HISTÓRIAS DE JOSÉS:


O LIMITE COMO CRESCIMENTO

(25/4/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

Não se colocam obstáculos aos cavalos nas competições para que caiam. O objetivo é que, ao ultrapassar o obstáculo, o cavalo se ultrapasse. Isto resume uma das leis fundamentais do humano: é no húmus das dificuldades, derrotas e fracassos que ocorre a verticalização das árvores humanas. Quem sabe crescer, elevar-se no solo dos limites, faz deles um adubo. Quem se deixa hipnotizar, paralisar e horizontalizar pelas derrotas e limites, faz neles um túmulo. José do Egito, José de Nazaré e José de Arimatéia são três paradigmas da necessária elevação do humano.

Na história mítica desses três homens encontramos o princípio que preside a maioria das artes marciais do Oriente: o adversário nunca é visto como um inimigo. Ele é aquele que se opõe a um homem para que neste, face a essa resistência, surja uma nova dimensão de si mesmo. Isso significa que cada humano possui um potencial imenso de desenvolvimento. Cada um é sempre o portador de uma outra realidade, uma outra possibilidade, invisível, infinita, cósmica. Essa outra realidade constitui-se de forças contrárias: uma exige, a outra impede, retarda e atrasa.

O nome José, Iosseph significa “Ele acrescentará”, do verbo hebraico Yasoph, “aumentar”. É o que exclama Raquel no nascimento de seu filho. Ela clama seu nome José (Iosseph) dizendo: “IHWH me acrescenta um outro filho!” (Gn 30,24). O interessante e paradoxal é que esse tema do crescimento, no nome José, está construído sobre a raiz hebraica soph, o limite. As estruturas semânticas do hebraico, Verbo de Deus, nos revelam leis ontológicas, como afirma Annick de Souzenelle. A função dos três Josés é capital: para aumentar, crescer, é necessário aceitar e entrar num limite.

Nosso primeiro José é o décimo primeiro filho de Israel. Seus irmãos mais velhos o invejam. Ele é despojado de suas belas vestes e reduzido ao limite de seu corpo. É colocado nos limites de um poço e vendido como escravo para mercadores a caminho do Egito. Ele descerá até o limite de uma prisão em terra estrangeira: perda da família, da identidade, da nacionalidade, da liberdade. Voltando-se a sua interioridade, ele ouvirá com maior clareza a voz do seu Ser interior, os sonhos. José cresce. Sua capacidade terapêutica de entender os sonhos o retirará da prisão. O faraó o eleva às maiores dignidades da corte e confia-lhe a administração do reino. Escolha e engajamento são essenciais, no aceite do limite como via de crescimento. Nisso há algo do alcance ontológico da lei da circuncisão, mas na essência trata-se de decisão e engajamento.

É pela mão desse José que Israel entrará nessa matriz, nesse húmus do Egito, de onde sairão séculos depois, num parto difícil. Será a passagem, o salto, a páscoa, na travessia do Yam-soph, o mar do limite, dos juncos, designado pela tradição oral como mar Vermelho. Entre Yasoph e Yam-soph, entre esses dois limites, Israel verticalizou-se, cresceu, em engajamento e decisão. Sobretudo quando o faraó ampliou os limites impostos a Israel.

Engajamento e decisão não faltaram ao José de Nazaré, paradigma do pai que soube retirar-se diante do crescimento do filho. Retirar-se não significa abandonar. José foi um pai diligente. Agiu com coragem, presença e eficiência quando necessário: assistiu Maria no parto, organizou a fuga e a vida no Egito, o retorno à Palestina etc. Mas diante do crescimento e da vida própria do filho soube se retirar. Num silêncio e discrição tão sutis, ele desaparece sem ser notado, até dos textos evangélicos. Esse pai soube crescer diante das dificuldades e limites extraordinários que a vida lhe apresentou. Abdicou de muita coisa. Inclusive de uma certa condição de paternidade: um paradigma para nós, Igreja, e um paradoxo para os não crentes. Deus só falava com José por sonhos! Quatro falas e quatro sonhos (Mt 1,20; 2,13; 2,19 e 2,22). Ele vive atento, em harmonia e diálogo com seu Ser profundo. Em José, essa extraordinária capacidade de lembrar, interpretar e agir segundo seus próprios sonhos, diz muito sobre sua interioridade e equilíbrio psicológico.

Mas José, e a raiz hebraica Yasoph, com muito mais profundidade, nos revelam um dos aspectos fundamentais do mistério da Encarnação: Deus mesmo entrou num limite, numa matriz, um segundo tzimtzum, no ventre de uma mulher, que Ele torna “mais vasto que os céus”, a mais extraordinária das catedrais. Um tabernáculo matricial que José cuidou de forma diligente.

No final será a vez de um adepto de Jesus ben Iossef, José de Arimatéia – Iossef de Ramataîns. O nome dessa cidade, situada a 14 km a nordeste de Lod, significa “a Dupla Altura”. Ele roga a Pilatos para cuidar do corpo de Jesus (Mt 27,57; Lc 23,51; Jo 19,38). E cuida de forma diligente desse túmulo – onde ninguém havia sido posto -, uma nova matriz de morte e ressurreição. Muitos homens, muitos Josés ajudaram o homem de Ramataîns a rolar essa imensa pedra que ao fechar o sepulcro, protegia o corpo de qualquer violação. E impõe um último, definitivo e aparente limite. É a kenose que contemplam os padres da Igreja, Deus se limita, uma contração do infinito no finito, até a morte, para que o Homem tome sua dimensão infinita.

O exterior e o interior do Homem são dois pólos de uma mesma realidade. Nós vivemos o que somos. Não por punição mas para nomear o que se passava em nós de forma inconsciente e que até então nos escapava totalmente. Para ampliar nossas dimensões e caminhar para o infinito. Nós temos a possibilidade de buscar as fontes das provações e limites no interior de nós mesmos, ao invés de encontrar um bode expiatório no exterior. As provas devem ser transformadas em jóias, únicas e de infinito valor. Isso é possível pelo trabalho do Sopro, do Espírito, mas não é fácil. A ajuda externa é quase inútil. Ninguém pode se colocar no lugar do outro e nem na plenitude de sua dor. Os limites ensinam a existência na vida de passagens irredutíveis e intransferíveis, chamados diferenciadores, únicos como o nosso próprio ser. Eles chegam como oportunidade de um novo caminho, próprio e apropriado, para irmos à descoberta de nós mesmos na perspectiva do Infinito.

Fontes bibliográficas:

A Bíblia. Tradução de A. Chouraqui. Ed. Imago. Rio de Janeiro. 1995.

Bíblia hebraica. Com comentários de Rachi. Trejger. S. Paulo. 1993. 262p.

Bíblia TEB. Tradução ecumênica. Loyola. S. Paulo. 1994. 2480p.

Miranda E. E. de Água, Sopro e Luz. Ed. Loyola. São Paulo. 1995. 107p.

Souzenelle, A. de L’Égypte intérieure ou les dix plaies de l’âme. Albin Michel. Paris. 1991. 209p.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Histórias de Josés. O limite como crescimento. A Tribuna, Campinas – SP, v. 3761, 1999.

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