ÍCONE


(21/1/2006)

Evaristo Eduardo de Miranda

A palavra ícone domina a linguagem informática. Cada programa ou processo num computador pode ser identificado por um ícone. Essa representação sintética é signo, sinal e símbolo. Além do mundo da computação, o ícone é um velho conhecido da Igreja, principalmente das orientais. Ícone é o nome dado às imagens de santos e anjos. E são numerosos os ícones representando Nossa Senhora, Jesus Cristo, a Trindade, santos, apóstolos, anjos etc.

Mais do que a representação de um santo ou de uma entidade celeste, os ícones são o resultado de uma técnica muito precisa de pintura e representação: as tintas, os pincéis, a madeira, as temperas… tudo é específico nessa escola artística. Desenvolvida nos mosteiros ortodoxos, a pintura de um ícone é a imagem e o resultado de um longo trabalho de meditação e ascese espiritual. Medita-se, com orientação espiritual, para escolher um pedaço de madeira, para estudar seus veios, para imaginar o que será representado e tudo isso prossegue até o resultado final, sempre inacabado, por definição. O ícone deve representar e traduzir a verdade. A verdade interior do pintor e o esplendor exterior da interioridade do santo representado. Por isso o local de exposição de um ícone, a iluminação, as lamparinas que o cercam… Tudo conta.

Existem ícones russos que são verdadeiros tesouros da arte sacra. Os brasileiros de origem polonesa, russa e ucraniana veneraram belíssimos ícones com incrustações de pérolas e pedras preciosas, além de amplas aplicações de lâminas de ouro e prata. Talvez os ícones mais impressionantes sejam os que retratam o rosto de Jesus Cristo crucificado, o Cristo da Paixão. Esses artistas pedem inspiração a uma “santa” popular: Venica.

Foi Verônica, no caminho do calvário, quem enxugou o suor, as lágrimas, a saliva e o sangue que escorriam pelo rosto de Jesus. Diz a tradição lendária que ao retirar esse tecido aplicado sobre o rosto de Jesus, encontrou sua imagem perfeitamente retratada. É uma passagem muito bonita das tradições e procissões da Sexta feira Santa. Algumas das atuais Verônicas são verdadeiras sopranas que entoam árias e cânticos de dor e piedade, expondo para o público o rosto de Jesus desenhado numa toalha. Muitas delas têm o próprio rosto coberto por um véu, pois sua imagem não pode confundir-se com a do Salvador. Há cidades do interior onde até o nome da pessoa, que interpreta a Verônica nas representações da Paixão, é mantido em segredo.

Não se sabe nada sob a realidade histórica dessa passagem, mas sabemos muito do nome: vero ícone, verdadeira imagem. Daí Verônica e Veronique. Cuidado com as ilusões e as falsas imagens.

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