HORA DA COLHEITA


(21/12/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

Fim de ano é tempo de comprar agenda, ganhar folhinhas e calendários. Não foi fácil para a humanidade construir um calendário. Diante de um tempo em fuga constante, os homens buscaram na regularidade dos fenômenos naturais, marcos de referência – como as fases da lua ou o movimento solar – para construir seus calendários. Hoje é quase impossível viver sem eles. Mas, o que é um calendário?

A palavra calendário vem do latim (calendarium) e significa livro de contas ou de vencimentos. Vencimento no sentido contábil de um compromisso ou de um pagamento devido. Quem procura um calendário, busca organizar seus compromissos, conhecer seus vencimentos, acertar suas contas e dividir melhor seu tempo.

Todos os calendários (astecas, gregos, chineses, muçulmanos, romanos…) dividem o tempo em anos, meses e dias. A palavra ano vem do latim annus e significa colheita, produção do ano. Na Roma antiga, Anona era a deusa do ano e presidia as colheitas. Por isso ao mencionar um ano, que passou ou virá, velho ou novo, estamos mencionando uma colheita, obtida ou esperada. Qual foi nossa colheita em 1996? Qual será a de 1997?

A passagem de ano é tempo de balanço. Hora de olhar para dentro do celeiro da alma e para o armazém do coração, avaliando a colheita obtida ou desejada. Mas essa colheita – de frutas doces e amargas – não ocorre num único momento. Ela se faz ao longo dos meses e eis outra palavra interessante. Os meses (do latim mensis) têm como raiz o verbo medir. Eles evocam a medida percorrida, atravessada ou caminhada. O nome de cada mês percorrido em nosso calendário também possui origem e significado próprios, hoje esquecidos. Mas falar do significado do nome de cada mês é uma outra história e fica para uma outra vez. Voltemos ao calendário, nesta hora de comprar agenda nova e ganhar folhinhas.

Um calendário dá, às vezes, a impressão ilusória de domínio sobre algo de que ninguém escapa: o tempo. No latim, cal (endário) significa também proclamar, convocar (como em inglês call). O primeiro dia de cada mês era chamado em Roma de calendas. Nesse dia, os sacerdotes proclamavam se as oferendas seriam no quinto ou no sétimo dia daquele mês. Vem daí a expressão “ficou para as calendas gregas”, usada quando nos referimos a algo que nunca vai acontecer. Coisas como promessas de políticos ou garantias dadas por governantes. É que no calendário grego, as calendas simplesmente nunca existiram. Mas se o sentido profundo da palavra calendário é proclamação, o que proclama um ano novo?

O encerramento do nosso ano civil coincide com o período do Natal. Um momento onde a Igreja proclama o advento do Cristo, proclamado a Maria por um anjo, proclamado aos pastores por coros celestes e proclamado hoje aos homens por seus irmãos de boa vontade. Estes acolheram a mensagem, a boa nova. Todas as mensagens – divinas, angélicas ou humanas – anunciam que o prometido a todos, e para sempre, pode realizar-se em cada um, em nossa família e com nossos amigos. A promessa da evolução pessoal a cada ano novo, a promessa do reinício perpétuo, da poesia da morte e do renascimento e da graça divina em todas as passagens da vida!

Para muitos, a ordem inteligível, sempre presente no escoar do tempo, é a do movimento perpétuo. Mas para aquele que crê, o tempo pode ser também tempo de salvação, tempo da graça. Nele, Deus age para salvar os homens. Para os cristãos não se trata mais de viver somente a inexorável passagem do tempo (chronos), quarta dimensão do criado. Nós podemos, em Deus, viver um tempo novo e, em Cristo, um tempo definitivo (kairós). Plantar e colher a cada dia, a cada mês e a cada ano. Feliz Ano Novo!

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Hora da Colheita. Aconteliceu, Campinas – SP, p. 06 – 07, 1997.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Hora da Colheita. Correio Popular, Campinas – SP, p. 03, 1996.

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