthazar diz: “Quando Ele chega, Lázaro está morto. Não é isso que é grave. Mas o fato que ele tenha deixado suas irmãs sem notícias, na noite sombria do abandono a Deus.” E Jesus chora. Por causa da morte? Da morte de Lázaro? Jesus não chora diante de outras mortes, antes de outras ressurreições. Ele chora por causa desse trágico interior que o obriga a compartilhar, eucaristicamente, seu abandono sobre a Cruz, em prioridade com aqueles que Ele ama mais particularmente. Essas lágrimas, Jesus verteu por nós, como pelas irmãs de Lázaro. Nas lágrimas de Jesus descobre-se a maravilhosa humanidade de nosso Deus. Na transparência de suas lágrimas, está a transparência de seu amor por nós.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Jesus vem ou vai? A Tribuna, Campinas – SP, 2003.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Jesus vem ou vai? Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 4, p. 1, 2003.

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