JESUS E OS ANIMAIS


(21/10/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

Qual o último animal que Jesus viu e o serviu em sua vida? Antes de responder, vale lembrar que Jesus veio ao mundo entre os animais. Segundo a tradição, ele nasce num estábulo, um lar de animais, e não numa casa de humanos. Além dos pais, os primeiros a vê-lo e acolhe-lo são os animais domésticos, o burro e o boi segundo a tradição do presépio. E esse pão celeste será colocado numa manjedoura, onde os animais comem capim e ração. Logo, os humanos apresentam-se, acompanhados de animais, pois é aos que guardam ovelhas no campo, que os anjos anunciam uma nova era de salvação.

Ao longo de sua vida, Jesus cotejará e mencionará os animais com muita freqüência: aves do céu, peixes, cães, bois, gafanhotos, raposas, leões, camelos, galos, serpentes, baleias, porcos, burrinhos, águias e galinhas. E é com estas que ele se identificará e não com as águias: “Jerusalém… Quantas vezes eu quis reunir teus filhos como a galinha reúne seus pintinhos.” (Mt 23,37; Lc 13,34). E lembrando os cães, a mulher siro-fenícia o comoverá: os cachorrinhos, sob a mesa, comem as migalhas dos filhos (Mc 7,28).

Qual, então, o último animal que Jesus vê e que o serve? A esponja. Esse animal surge num momento dramático, em sua hora final. Ele intermedia um gesto de compaixão daqueles que deviam reconhecer em Jesus, por serem soldados, a bravura, o sofrimento e sua humanidade. Esse estranho animal porífero está intimamente associado à agonia de Jesus, num relato cheio de simbolismos. “Há ali um vaso cheio de vinagre. Então, uma esponja é fixada ao hissopo; aproximam-na de sua boca. Quando Jesus toma o vinagre, ele diz: `Está consumado´. Ele inclina a cabeça e entrega o sopro” (Jo 19,29-30). Entrega o espírito para quem? Para o Pai, certamente. E para todos nós.

O vinagre

Como as talhas em Caná da Galiléia, o vaso está cheio, desta vez de vinagre. Que vinagre é esse e o que faz ali? Assim como há dois mil anos atrás as esponjas não eram de plástico, ali o vinagre também era outra coisa. Tratava-se de uma bebida tradicional, a posca dos soldados romanos: vinho acre misturado à água. É uma espécie de refrigerante, muito utilizado na região mediterrânea para aliviar a sede e desalterar. Durante o verão, na colheita do feno no sul da França, bebi com freqüência esse refresco tradicional dos agricultores meridionais: uma bebida acidulada feita com um pouco de vinho acre, misturado à água. Ainda hoje no Brasil, pessoas de origem portuguesa, espanhola ou italiana, apreciam e usam como vinagre, o vinho que azedou. Esse vinagre pouco tem a ver com o ácido acético, destilado e refinado, que caracteriza o vendido em supermercados e usado na maioria das casas. Se os soldados sentiam sede pelo esforço da caminhada, no calor primaveril de uma região semi-árida, o que dizer de um supliciado desidratado, que perdeu sangue, urina e suor? Os soldados ou os “presentes”, num ato de compaixão, compartem com Jesus sua bebida. Tenho sede, diz Jesus. Ele já havia dito o mesmo para a samaritana. A água pede de beber. A água viva pede nosso silêncio, nossa atenção, nossa escuta. O prazer mórbido vê somente nesse episódio mais um ato de crueldade contra Jesus da parte dos chefes e soldados (Lc 33,36), enquanto o povo apenas olha. É possível, dada as adequações feitas pela redação tardias dos evangelhos. Mas cruel mesmo é seguir lendo o texto, fora de contexto. Como levar o refresco até a boca do crucificado? Quem intermedia e viabiliza esse derradeiro ato de humanidade é a esponja, atada a um caniço de hissopo. Porque o hissopo?

O hissopo

Hissopo: em grego hyssópos, em hebraico êzob. Esse nome também é dado ao objeto que nos dias de hoje os sacerdotes e ministros católicos utilizam para aspergir água benta. Por que? O hissopo é uma planta aromática do tipo de mangerona (Majorana syriaca), um arbusto de hastes retas, de cerca de 50 cm de altura, de flores vermelhas ou azuis que cresce em terrenos rochosos ou ruínas (1Rs 5,13; Ex 12,22; Nm 19,6). Ele era utilizado para aspergir o sangue sobre o altar do sacrifício, ou ainda para aspergir a água destinada às purificações (Ex 19,6). “Tira o meu pecado com o hissopo e estarei puro; lava-me e serei mais branco do que a neve” (Sl 51,9). É com o hissopo, molhado no sangue da bacia do sacrifício do cordeiro, que Moisés recomenda aos seus anciãos de marcar as duas ombreiras da porta para proteger e libertar as casas dos hebreus da morte dos primogênitos (Ex 12, 22-26). Atado à cruz do hissopo da salvação, vai um animal, a esponja.

A esponja

Pessoas mais velhas lembram a verdadeira esponja, que alguns ainda utilizam para o banho. Na maioria das casas, o animal original foi substituído pelas esponjas de plástico. A esponja serve os humanos permitindo o transporte simples, prático e seguro de pequenas quantidades de líquido para diversas finalidades. A esponja que vem a Jesus, oferecendo-lhe seu derradeiro alimento, foi coletada no Mar Mediterrâneo e era provavelmente uma Euspongia officinalis. Citada no texto bíblico e no Talmud, a tradição judaica recorre com freqüência aos simbolismos da esponja, que como o camelo, absorve água para atravessar desertos. Três merecem destaque.

Primeiro: não é simples, nem fácil, matar uma esponja. Uma das coisas mais extraordinárias desse metazoário précambriano, é ser capaz de regenerar-se a partir de suas células, mesmo se dissociadas uma das outras. Uma esponja pode ser cortada em pedaços, moída e passada por uma peneira finíssima de seda. As células separadas numa espécie de sopa fina voltam a reagrupar-se e dão origem a novas esponjas. Quem pensa matar a esponja, na realidade, muitas vezes a multiplica e faz crescer. Os cientistas chamam essa estranha capacidade de embriogênese somática, e seus vínculos simbólicos com a paixão e ressurreição de Jesus não são frutos do acaso.

Segundo: a massa do pão, com suas bolhas é como uma esponja. A palavra esponja é de origem semítica. Em aramaico, a palavra ispog significa um pão ou bolo espongioso, poroso. A raiz spg, pronunciada, lembra de forma onomatopaica o sorver. Essa raiz deu origem a palavras como esponja e champignon (spg-non) e aplica-se a qualquer material que embeba-se facilmente, como a lã. Nesse sentido, o spongos do grego evangélico poderia ser entendido como os pães da proposição no targum do Êxodo (29,3) que apresenta a sagração dos sacerdotes e do sumo sacerdote: “… tomarás uma bola de pão, um bolo de pão embebido de azeite…”. Ao morrer sobre a cruz Jesus destrói o Templo e o reconstrói em três dias. Instituído como sumo sacerdote, “entrou uma vez para sempre no santuário e obteve uma libertação definitiva” (Hb 9, 12). É seu próprio sangue que unge-o da orelha ao polegar. Não se trata mais de um pão embebido em azeite apresentado no sacrifício, mas de uma esponja embebida em vinagre, de um corpo embebido em sangue.

Terceiro: esponja e pão da vida eterna. Viva, a esponja seleciona suas trocas com o meio ambiente. Morta, absorve e elimina com facilidade e por capilaridade, tudo que troca com seu meio ambiente, passivamente. Morto, Jesus absorve os pecados dos homens. Passa a esponja em nossas dívidas, no passado e no passivo da humanidade. Ressuscitado, com sua capacidade analógica de embriogênese somática, apesar de dissociado pela morte, revive uma misteriosa transmutação de esponja em pão, de vinagre em azeite. Após a ressurreição ele torna-se, ele mesmo, pão impregnado de azeite, o pão da vida.

Os animais são um espelho para a vida espiritual e psíquica do homem. Por isso Deus os fez desfilar diante de Adão (Gn 2,19). Ele quer que esse Homem – que nós somos – tome consciência de sua identidade, sob todos os aspectos. Em todos animais bíblicos existe um tesouro espiritual escondido.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Jesus e os animais. A Tribuna, Campinas – SP, v. 92, p. 10 – 11, 2001.

1 comment for “JESUS E OS ANIMAIS

  1. 1 de setembro de 2016 at 00:08

    “A Terra Prometida” – capítulo 41

    Tobias percebe a aproximação dos inimigos. Acã se desespera. Elidade, Quemuel, Haniel, Maquir, Iru, Tobias e Rune começam a lutar com Tibar e..

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