INFANTICÍDIO MATERNO


(2/2/2006)

Evaristo Eduardo de Miranda

Um bebe foi encontrado morto dentro de um saco plástico numa vala, em Canoas no Rio Grande do Sul. Os pais, detidos pela polícia, disseram que fizeram isso pois a criança aparentemente estava morta pois “nem se mexia”. Confessaram já ter feito a mesma coisa três anos atrás, com outro bebe. Em Belo Horizonte, a mãe lançou uma menina recém nascida na poluída Lagoa da Pampulha. A criança foi salva milagrosamente e o fato emocionou o país. Tempos atrás, outra mãe, jogou seu recém-nascido, natimorto segundo ela, num córrego de Campinas.

Em 1685, o padre jesuíta Alexandre de Gusmão (1629-1725), pedagogo e literato, fundador do Colégio de Belém, em Salvador da Bahia, publicou um tratado de grande impacto: “A arte de criar bem os filhos na idade puerícia”. Seguindo a tradicional orientação da Igreja, ele defendia que o amor materno não é natural. A mãe tem instinto materno, mas deve ser educada para amar. Se o amor materno não for educado, os filhos apanham, sofrem, são abandonados e até assassinados, como se fossem objetos ou animais. Esse tratado de psicologia familiar e infantil, aborda dimensões pedagógicas e responsabiliza fortemente os pais com relação aos filhos, indicando caminhos. Poderia ser um livro de referência para muitos pesquisadores no campo da psicologia e da pedagogia. E para muitos pais.

No século XVII havia muita discriminação quanto ao acesso das mulheres à educação e à formação profissional, como até pouco tempo atrás. O padre Alexandre de Gusmão afirma em seu livro “Pode vir em questão, se é conveniente, que as filhas aprendam as artes liberais desde mínimas, assim como é certo dos filhos mínimos. Ao que respondo que não só é conveniente, mas grande glória para o sexo feminino”. Desde sua criação, uma das dimensões principais da espiritualidade da Companhia de Jesus e de sua formação é a ênfase no conhecimento de si mesmo e no diálogo interpessoal visando a compreensão da dinâmica psicológica interior de cada um.

Graças a essa perspectiva, a Igreja do Brasil do século XVII ao XX, prestou grandes serviços à sociedade, acolhendo as crianças rejeitadas. Os chamados expostos ou enjeitados eram deixados nos adros das igrejas e Santas Casas de Misericórdia. A Igreja encarregava-se de encontrar famílias capazes de “criar bem os filhos na idade puerícia”, promovendo uma acolhida familiar que durava até os sete anos, quando as crianças eram encaminhadas para colégios religiosos. As Câmaras Municipais davam o “auxílio domiciliar” para as famílias que assumiam esse compromisso. A situação das crianças abandonadas e das mães era infinitamente menos trágica do que nos dias de hoje. Laços de solidariedade foram criados nas comunidades e naquele tempo, a lógica do abandono não implicava em marginalização ou morte, como nos dias de hoje. Mais ainda, as mães incapazes de criar seus filhos não os matavam, nem os abandonavam em valos, córregos ou lagos.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Infanticídio Materno. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 7, p. 5, 2006.

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